Wednesday, April 01, 2020

Contos da Quarentena I Confina a mente

Só me falta a farda!” Não conseguiu conter a força do pensamento de maneira que lhe saiu em voz alta em frente ao espelho. Começava mais um dia de quarentena e de trabalho para António Oliveira. Apesar de reformado e fazendo parte dos grupos de maior risco por força da idade, não era medo que sentia durante esta pandemia. Animava-o uma nova vitalidade, uma alegria estranha ao ver, nas notícias, os soldados pelas ruas.  

Tempos houve, de má memória para António, em que a tropa na rua era sinónimo de desgraça e degeneração. Mas agora não! Impunham a ordem que desejava que fosse geral ao país, ao mundo. Durante as horas do dia em que o corpo não reclamava o descanso, estava na marquise com um olho, vigilante, na rua, pronto a gritar ordens e imprecações a quem avistasse, e outro no computador, ligado às redes sociais. Este aparente estrabismo era alegremente suportado por António que desejava que o livrassem, a ele e aos outros, desse vício que era a Liberdade, empregando mais músculo na aplicação de medidas de contenção. “Todos temos que fazer sacrifícios”. Era assim que colocava as coisas. E, afinal, que sacrifício era este? Ficar em casa, com todos os confortos da vida moderna: água canalizada, esgotos, eletricidade, internet! O confinamento nunca foi tão fácil como agora. Com um telefone ou só com a internet pode-se encomendar de tudo. Fruta, verduras, carne, peixe, móveis, eletrodomésticos, vinho, medicamentos, máscaras, álcool gel… Até brinquedos sexuais para os mais pervertidos, António tinha visto por curiosidade.  

Opinava muito, lia bastante, ignorava as notícias quando os factos reportados não validavam os seus pontos de vista, mas partilhava muitos rumores e boatos quando eram mais do seu interesse. Acabara por desenvolver uma capacidade de leitura muito específica. Não se pode chamar “ler nas entrelinhas”, ia mais além: “ler nas entreentrelinhas”. Procurar numa notícia um detalhe a que ninguém mais dava importância e elevá-lo à categoria de parágrafo guia. 

Do seu saudoso pai, antigo agente da Polícia Internacional de Defesa do Estado, herdara não apenas a devoção a São Salazar, mas também o culto da ordem e do respeito. Enquanto se olhava ao espelho, procurava nas suas feições vestígios do rosto autoritário do desaparecido progenitor e concluía que era mais desafortunado por viver nestes tempos.  Ao pai coubera em sorte defender a Pátria da ameaça do comunismo, um cancro que minava as fábricas e explorações agrícolas. Com que amor pelo Estado infligia torturas físicas e psicológicas a estes bolcheviques! Era com espírito de missão que apagava os cigarros nas suas costas ou lhes arrancava as unhas. Nada melhorava mais a disposição deste diligente funcionário do que fazer “cantar” um destes vermelhos à bastonada. Chamavam-lhe “maestro” porque sob a sua “batuta”, todos acabavam por “cantar” ou então numa cama do hospital. Depois disso, Tarrafal, lugar do Chão Bom, onde a comida apenas impedia que caíssem no chão inanimados e os médicos existiam só para assinar declarações de óbito.  

Felizmente que o seu pai tinha sido poupado a estes tempos. Acabou por morrer cedo, já com o país a festejar uma pirralha liberdade. Talvez dos nervos que sentia por temer ser reconhecido na rua por algum comunista dos que tinha torturado tivesse acelerado a sua partida. Contudo, pensa António, com alívio, sem remorsos por ter servido o país. A António afligia-o não ter podido usufruir dessa honra. Tinha feito os 18 anos e estava na tropa quando veio o destacamento para o ultramar. Guiné. A família via aquilo como uma sentença de morte. António era enfermiço, não havia doença infantil que o não tivesse apoquentado e ainda o acompanhava a asma, a rinite e outros achaques sem fim. Para fazer a recruta, fora o cabo dos trabalhos. Antevendo que António seria repasto para mosquitos e que o paludismo o mataria mais depressa que as balas do inimigo, a família empenhou-se em evitar tal fatalidade. O pai era alguém na polícia política e conhecia as pessoas certas. Sabia muita coisa sobre muita gente e entre a oferta de favores e a sugestão de uma ameaça, conseguiu que o filho ficasse pela metrópole. Não teve, assim, o privilégio de colocar a sua vida entre a pátria amada e aquelas que a queriam ameaçar.

António recordava ainda o confinamento a que o seu pai fora obrigado durante vários anos após a revolução. Revivia o seu desanimo ao ver que um homem grande e orgulhoso ia definhando neste abominável novo mundo. Isso fazia crescer o seu ressentimento para com a Revolução. Lembrava a quarentena que o pai cumpriu, sem aparecer na rua, a ida para uma aldeia perdida no mapa em Trás-os-Montes onde ninguém suspeitasse das funções que desempenhara com tanto zelo, até ao dia em que morreu e António e a mãe puderam, enfim, regressar ao apartamento vazio no Lumiar. 

Lembrava-se e passava a mão pela calva, único vestígio do cabelo desgrenhado que, contra a sua sensibilidade estética, outrora fora obrigado a ostentar. Reflete. “eram as máscaras da altura, não se podia sair à rua de outra maneira.” Eram tempos em que o cabelo curtinho nem a militares ficava bem visto. As ideias novas saíam, livres, da cabeça e iam deslizando pelos cabelos, infetando tudo e todos, como piolhos, de novas palavras de ordem que inspiravam a maior repulsa em António. Cabelo à escovinha e barba aparada era sinónimo de reacionário e António tinha, na altura, muito medo de que o identificassem como o filho do PIDE. Hoje, felizmente, pensa, as coisas mudaram muito. Apareceu finalmente um partido que defende “os portugueses de bem”, que quer acabar com a “esquerdalha”, que desmonta as mentiras do “jornalixo” e que aceita todos os que querem acabar com a ameaça vermelha no país: dos saudosistas do Estado Novo a Neo-nazis todos são essenciais. “Afinal, se a extrema esquerda pode existir, por que não a extrema direita?!” Tantos anos de liberdade e ele sem liberdade para dizer o que pensa! Que leveza em poder dizer que os pretos deviam voltar para África e os ciganos deviam ser exterminados! E ainda ser aplaudido pelos seus correligionários.

Os dias começavam cedo, tomava um pequeno-almoço espartano, condizente com a situação, já lendo os destaques do seu periódico favorito, Alerta da Manhã. Pegava depois no computador portátil, removendo o sudário de plásticos que o protegiam, para começar o seu trabalho. Tratava-o com o mesmo desvelo que um atirador furtivo trata a sua arma. Encontrou uma primeira notícia que lhe chamou a atenção: “Um campo de refugiados às portas de Beja”. Condicionado para se enervar com a palavra refugiado, imediatamente abriu a notícia, era afinal sobre ciganos. Ainda assim, não fora tempo perdido. Clicou em “partilhar” e produziu as exclamações: “A esta gente nada se lhes pega! O vírus havia era de os levar, para deixarem de mamar à conta dos nossos impostos!” Ao fim de dez minutos, verificou, contente, que tinha cinquenta gostos, vários comentários concordantes e vinte partilhas. Uma onda de prazer percorreu-lhe o corpo, sentimento inequívoco de dever cumprido. Encontrou depois uma publicação sobre os mercados de venda de animais para consumo na China, com espécies pouco ortodoxas para os padrões ocidentais. Nova partilha com a legenda: “Boicote aos produtos e lojas dos chineses! Raça que não acaba, querem dominar o mundo com esta doença! Abram os olhos!” Novo coro de aprovação e aclamação. Por acaso, só por acaso, as notícias eram verdadeiras. António tinha descoberto que a verdade, nas redes sociais, é sobrevalorizada. Preferia acreditar numa mentira que lhe agradasse do que numa verdade que lhe fosse amarga. “A generalidade das pessoas é assim”, refletia, “basta ver como é no futebol, nunca parece haver falta se o penalti é contra a nossa equipa.” Por isso, mesmo sabendo que se tratava de uma aldrabice pegada, partilhava as maiores infâmias sobre os políticos canhotos, sobre ativistas, jornalistas ou aquele que fosse o inimigo do dia.

A seguir era a hora dos programas de rádio que realmente interessavam. As antenas abertas e fóruns públicos. “As pessoas estão fartas de ouvir falar os doutores e engenheiros, quase todos da extrema esquerda. É preciso dar a voz aos portugueses autênticos.” Felizmente, inconsciente da ironia por assim pensar, ele que sempre fora um defensor da limitação da liberdade de expressão de que a organização de seu pai fora expoente máximo, lá marcou os números para participar nos dois programas mais populares. Raramente era escolhido para participar, mas tentava todos os dias. Não falasse ele e falaria outro António. As pessoas iam perdendo o medo de chamar bois aos bois. Os temas variavam, mas a António isso era indiferente. Tinha um guião fixo que apenas necessitava da introdução, essa sim dependia do tema. O pretexto podia ser futebol, educação, racismo, saúde, trabalho, pesca, drogas, Europa, o que fosse. António acabaria por falar do 25 de Abril, do fracasso da democracia, da dissolução dos costumes, da insegurança, das minorias que sugavam o estado social, do marxismo cultural, da ideologia de género e da corrupção. Quando acontecia entrar em direto, ficava num estado de excitação anormal que só acalmava muitas horas mais tarde. Sentia até, apenas nesses momentos, um volume a que já não estava habituado a crescer-lhe nas calças. 

Depois do meio-dia, ouvia a conferência de imprensa com os últimos dados. Tentava ler nas expressões dos ministros e delegados de saúde que tipo de novidades vinham relatar. Desejava, secretamente, que aumentasse o número de infetados e mortos. Quanto maiores os números, mais sucesso obtinham as suas publicações. Quanto mais medo, mais fechados ficavam todos. Refletia: “As mais definitivas das prisões têm sempre o trinco do lado de dentro. Ninguém é aprisionado tão irremediavelmente como quem o faz de livre vontade”. Pegava nos gráficos e indignava-se no mundo virtual: “Enquanto não tirarem às pessoas a liberdade de andarem pela rua, isto não vai ter fim!” Se não era suficiente o medo para levar ao isolamento, António pensava que devia ser o Estado, pela força. Se os números calhavam a baixar, era a sorte, a chuva, era a responsabilidade de alguns cidadãos. Se subiam… bem, se subiam a culpa era dos deputados de esquerda, viciados na peçonhenta liberdade. 

A seguir ao almoço, alguns dos vizinhos vinham à rua. Uns passeavam os cães, que ajudavam a morder a solidão, outros davam pequenos “passeios higiénicos” separados por muitos metros e sem ajuntamentos. António a todos interpelava, cuspindo-se de raiva, do alto da sua janela. “Cambada de irresponsáveis! Haviam de ser presos!” 

De regresso às redes, via que alguém tinha publicado críticas à classe política e dirigente por não ter aplicado medidas restritivas mais cedo, as chamadas "sopas depois de almoço". Não era nenhum especialista, era um antigo colega de trabalho no escritório de contabilidade. Para António era um calhau com olhos, ainda por cima de esquerda, mas desta vez estavam de acordo por isso deixou um "gosto" e o seu costumeiro chiste: “No tempo do Salazar, os políticos eram homens sérios! Agora temos a extrema-esquerda no poder…” 

Ah, eram dias felizes para António. Ainda mais quando o Presidente da República e o Primeiro-Ministro anunciaram, por fim, o endurecer das medidas de contenção. Quem circulasse na rua tinha sempre de ter um documento que o justificasse. Quem não cumprisse, levava multas pesadas e penas de cadeia. Faltou apenas a "delação premiada" para que António ficasse plenamente satisfeito. As ruas, já de si desertas, ficaram ainda mais vazias. As pessoas que cantavam às janelas desanimavam com o prolongar do cerco, recolheram-se ainda mais como se a simples visão das ruas, agora vedadas, lhes provocasse uma angústia insuperável, uma saudade da antiga rotina que antes lhes parecia desinteressante. 

Certo dia, ao executar o seu demorado ritual antes de dormir, apercebeu-se que se estava a acabar a pomada Viks VapoRub. António tinha lido algures nas redes sociais que era um medicamento muito eficaz para prevenir e combater o vírus. Naturalmente, só não era mais divulgado porque a indústria farmacêutica não tinha interesse em que se soubesse. As redes sociais pululavam de páginas “pela verdade” que desmascaravam conspirações de dimensões globais: a rede 5G que controlava o cérebro da população, a vacina para a enfermidade que iria implantar um chip para transmitir dados biométricos às grandes corporações, os “Chemtrails” espalhados pelos aviões que disseminavam químicos pela atmosfera para tornar a população mais dócil e não questionar os seus líderes reptilianos vindos de outro planeta. Havia teorias para o menino e para a menina, era à escolha. Sempre que alguém um pouco mais iluminado chamava a atenção para o absurdo por detrás dessas ideias, os seus seguidores, mandavam-no, invariavelmente, de volta para o rebanho. De maneira que, na manhã seguinte, preparou-se com luvas, máscara e uma garrafa de álcool no bolso e saiu de casa em direção à farmácia com o fito de comprar alguns frascos. 

Ia, feliz por não ter encontrado vivalma no trajeto, quando foi abordado por uma patrulha da polícia. Dir-se-ia que os dois homens estavam cansados da situação, enervados por estarem sempre separados das famílias e expostos aos maiores riscos. Só isso explica que se tenham dirigido a António, que tinha idade para quase ser seu avô com modos tão rudes: “Olha-me este! Que é que andas a fazer na rua, ó velho? Mostra lá a tua justificação.” António empalideceu, não tinha justificação. Começou a explicar que ia comprar o Viks, que era um método infalível para evitar a doença. Os agentes começaram a rir, nem disfarçavam o que achavam de António. “Está bem ó avozinho, diga lá onde mora que vamos levá-lo.” António resistiu, indignou-se, procurou no telemóvel o artigo para mostrar aos agentes. Estes riram ainda mais. Chamou-lhes nomes, desrespeitou a farda e trinta por uma linha, até que um deles perdeu a paciência, atirou-o ao chão com uma facilidade que António não antevira e o algemou. Colocaram-no no carro à força e levaram-no para casa. 

À chegada, uma receção surpreendente. Os vizinhos, todos à varanda. Nas janelas, caras surpreendidas com o que se via: António saía do carro patrulha algemado e com a ajuda dos polícias. Foi libertado, mas os seus carcereiros esperavam que ele se encaminhasse para a porta do prédio. Os vizinhos começaram então, como que num coro ensaiado, a devolver a António, de uma vez, todos os impropérios que foram guardando durante a quarentena, numa enxurrada de raiva artificial, com muito riso contido, que fez o quarteirão estremecer. Entrou no prédio de cabeça baixa e só saiu para receber a primeira dose da vacina. 

Nunca mais vi nada publicado por ele nas redes sociais desde essa altura, mas ainda o vejo todo o dia à marquise, vigilante. Quis-me vender o computador, estimado como estava e sendo bom o preço, aceitei. Disse-me que já não lhe dava uso. Foi um bom negócio para os dois. Quando o liguei pela primeira vez, fui ver o histórico de navegação. A última página que visitou foi a de um jornal que investiga e denuncia notícias falsas, dizia que era mentira que o Viks prevenisse ou curasse o vírus.

 

 

Friday, February 14, 2020

Eutanásia, outra vez

Há cerca de dois anos, pudemos testemunhar um "debate" sobre a despenalização da eutanásia. Então, como hoje, houve muita argumentação inflamada, inquinada pela emoção e até por crenças metafísicas e religiosas. Decidiu-se, na altura, adiar uma decisão para a legislatura seguinte porque o debate terá sido insuficiente.
Hoje estamos na segunda semana de uma campanha, que tem maior a instituição religiosa do país no epicentro, em prol de um referendo. Dizem que durante a campanha para as eleições legislativas não houve uma tomada de posição oficial dos partidos políticos e que, como tal "não podemos permitir que alguns deputados queiram decidir por nós."
Em primeiro lugar, recordo este trabalho do Público (https://www.publico.pt/legislativas-2019/nove-temas-seis-lideres) que questiona os líderes dos principais partidos sobre o assunto, conseguindo uma resposta inequívoca. Em segundo lugar, na nossa democracia é exatamente assim que as coisas funcionam: elegemos um parlamento para que os deputados possam exercer, em nossa representação, o poder legislativo.
Depois temos ainda a pergunta que querem propor aos portugueses, formulada de forma demagógica e inaceitável: "Concorda que matar outra pessoa a seu pedido ou ajudá-la a suicidar-se deve continuar a ser punível pela lei em quaisquer circunstâncias?"
Na minha opinião, a despenalização da eutanásia é uma inevitabilidade, um avanço civilizacional inexorável. Vai acontecer mais tarde ou mais cedo, com maior ou menor oposição. Mesmo que algumas instituições religiosas tentem instrumentalizar os fiéis e usem celebrações religiosas para fins políticos, ignorando até Cristo que diz em Mateus 22:21: "Dai pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". A laicidade do Estado não deveria ser um tema em 2020, especialmente quando olhamos para a forma como se vive na maior parte dos estados confessionais que ainda subsistem pelo globo. Um estado laico respeita de igual forma todas as religiões, permite a liberdade religiosa sem que esta se sobreponha às leis do país. Mas deve haver reciprocidade. As instituições religiosas devem também respeitar o funcionamento da democracia. Os  fiéis, apesar de serem, alegoricamente chamados de rebanho, podem comportar-se com autonomia e usarem o seu pensamento crítico e livre arbítrio para escolherem as forças políticas que melhor representem as suas convicções.
O CDS, o PCP e o PSD deixaram claro que estariam contra a legalização da eutanásia, ressalvando Rio que haveria liberdade de voto no seu partido. Curiosamente, foram os partidos que mais perderam eleitorado. Não estou a afirmar que haja uma relação direta entre as propostas e os resultados, mas é factual.
Há dois anos, como hoje, penso que é uma questão de valores. Temos em oposição a Vida e a Liberdade. Na minha escala de valores, a Liberdade é mais importante. Os próprios mártires da Igreja sacrificaram a sua vida pela liberdade religiosa. Nisso concordo com os perto de 70 milhões de martirizados que se contabilizam desde os tempos de Jesus.
Acima de tudo, a despenalização da eutanásia reforçará a liberdade. Quem prefere, em determinadas condições, terminar com o sofrimento, pode fazê-lo sem temer a perseguição dos que o auxiliarem. Mas quem se opuser a isso, pode continuar a sua vida até ao fim natural, suportando as dores e o sofrimento de que algumas religiões fazem a apologia. De preferência, devem poder contar com os melhores cuidados paliativos que a ciência puder proporcionar. Já contam com um alívio que não menosprezo, o da fé. A fé pode ajudar os crentes a justificar e aceitar o sofrimento, mas e os que não a têm? Por que razão hão-de ter a obrigação de suportar a dor? 
A lei será aprovada, com ou sem referendo, hoje ou daqui a dez anos e depois resta-nos questionar porque demorámos tanto tempo. 

Friday, January 24, 2020

Lourenço

"A vida é circular". Era assim que falava. Sentenciava da autoridade dos seus oitenta e alguns anos. "Os que a vêem como uma linha que parece reta, enganam-se". 

Era difícil perceber a que se referia. Os filhos e netos encolhiam os ombros, certos de que a idade trazia já alguma baralhação natural às ideias. Ao mesmo tempo, surpreendidos. Não era costume ouvir-lhe duas frases seguidas. Mas isso não lhe diminuía o entusiasmo. Não lhe interessava se o compreendiam. Sabia que, um dia, chegariam eles próprios à mesma verdade. De que lhe valia tirar-lhes as certezas? Temos que ser nós próprios a abdicar delas, se tentam que as abandonemos, ainda as agarramos com mais força. 

E embalava na conversa: "Eu também pensava que era uma linha que se ia apagando no fim, mas vejo agora que não." Com o bisneto ao colo, os descendentes atribuíam também à comoção do momento alguma desordem no discurso. "É um círculo, nós é que estamos tão concentrados no que acontece à nossa volta que não damos pela curva. Só quando as linhas se vão fechando e repetindo, percebemos que não se apagam. Unem-se!" 

O único que ouvia e parecia compreender tudo era Lourenço, o bisneto com quase dois meses. Este olhava como quem vê sabedoria nas palavras do bisavô, fixava-o com os seus rasgadinhos olhos claros e inocentes de quem ainda não viu todas as faces do destino. Apercebendo-se disso, José, o bisavô, dirigiu-se a ele: "Eu chego ao fim do círculo e tu começas agora. Se isto não é a perfeição, não a há no mundo!" E dos olhos velhos e cansados, enquadrados por farto sobrolho, escorria afeição, aceitação e contentamento em estado líquido. Lourenço expressava, tanto quanto é possível a um recém-nascido, sentimentos semelhantes. 

Eram os dois uma ilha naquele mar de ignorância. Partilhavam um conhecimento que, em breve, ao mais velho de pouco serviria e o mais novo depressa ia esquecer. Os outros pensavam em outras coisas: na ceia de Natal, presentes e sabe-se lá em que outras ninharias. "Não te peço que te lembres de mim. Acabaste de chegar e eu estou quase de abalada, mas pergunta por mim. Mantém o círculo fechado sempre. Sem memória, somos como os bichos, somos quebrados. O meu nome, no fim do teu, não basta. Tenta saber de onde vens. Tens de o fazer!"

E podia acabar aqui, mas não acaba. Na realidade, continua sempre. Com Lourenço, a abrir nova curva e a dizer ao seu bisneto: "A vida é circular".

Wednesday, December 18, 2019

A Lenda da Ferrenha


Da rocha, brota tranquila e solenemente um fio de água. Um mistério. Uma pessoa fica a olhar e a perguntar-se a sua origem e porque vem ao mundo naquele lugar. Os locais, durante séculos, têm adorado aquele sítio. Mesmo hoje, quando lhes basta acionar uma banal torneira em sua casa e têm água à sua disposição, frequentemente rumam ou romam à Ferrenha para lhe prestar tributo. A aumentar o fascínio pela fonte, o sabor da sua água que, certamente, terá contribuído para o seu batismo. Um sabor a metal. Não chega a ser desagradável, mas quase. A mim, sempre me lembrou, sei lá porquê, o sabor a sangue novo.

Em todos os locais, ouço lendas. Associadas a um castelo, a um monte, a uma ribeira, a um fragão e, claro, a fontes. Da Ferrenha, nunca tinha ouvido nenhuma, embora seja um local icónico para qualquer escouralense. Ir à Ferrenha é viajar nas memórias íntimas e nas memórias comuns. Seguir a ribeira que ela alimenta, da vila até à nascente, é como retornar à primeira infância, numa viagem familiar por afetos e lembranças. Um retorno impossível ao útero materno. Como Bernardim Ribeiro, “ao longo da ribeira que vai polo pé da serra”, assim vamos, como se aquela ribeira fosse a nossa ligação à Ferrenha.

Pareceu-me mal vê-la assim, órfã de aition, e, acometido de indignação por esta injustiça, longo tempo pensei em descobrir um mito fundador para esta fonte. Pensei que pudesse estar ligado à presença dos primeiros hominídeos que aqui procuraram abrigo. Mas se não escreviam e não deixaram tradição oral, não me pareceu possível. Ocorreu-me que pudesse estar associado a outro mito, o da residência do Santo Condestável, D. Nun’ Álvares Pereira, mas estive quase a desistir dessa ideia também.

D. Nuno ter-se-á retirado na mesma altura que a vila foi fundada. Diz-se que foi viver numa casa senhorial no monte que, por isso mesmo, ficou com o nome de “Cavaleiro”. Porém, após 1423, D. Nuno dividiu as suas propriedades pelos seus homens de confiança e abraçou a vida monástica. Não possuindo, apesar de santo, o dom da ubiquidade, não será provável que tenha vivido no Cavaleiro ao mesmo tempo que se internou no Convento do Carmo, de onde distribuía esmola pelos pobres da capital e cunhava a célebre expressão “uma lança em África”. Mas a minha pesquisa descobriu que terá vivido no Cavaleiro ainda antes da fundação da vila.

Num controverso manuscrito apócrifo encontrado nas ruínas do Mosteiro de Nossa Senhora do Castelo das Covas do Monfurado, dos Monges Eremitas Descalços de São Paulo, é descrita a vida do santo neste período. Estes monges fixaram-se, oficialmente, no Monfurado no início do século XVIII, mas desconfia-se que já por lá viviam há muitos anos, eremitas, nas lapas subterrâneas da serra. O manuscrito sobreviveu à destruição provocada pelo grande terramoto de 1755 que arrasou este aziago mosteiro, mas perdeu-se.  Há quem diga que está esquecido no Arquivo Nacional da Torre do Tombo ou que foi destruído. Há também quem diga que é uma fantasia que algum mentiroso ou sonhador tenha inventado. Ficou, ainda assim, a história conhecida por alguns. Foi-se multiplicando, passada dentro das famílias, como preciosa herança.

Conta-se, então que, cansado das batalhas em que passara boa parte da vida, quase tanto como das honrarias e homenagens a que depois o obrigaram, D. Nuno tomara a mansão no Monfurado como um refúgio. A um homem como ele, sempre lhe parecera que a guerra era uma obrigação, algo que os homens fazem uns contra os outros com o fim último de a tornarem o mais breve possível. O que mais esperava, agora que os Castelhanos tinham feito a paz e aceite o seu D. João I, era que não lhe lembrassem o horror da guerra. Queria o esquecimento das ordens que deram para matar e morrer, dos corpos ensanguentados e sem vida que jaziam no campo de batalha e lhe assombravam as noites. Odiava até que lhe chamassem Condestável, cargo com que fora agraciado. No Monfurado, era apenas o senhor. A vida era mais simples. Caçava, lia e tratava da correspondência que chegava sempre com muita dificuldade.

Apreciava as caminhadas pela serra, sozinho, contemplando os vales e a planície que se estendia a partir do Monfurado como um mar imenso pelo Alentejo fora. Nessas caminhadas, parava sempre numa pequena nascente de onde a água brotava da rocha. Aí bebia e ficava longas horas até anoitecer. Os servos encontravam-no, contemplativo e alheado da realidade. Essa água, com um sabor férreo, era a nascente mais próxima da sua casa e, naturalmente, era de onde se abasteciam para todos os gastos domésticos, dos banhos à alimentação. Mas esta água levava-o sempre de regresso ao frémito da batalha, o sabor lembrava os ferros que levantava contra os castelhanos e os seus partidários, entre eles, alguns irmãos lusos. A água, parecia-lhe ter um sabor ao sangue que tinha ordenado derramar nos Atoleiros ou Aljubarrota. Foi a fonte a que o povo deu o nome de “Ferrenha” que levou D. Nuno à decisão de se tornar carmelita. Entregou o Cavaleiro a um dos seus mais fiéis homens e, embora mantendo a cota de malha por baixo do hábito, tomou o nome de irmão Nuno de Santa Maria e entrou, para aquela que seria a sua derradeira morada, o Convento do Carmo. O irmão Nuno dedicou a vida à mendicidade, pedindo para os pobres, até ao Dia de Todos os Santos de 1431 em que, na presença d’el Rei e dos infantes, abandonou este mundo.

Era este, estripado dos detalhes e riqueza da linguagem, o conteúdo do manuscrito. Muitos questionam, mais que a autenticidade, a sua existência. Pouco importa para a Ferrenha, que antes de D. Nuno já lá estava e continua séculos depois. A água da Ferrenha levou D. Nuno à beatificação, não o deixando esquecer o seu passado. A nós, lembra-nos o nosso, o sítio de onde viemos. Como a água do Lete, um dos rios de Hades cuja água provoca o completo esquecimento, só que ao contrário.

Wednesday, November 27, 2019

Menina Anita


Quando os sinos começavam a tocar a anunciar a ida de algum habitante desta para melhor, era quando a menina Anita se sentia mais viva. Saía à rua a saber quem era o finado. Voltava para casa, aborrecida, se era alguém com quem tinha pouca lidação ou pessoa com que estava desavinda por razões próprias ou familiares. Quando era um moço ou moça da sua criação, parente próximo ou afastado, aí sim! Já tinha planos para o serão. Tinha como passatempo passar a noite a velar os falecidos e a confortar os seus familiares.

Solteira e com poucas distrações apropriadas ao estado civil, suportava melhor o frio ora da igreja ora da casa mortuária, conforme a notoriedade do morto. Diziam as más línguas, que as há em todo o lado, que era por ter a cama fria que não lhe faziam diferença essas noites insones e geladas sentada em frente aos caixões. Só que a menina Anita era bem-avisada, e apresentava-se sempre com um xaile bem grosso, um gibão quente, uma manta de lã para pôr aos joelhos e uma almofada para aquecer e proteger o avantajado traseiro da rijeza das cadeiras de pau. E enquanto os restantes amigos e parentes do finado, amadores nestas lides, batiam o queixo, estava ela bem aquecida e até com umas cores nas faces.

Os dias até podiam ser monótonos e tristes, com a papada encostada ao postigo da sua rua que, por infelicidade, não tinha muito movimento. Tristes era também os serões nos dias em que calhava a não morrer ninguém. O telejornal com notícias que sentia não lhe dizerem respeito, uma telenovela brasileira a que prestava pouca atenção, uma caneca de leite morno e cama. Mas se havia morto para velar, Anita era mais feliz. Havia conversas para escutar, viúvas e órfãos a quem confortar e podia olhar à sua volta, analisando todos os detalhes de cada um, da indumentária à profundidade da dor. Ocupados como estavam, ninguém daria pelo seu olhar inquisidor.

Entrava com um ar de compaixão e benzia-se cerimoniosamente em frente ao corpo. Olhava a cara do defunto antes de proclamar: "está tal e qual como ele era." Rezava um padre nosso de olhos fechados e, quando os abria, procurava a família para lhes oferecer os pêsames. Era uma profissional nesta área, dirigia-se aos cônjuges e aos filhos daquele ou daquela que ia arrefecendo e, numa voz que evocava lágrimas e lamentos, dizia solenemente: “os meus sentimentos!” Uma performance digna de nota que ensaiava muitas vezes no quarto, em frente ao espelho.

Não se pense que a menina Anita se acostumou rapidamente a este labor. Não! A quem é que não custa uma noite fora do camalho? Foi-se habituando, como um maratonista que começa a ignorar as dores nos músculos e a vontade de desistir. Fosse acompanhar os mortos um desporto olímpico e a menina Anita estaria coberta de ouro, apesar da sua compleição pouco atlética. Nunca fora magra, nem em moça. Os pais eram proprietários de uma venda, metade taberna e metade mercearia, pelo que tinha sempre maneira de remendar a fome com que via andar os outros colegas na escola. As irmãs foram casando e saindo de casa e ela ficou a ajudar os pais e para tia de muitos sobrinhos. Quando os pais se foram, vendeu tudo, os supermercados na vila grande tinham acabado com o negócio. Contudo, continuou a atividade da mãe, carpideira encartada, que chorava baba e ranho por todos, desde o mais próximo dos amigos àquele a quem, mesmo na véspera, tinha metido as orelhas a arder. Fora abraçando esse legado e transformara-se, aos poucos, no braço direito da mãe, que morreu orgulhosa de quem lhe seguisse o mister.

Agora, sozinha, encarregava-se de acompanhar os finados da vila, já sem os choros nem dramatismos fora de moda. Em vez disso, tornou-se especialista em tudo o que diz respeito a enterros. Colecionava, com o mesmo ardor que os garotos amealham cromos de futebol ou calendários de bolso, os folhetos com imagens dos falecidos. Inspecionava as coroas de flores e especulava sobre o preço de cada uma delas. Verificava a qualidade da madeira do caixão, área em que era especialista e discutia, entendida, com os proprietários da agência funerária. Analisava os rendilhados que amortalhavam os falecidos. Comparava tudo de enterro para enterro. Vira, a pouco e pouco, a casa mortuária alterar-se. As velas de cera a darem lugar a umas bizarras lâmpadas que imitavam as suas antecessoras. O aparelho de ar condicionado, que tantas discussões causava aos enlutados, fora instalado por cima da cruz, aquecendo ou arrefecendo as noites.

Às vezes, calhava a entrar, altas horas da noite, numa modorra provocada pela falta de sono e chegava a alucinar. O cérebro, cansado, pregava-lhe partidas. Via os fios das extensões elétricas que ligavam as lâmpadas, serpentear, ameaçadoramente. Outras vezes, o morto parecia acordar de um longo sono. Pareceu-lhe em certa ocasião que a cruz, de madeira, derretia. Sabia que nada disso era verdade, que era um truque da imaginação. Chegava a entretê-la naquelas longas horas.

Ocupava também estas noites a planear o seu próprio enterro. O caixão, tinha decidido, seria de mogno escuro. Mas não era só o caixão. Tinha decidido todos os detalhes como uma verdadeira especialista. Numa ocasião, chamou à parte o Sr. Arnaldo, agente funerário que mais trabalhava na vila e com quem tinha muita lidação, e entregou-lhe um envelope. Eram as instruções para quando ela própria morresse. O Sr. Arnaldo, ficou atrapalhado, não era costume ser o morto a decidir estas questões, e ficou também admirado com o conhecimento que esta senhora tinha sobre o seu próprio trabalho.

A menina Anita começou a notar que cada vez menos pessoas passavam a noite na casa mortuária. Ouvia-se falar que, noutros sítios, o morto já ficava sozinho de noite, atrás de uma porta trancada. Escândalo! Impensável! E, ainda assim, a menina Anita olhava à roda e via cada vez menos gente noite afora. As caras que a acompanhavam, uma a uma foram também sendo envoltas nas mortalhas, vestindo as suas melhores roupas e deitadas dentro de um caixão. Até que, certa ocasião, a menina Anita se viu a acompanhar um morto, a noite inteira, apenas com o filho do falecido.

O funeral seguinte foi o primeiro na vila em que a porta ficou fechada toda a noite. Não causou indignação à menina Anita, não terá tido já oportunidade de se melindrar. Lá dentro, sem estar acompanhada, sozinha, passou a sua última noite na casa mortuária.  


 



Wednesday, November 13, 2019

Sueca


Os serões de inverno no monte eram mais curtos. Tinha de ser assim. O sol que se punha cedo e o frio a isso obrigavam. No verão, o monte parecia muito diferente. Os homens e mulheres, sentados em cantos opostos, ao relento, conversavam e riam. Contavam anedotas e episódios que, com mais ou menos exagero, se tinham passado com eles que começavam sempre da mesma maneira: “Vou-vos contar uma parte que me aconteceu”. Os garotos corriam por todo o lado, mais ainda se calhava a lua cheia iluminar com o seu clarão o montado, tornando visível a silhueta de todas as coisas. Brincavam às escondidas, à apanhada e a tantas coisas inventadas que nem eles conseguiriam listar.

Quando o sol começava a ficar mais baixo, os dias mirravam e a noite caía ainda os habitantes do monte não tinham largado o trabalho, a rotina mudava. Dentro de cada casa, os chupões tinham sempre lenha a arder e à volta do fogo, as famílias resistiam pouco tempo a acamalharem-se nos colchões listados e recheados a palha. Ainda assim, para manter o hábito e porque de outra distração não dispunham, os quatro homens juntavam-se depois de comerem as sopas. Na maior parte dos dias, falavam pouco. Eram calados por natureza e também pouco havia para partilharem que os outros não soubessem já. O inverno tornava-os taciturnos, cinzentos como os dias frios e húmidos, que tinham que suportar. Trabalhavam juntos, lado a lado na propriedade do senhor coronel. Vidas quase iguais no pouco que conseguiam amealhar no final de uma jornada de trabalho.

Apanhavam agora a azeitona. Sabiam que, em havendo boa colheita e apanhada a azeitona rapidamente, poderiam vir a gozar da generosidade do senhor coronel. O Natal não vinha longe já e qualquer bónus era bem-vindo para ajudar a pôr qualquer coisa no sapatinho, mas mais importante, a pôr qualquer coisa na mesa. Mesmo com os braços doridos de varejar e com o corpo a pedir descanso, faziam a vontade à cabeça que pedia também uma ocupação. Assim, juntavam-se para jogar à sueca. As parcerias estavam já feitas, eram sempre as mesmas para que os perdedores de hoje pudessem ter a desforra no dia seguinte. Um dos mais velhos era parceiro de um dos mais novos para misturar experiência e cautela com atrevimento e arrojo na dose certa para ter sucesso. Como jogavam à sueca, todos esperariam que fossem quatro, afinal são essas as regras do jogo. Mas, já vamos ver que não.

O Olímpio, era o mais velho dos jogadores. Tinha passado já cinquenta invernos no monte, mas parecia mais. Tinha um olho baço que assim estava desde a infância quando uma brincadeira com um pau lhe deixou uma pua de madeira alojada na vista. O bigode também contribuía para um aspeto que metia respeito, para não dizer medo. Era um bigode quase aristocrático e talvez a única coisa de que Olímpio tivesse vaidade. Mas, Olímpio não era o que parecia. Metia, às vezes, medo aos ratinhos que vinham de longe para ajudar nas searas. Tremiam perante a sua presença quando se apresentava como o manageiro para mais tarde descobrirem que tinha um coração mole. Não fugia de discussões e uma vez mesmo houve uma briga que meteu navalhas. Assim que Olímpio viu o adversário estendido com o sangue a jorrar das tripas, pôs-se da cor da cal e teve que sair dali. Diziam depois que dera metade das suas jornas daquele mês à mulher do desgraçado, mesmo tendo sido o outro a puxar primeiro da navalha.

O segundo era o Joaquim Zé. Este não sabia dizer a idade e, sendo dos mais velhos, era dos mais recentes habitantes do monte. Dizia-se que era arraçado de maltês e o tom moreno da pele parecia confirmar essa ideia. De todos, era o que contava mais histórias. Algumas verdadeiras, outras mentiras, certamente, mas todas com o condão de deixar todos a rir e bem-dispostos. Dizia que tinha crescido junto ao mar, no Brejão. E maravilhava todos a falar do oceano, os seus olhos verdes iluminavam-se a descrever aquela vastidão de água que os habitantes do monte nunca tinham visto e nem conseguiam imaginar.  

Havia depois o Vicente, o parceiro do Olímpio. Acabado de regressar ao monte, vindo da tropa, parecia não ter mais nenhum assunto de conversa desde que fora às sortes. Fora um menino e viera um homem para gáudio do pai e desgosto da mãe. A desgraçada via agora o filho emborcar copos de vinho como se fossem água, a beber medronho como os homens e temia que desse em beberrolas. O pai ria-se desses temores maternais e dava palmadas valentes nas costas do moço que se ria também.

O quarto era o parceiro do Joaquim Zé, o Benício. Rapaz de poucas palavras. Parecia não dar conta das pessoas quando o chamavam e, se era obrigado a falar, fazia-o sempre tão baixinho que obrigava o interlocutor a aguçar os ouvidos e fazer força para o entender. Desde pequeno que gostava mais da companhia das bestas do que das pessoas e tinha mesmo mostrado dotes para os animais. De maneira que, ficara o arrieiro do senhor coronel. A mãe dele dizia que era um “paz de alma”, quase parvo, não tinha maldade. Mas o Joaquim Zé respondia logo “Então vá lá vê-lo a jogar à carta para ver o manhoso que ele é!”  

Havia ainda um quinto elemento que fazia parte destes serões. Não era um jogador, mas era presença sempre à mesa onde jogavam. O Ti Armando. O Ti Armando era sogro do Joaquim Zé e ia já perto dos oitenta anos. Sem poder já trabalhar, tentava não estorvar durante o dia ocupando-se de uma pequena horta que tinham junto à ribeira. À noite, para distrair e usufruir de companhia, juntava-se à mesa para ver o jogo e ouvir as conversas, se as havia. Por respeito aos seus cabelos brancos, perguntavam por rotina se o Ti Armando queria jogar mesmo sabendo que a resposta era invariavelmente negativa. Bem, então jogavam eles.

Mas se o Ti Armando se recusava a jogar, não se negava nunca a interromper as jogadas para perorar sobre um falhanço de um deles: ou porque não respeitara o sinal a pedir trunfo do colega, ou porque não contara as cartas e insistira numa jogada que deu em corte, ou porque devia ter destrunfado ou por qualquer outro motivo. E repetia sempre no fim: “Já não se joga à Sueca, como antigamente”. O Joaquim Zé, já com menos educação perguntava de novo se o Ti Armando queria jogar, ao que ele nem se incomodava a responder, rindo.

Os únicos momentos de descanso que tinham era quando o Ti Armando, por causa dos muitos anos e pelo adiantado da hora, adormecia com a manta aos joelhos embalado pelo jogo de cartas. Se acordava, voltava de imediato aos seus comentários quanto à falta de talento de Olímpio, Joaquim Zé, Vicente e Benício para a sueca.

Uma noite em que as críticas de Ti Armando estavam particularmente azedas e azedos estavam também os quatro jogadores, deu-se um acontecimento que havia de ser contado pelas tabernas do Alentejo, de Barrancos a Odemira e de Almodôvar a Portel. O Vicente enganou-se a dar as cartas, “passou-as” e, em vez de dar dez cartas a cada um, distribuiu-as mal e um ficou com nove e outro com onze. Aí o Ti Armando, entre cuspo e gargalhadas, disse tudo como os malucos. Chamou “burricalho” ao rapaz, disse que já tinha visto fazer todo o tipo de asneira àquela mesa e que, com tanto jogar, em vez de melhorar parecia que jogavam pior. Foi de tal maneira que ficaram todos com a cara muito encarnada e só não responderam porque não se responde a um ancião. Perguntou só o Joaquim Zé ao sogro, sem descerrar os dentes que a raiva fazia apertar: “Quer jogar?”. Mas o Ti Armando respondeu apenas: “Não jogo com burricalhos”, insultando agora todos.

Quando o Ti Armando adormeceu, como era seu hábito, os parceiros ficaram aliviados e puderam retomar a partida ainda com a humilhação a arder-lhes nas entranhas. Foi aí que o Benício, o “paz de alma” que “não tinha maldade” teve a ideia. Estranharam todos o Benício ter uma ideia e mais estranharam estar na disposição de falar com os três para contá-la. Mal a partilhou, os outros três abraçaram aquilo com os dois braços e puseram o plano em prática. Sem fazer barulho, o Vicente tapou muito bem o postigo com um rodilho para não entrar luz nenhuma, o Olímpio apagou o fogo com um pouco de água e o Joaquim Zé apagou o candeeiro a petróleo. Rapidamente tudo ficou na mais absoluta escuridão. Então, sentados nos seus lugares, começaram a bater com as cartas na mesa, simulando estarem a jogar. Guerreavam uns com os outros e tudo, levantando cada vez mais a voz a ver se conseguiam que o Ti Armando acordasse. Finalmente conseguiram. O Ti Armando acorda com o barulho, abre os olhos e nada vê. Passa a mão pela cara, estica os braços e grita de susto: “Mãezinha, estou ceguinho!”. Todos desataram a rir, fazendo tanto barulho que as mulheres vieram a ver o que se passava, trazendo os candeeiros. Só aí o Ti Armando percebeu o que tinha acontecido. Ficou envergonhado por não ter dado pela marosca que os moços tinham preparado, mas ao mesmo tempo aliviado. Foi remédio santo, a partir dessa noite a sueca, no monte, passou a ser um jogo de mudos.

Monday, October 28, 2019

Deusnossosenhormeperdoe


“Não fazem pouco de mim, que eu não deixo. Lá porque são mais espertas que eu… quer dizer, mais espertas não são, tiveram uma vida melhor. Enquanto elas andavam na escola, de bata branca a aprenderem a tabuada como umas senhoras, andava eu atrás de um rebanho de cabras e a trabalhar no campo. Havia eu agora de ter saúde?! Andei muito curvada a apanhar tomate, a mondar e nas searas. As minhas costas ficaram bem marcadas, que ainda hoje, em mudando o tempo, é dores em cima de dores. Pensam o quê? Pois!” 

- Então minha querida, está boa? Gosto tanto de a ver, veio também ao panito, não?

“Olha lá aquela. Aqueles brincos são iguais a uns que eu vi na montra da ourivesaria, estavam marcados a 300 euros! Isso não ganho eu de reforma que trabalhei uma vida inteira. Uma vergonha! Andam aí mostrando e esfregando na cara das pessoas, feitas imposturonas. Velhacas! Passassem o que eu passei e queria ver se tinham esse ouro todo pendurado. Eu conseguir andar na vila sem estar toda esburacada e ainda me chegar para a farmácia e o supermercado, ainda é uma sorte. Se sobrasse um bocadinho mais… não era preciso muito que eu, habituada a viver com pouco, ainda consigo poupar, que lá isso a minha santa mãezinha e o meu pai sempre me ensinaram, ainda mandava arranjar a placa. Custa-me andar com a boca neste estado que ainda serve de consolação a gente rir com dentes, mesmo com a barriga vazia ou remediada com uma sopinha. “

- Então minha linda, está boazinha? Estava agora mesmo a admirar os seus brincos. Muito bonitos.

“Falsa. Deve ter sido o amigo que lhos deu. Pensa que não se sabe, mas eu vejo-o sair da casa dela. Espreita pelo postigo a ver se vem alguém na rua e não me vê por detrás dos cortinados. Grande puta! Toda a gente sabe. Eu não sou de conversas, mas há coisas que me fazem impressão, pronto. O homem é casado, e ela a enfiar-se por debaixo dele sabendo que tem mulher à espera em casa. Para ganhar uns brincos! Há gente para tudo. O meu era outro assim. Não podia ver mulher à frente e ficava como um burro no cio. Isso era como o outro. Que só uma vez lhe disse que me parecia mal. Agora bater-me como depois deu em bater! Ai isso não, santa paciência. Ainda aguentei uns anos daquilo, até as moças se acabarem de criar e casarem. Agora, depois de velha, ainda apanhar porrada? Ninguém merece. Passa-se mal uns tempos que isto já se sabe, os homens sempre ganham melhor e o dinheiro dele ficou-me a fazer muita falta para orientar uma casa. Mas antes passar por dificuldades do que levar porrada sempre que ele lhe apetecia.”

- Então vizinha, como está o seu mocinho?

“Mocinho! Um drogado. O marmanjo, uma pessoa olha para ele e, deusnossosenhormeperdoe, mas vê-se mesmo que é um drogado ou um paneleiro. Ou as duas coisas! Não gosto nada do estilo dele. Calças justas, cabelo grande e brincos. Diz ela que este ano vai entrar para a universidade. Deve de ir sim senhora, e eu sou a Brigite Bardot! Mais certo é entrar para a prisão. Isto são coisas que não podes dizer a ninguém, Leonor, mas esta gente… era mandá-los todos para o mar num barco com um furo. E mesmo assim tinhas que estar uns tempos sem comeres peixe, filha. No tempo do Salazar não se ouvia falar disto! Havia respeito, R-E-S-P-E-I-T-O, olá se havia! Fazia falta outro. Eu votava nele que aquilo da tortura e da PIDE é conversa dos comunistas! Gente que nunca gostou de vergar a mola.”

- Então vizinha, amanhã vamos ao terço? Lá nos encontramos.

“Vai rezar o terço para quê esta? Uma maledicente, corta aí na casaca a meia rua. Ainda no outro dia estava eu a dizer à Jacinta da fruta que esta menina devia ter espelhos lá em casa. Vieram-me contar que disse à Toninha que eu cheirava mal dos sovacos. Eu! Cheirar mal! Tomo banho todos os sábados que não vale a pena andar a tomar banho mais vezes. Não ando a transpirar. Porca é a língua dela que naquela boca não há ninguém bom. E depois vai à missa e reza feita badalhoca. O que ela queria era que o padre lhe desse uns apertos que o marido já não tem força para nada. É um banana que anda a sustentar-lhe os luxos, para andar aí com o cabelo arranjado todos os quinze dias. E eu só o lavo à da Júlia uma vez por festa que isto não estica para mais. Tivesse eu um homem com um ordenado como o dela e fazia mais vista. Aquilo é só toucinho, só o que tem é manzarulhos de carne, uma bácora bem manteúda. Na excursão que fizemos da INATEL eu bem vi. Era rolos e rolos de banha por baixo do fato de banho. Comprou um preto para se notar menos, mas então! Gorda! Nem se compara cá comigo, tivesse eu a placa amanhada e ainda arranjava um daqueles velhos viúvos que vão nas excursões.

- Então senhor Joaquim, está melhorzinho da constipação?

“Velho dum real cabrão! Rijo, rijo, rijo e só o que faz é queixar-se. Anda ali como o ferro. Ainda vai enterrar uma macheia deles mais novos antes de ir para a quinta das tabuletas. Tivesse ele diabetes como eu, ou as articulações no estado em que tenho as minhas e logo via o que era penar. E a médica de família, aquela bêbada, que não me manda fazer análises. E ainda diz que eu estou muito bem. Deusnossosenhormeperdoe, mas isto era ela ter as minhas dores uma semana para ver se aprendia. Quem diz uma semana diz um mês. Quando a apanho antes do almoço a coisa, às vezes, escapa. Agora depois de se encharcar na pinga, da parte da tarde, mais vale nem lá ir. Bêbada! E este velho, cheio de genica que eu nunca vi um velho de 80 anos a fazer o que este faz, a queixar-se de dores. O mal é da idade, sua carcaça. Eu, com os meus 64 também já vou tendo dores, que é que ele julga? Vejam lá se me pergunta se estou melhor? Viu-me vir da farmácia com um saco cheio de medicamentos e nem perguntou se estava doente! Falta de educação, isto ninguém quer saber de ninguém. Fora tu, Leonor que és uma santa. Todas como tu Leonor!

Thursday, October 24, 2019

Açorda



A casa está em silêncio. Mas não para Joaquim. Quase na obscuridade, ficciona ruídos passados, no presente. Justapõe realidades. Senta-se no cadeirão da sala, velho e gasto como ele, de olhos fechados para melhorar a concentração. Assim consegue convencer-se melhor que ouve realmente. É um exigente exercício na casa deserta. Da cozinha, imagina um som com uma cadência constante. É o som dos sábados de manhã. Pum, espaço, pum, espaço, pum... O ritmo não é apressado, mas nunca atrasa. A mão responsável pelo som mostra determinação e mestria, hábito feito de muitos anos. É a mão de Umbelina, a sua mulher, que prepara o almoço. É dia de açorda. Bate os alhos e os coentros enquanto coze os ovos e um rabo de bacalhau. Para que o efeito seja perfeito, Joaquim sincroniza o bater do seu coração com esse som que resgata a memória de dias felizes. É com este compasso que a porta se abre, de forma quase mágica, para que outras memórias contagiem o presente.


São os últimos dias da sua vida, ele pressente-o, tanto quanto é possível a alguém saber que o fim se aproxima. São dias amargos. Mas este mecanismo que descobriu permite que sejam agridoces as horas, longas, que se vão arrastando sem sentido. Com o metrónomo que é o seu coração em funcionamento, aos poucos, vão-se juntando outros sons a esta sinfonia.


Atrás de si, no corredor, o som de crianças a correr, sons quentes de riso e alegria. Poderia ser, diria um cínico, o som de uma motorizada que aumenta e diminui ao ritmo do punho do seu condutor. O vizinho até tem uma Famel bem barulhenta. Mas não é nenhuma motorizada, são os filhos que andam a jogar à apanhada, de novo perto dele. Esquece, por momentos, que andam longe. Estão com as suas novas famílias, sistemas solares nos quais teve o mesmo destino de Plutão, despromovido a planeta anão. Será que às vezes pensam nele? Será que também fecham os olhos e recordam o seu agora velho pai, outrora forte, maior que eles? Emociona-se e quase quebra o encantamento. Retoma o foco no bater do coração e da açorda.


Ouve agora um novo som. Quem, como nós, vê a cena de fora, poderia pensar que são os pássaros nas figueiras do quintal a fazer a corte às suas companheiras. Mas é a filha, que, no seu quarto, canta. Joaquim nunca gostou particularmente de música. Sempre foi mais apreciador do silêncio e do sossego, mas qualquer coisa sempre se comoveu nele ao ouvir a sua filha cantar. Era a mais nova, tinha uma ligação diferente com o pai. Chamava-lhe “a minha melra” por a surpreender muitas vezes a cantar. Tanto dava a Joaquim qual era a canção. Podia ser uma moda alentejana, um hino da igreja ou uma música popular, daquelas que tocam na rádio, queria era ouvir a voz da filha. A sua melra fechava-se no quarto, a fazer os trabalhos de casa ou a coser, talvez a escrever uma carta a alguma amiga e ele vinha, caminhando ligeiro pôr-se à escuta. Aí ficava até que ela se calasse ou alguém viesse chamá-lo. Quando dava pelo pai, ficava envergonhada, mas sorria quando ele lhe dizia: “que bem que canta a minha melra”.


Joaquim emociona-se. Umbelina morreu há cinco anos depois de ter estado outros tantos acamada num lar. Os filhos estão longe. Um na cidade grande, o outro Joaquim nem sabe, e a sua melra na Suíça. Uma chamada telefónica por semana. A Joaquim, quase surdo, pouco proveito lhe faz. Na presença das pessoas, ainda consegue ler algum rasto de palavras nos lábios, mas por telefone nada compreende. Às vezes uma entoação que dá ideia de final de conversa.


No meio da agitação, perde o foco e os sons desvanecem. Tem que começar tudo de novo. Concentra-se no bater do coração e na açorda que nasce na cozinha, mas não consegue. Não ouve o bater dos alhos. Não sente o bater do coração. Não ouve nada. De repente, do silêncio, uma voz chama. Abre os olhos, inundam-se de luz, está sentado à mesa da cozinha. Umbelina serve-lhe, a sorrir, a maior fatia de pão da açorda. A mesa está posta para cinco, mas só os pratos dos dois têm comida. Joaquim devolve-lhe o sorriso e come com satisfação.

Monday, September 30, 2019

Arco-Íris ao Peito

O Paulo usava o cabelo grande. Não era moda, não se pode dizer que imitasse alguém, nos anos 80, naquela região, nem era assim tão comum. Simplesmente, gostava de o ter assim: cabelo louro e liso pelos ombros. Também a pele era clara, como se o sol do Alentejo tivesse decidido poupá-lo ao castigo que destinava a todos os outros. Paulo tinha um ar angelical. Como é sabido, os anjos não têm sexo, por isso, quem não o conhecia, passava alguns minutos numa perplexidade que aprendemos a identificar e nos divertia. Viam uma figura andrógina, bonito demais para ser moço e com feições ligeiramente grosseiras para ser rapariga. Indecisos entre chamar-lhe gaiato ou gaiata, acabavam, muitas vezes por não dizer nada e iam-se embora com os dois pronomes entalados na garganta.

Algumas das senhoras idosas, mais espertas que as outras, tentavam sair airosamente deste impasse e perguntavam: “Como te chamas?” Mas a entoação que ele dava ao seu nome, fechando a última vogal, deixava-as na dúvida. Teria dito “Paulo” ou “Paula”? Não conseguiam perceber. Acho que não fazia de propósito, mas nós divertíamo-nos a ver a confusão que ele provocava. Alguns ainda ficavam a remoer rancores vindos de preconceitos contra cabelos grandes, como se o Paulo fosse uma repetição das frustrações que tinham vivido com os seus próprios filhos que, agora com idade para serem pais do Paulo, tinham sido hippies, com longas guedelhas, sapatos de plataforma, horríveis camisas de hiperbólicos colarinhos e calças com boca-de-sino.

No recreio da escola, Paulo gostava de jogar à bola. Não era o primeiro a ser escolhido quando se faziam equipas, mas também não era o último. Algum talento tinha para a coisa. Metade das vezes, porém, preferia brincar com as raparigas às telenovelas, recriando as cenas do capítulo do Roque Santeiro visto no serão anterior.

Uma observação à indumentária também de pouco servia para que se conseguisse alcançar qualquer certeza. Paulo, como todos nós, usava a obrigatória bata branca imposta aos alunos e alunas pelo professor Albino. Para além da bata, fazia parte do uniforme uma particularidade que servia para premiar os alunos pelo seu desempenho e motivar para a aquisição permanente do saber. Todos traziam ao peito um alfinete de dama com várias fitas que contrastavam com a alvura da bata. Invejávamos o Paulo porque trazia penduradas todas as fitas, numa infinidade de cores. Uma fita branca para a limpeza, obtida após análise cuidada das unhas e atrás das orelhas, local onde o sarro era mais resistente a uma boa esfrega. Uma fita vermelha para a destreza demonstrada no interrogatório da tabuada. Uma fita amarela para a história, sempre que um aluno sabia de memória os nomes e cognomes de todos os reis da primeira dinastia. Uma fita verde para a ortografia, entregue a quem conseguia três ditados seguidos com zero erros. Mais cores, muitas, para outras tantas tarefas, deveres e saberes: pontualidade, resolução de problemas de matemática, caligrafia, criatividade na escrita de composições, presenças na catequese, enfim, fiquemo-nos por um et cetera.  Um autêntico arco-íris pendurado ao peito que o Paulo e a maior parte de nós mostrávamos com orgulho, quando havia muitas, ou com vergonha se acaso minguavam.

Um dia, o professor Albino chamou o Paulo ao estrado e disse que lhe iria retirar a fita branca da limpeza. Burburinho na sala! Estranhámos a situação e disso demos conta ao colega de carteira que tinha a mesma intenção! Então o Paulo que era o paradigma da limpeza, sempre com as unhas curtinhas, sem remelas nos olhos e que, quando estava constipado, limpava o nariz com mil cuidados e sem nenhum ruído! A sua mesa, magicamente, parecia-nos, nunca tinha vestígios de borracha, os seus lápis nunca deixavam aparas. Tudo tão limpo e ordeiro que parecia que nunca era usado. Uma antítese total das nossas carteiras, sempre escritas, sujas de tinta e todos os vestígios em que os gaiatos da escola primária são abundantes.

Paulo, humildemente, sem ponta de revolta ou sequer mau humor, perguntou a razão dessa súbita e inesperada subtração da fita. O professor, silenciosamente, apontou-lhe para a cabeça. Continuámos sem perceber. O Paulo, apenas ele, parecia ter adivinhado. Passou as mãos pelo cabelo. O professor começou a dizer que o cabelo grande era “uma falta de higiene”, que originava piolhos, que era sinal de desleixo. Perguntei, candidamente, sem vestígio de ironia, se as raparigas deviam também cortar o cabelo. O professor, confundindo a minha inocente perplexidade com desafio, ordenou de imediato que me fosse sentar à janela com orelhas de burro. Concluíu o professor, que “os homens devem usar o cabelo curto”. Paulo, exposto a todos, baixou a cabeça e começou a chorar silenciosamente. Isso pareceu irritar o professor que, ato contínuo, lhe retirou a fita púrpura do bom comportamento dizendo, com um arrependimento visível a meio da frase: “Um homem não chora”, cujo único efeito foi multiplicar as lágrimas.

 Na semana seguinte, o Paulo foi ao barbeiro, a isso os pais o obrigaram depois de uma conversa com o professor. Não sei se chorou, como na sala, quando as madeixas louras foram caindo à mercê do pente número dois do mestre Ciladas e ficou, por fim, frente ao seu reflexo no espelho, com o escalpe a descoberto.

Quando voltou à escola, estava irreconhecível. Os grandes olhos claros pareciam desabitados. O professor fazia-lhe perguntas e ele encolhia os ombros, indiferente aos castigos, às reguadas e puxões de orelhas. Nem reagia enquanto, uma a uma, as cores do arco-íris que trazia num alfinete ao peito eram retiradas como as pétalas de um malmequer. Nunca ninguém mais olhou para o Paulo na dúvida sobre se seria rapaz ou rapariga. Para nós, garotos, nada mudou. Estava ali o nosso amigo. Mais triste, mas era ele. Para o Paulo, tudo mudou. Como mudou para Sansão que, conforme contava o Padre Herculano, perdera as forças à medida que perdera o cabelo. No professor e nos outros adultos, parecia ter-se instalado um conforto que antes não experimentavam ao encarar o Paulo. Era um rapaz que ali estava. Não podia ser outra coisa.

Tuesday, September 17, 2019

O Mentiroso de Cuba


Há vários tipos de mentirosos. De todos, destaco dois: o que mente em proveito próprio e o, chamemos-lhe, mentiroso recreativo. Tenho, como muita gente, pouca estima pelo primeiro, sempre atarefado em subir vertiginosamente a escada de um sucesso ilusório e efémero às costas de outros, mas, em relação ao segundo, reservo até alguma admiração. 

Deste tipo de aldabrão, o maior de que ouvi falar foi o Lúcio Alves. Viveu há muitas décadas em Cuba, no Alentejo. A mentira deixava-lhe sempre um sabor mais doce na boca. A verdade saía em sons estranhos articulados com as entranhas e que o deixavam como que vazio e sem jeito. De maneiras que era mais frequente mentir que dizer a verdade. Começou por exagerar a realidade, com grande sucesso. As pessoas no café até se calavam e juntavam-se para o ouvir. Quando se foram apercebendo que nem tudo o que luzia era ouro, começaram a dar o devido desconto, mas continuaram a ouvir com interesse e a pagar-lhe um copo. Com o tempo deixou de lhe bastar. Inventava acontecimentos de raiz. Estórias pouco verosímeis, fantasiosas que chegavam a incluir lobisomens e outros medos, mas também acontecimentos banais inspirados em anedotas que ouvia os homens contar na taberna.

Soubesse ele escrever e Cuba passaria a ser o berço de, não um, mas dois talentos literários. Para além de Fialho de Almeida, seria também célebre Lúcio Alves. Porém, analfabeto como era, aguçou-se nele o talento para a oralidade. Dominava uma plateia com pausas dramáticas, sotaques imitados e defeitos na fala simulados.

Quando o viam chegar, uns reviravam os olhos em busca de paciência para tanta fantasia, outros ficavam ansiosos como os garotos quando, na tourada, soltam o primeiro boi.

Era tolerado por ser aquela espécie de mentiroso que, por muito que compusesse as mais elaboradas aldrabices, nunca resvalava para a difamação, sempre respeitador da honra alheia. Mentiras de alcova, isso nunca! Para esses assuntos, contassem com as beatas à saída da missa e não tinha interesse algum em ceifar em seara alheia. Havia muito quem se ocupasse com os assuntos do coração ou da carne, os quais até considerava abaixo da sua categoria criativa.

O primeiro de abril era para Lúcio como dia de Natal. Um dia em que tendo carta branca, liberdade total sem que ninguém pudesse guardar rancores por ser enganado, preferia recorrer ao adágio popular "com a verdade me enganas". Optava por, durante 24 horas, não se juntar ao coro de  mentirosos de ocasião na vila. Narrava apenas as mais inverosímeis histórias, absolutamente verdadeiras, que coleccionava durante todo o ano.

Viam-no chegar e notava-se à légua quando tinha alguma para contar. A velocidade a que caminhava, por mais naturalidade que simulasse, dava a entender uma urgência tremenda em chegar perto de quem o escutasse. Começava com uma pergunta para recolher a atenção dos circundantes: "atão vocemessês sabem da última?" Como nunca ninguém pode ter a certeza, por muito que saiba, de dispor da informação mais recente, a resposta "não" dava azo a mais uma estória mirabolante.

Em tempos de fome, as estórias de Lúcio Alves eram um placebo para os cubenses. Não enchiam a barriga, é certo, mas ajudavam a pensar noutra coisa, ainda que momentaneamente. Sabendo disso, e sentindo ele próprio as presas da fome ferrarem-lhe o estômago, depois de uma semana em que apenas açorda condutada com azeitonas lhe tinha passado pelo estreito, criou aquela que seria a sua obra-prima. Estava agachado no bacio quando a ideia lhe surgiu de assalto e não conseguiu conter uma gargalhada. A mãe, mulher séria e pouco dada a risos, ainda perguntou o que era, sem esperar resposta, habituada que estava a desapontar-se com este filho. Levantou-se, limpou-se mal e à pressa e correu porta fora para o Largo do Tribunal. Aí começou a espalhar a sua invenção. Sem conseguir reproduzir a riqueza de detalhes e o colorido da linguagem, este humilde narrador fará aqui um rascunho da paisagem descrita pelo grande mitómano. O comboio das três, entre Alvito e Cuba, tinha colhido um rebanho de borregos, grande número dos quais jazia morto e moribundo junto à linha. Uma grande desgraça, calcula-se, para o pastor que veria subtraído ao seu soldo o preço das cabeças de gado e um contratempo para o proprietário. A estória não teve o sucesso imediato almejado pelo seu autor e sentia que ia esmorecer a qualquer momento. Mas nisto, o Castro chega ao largo e, casualmente, para meter conversa, comenta que o comboio das três chegara com algum atraso. Aí sim! A coincidência fez com que passassem da total descrença para a dúvida, e da dúvida para a certeza, num piscar de olhos. Sem se despedirem conforme mandam as leis da boa educação e movidos pela míngua a que estavam votadas as despensas domésticas, correram todos a buscar uma saca e um bom cutelo para desmanchar carne. Passado menos que um quarto de hora, eram quase três dezenas, junto à linha do comboio, em direcção a Alvito e aos inventados borregos, numa fila ordeira debaixo do sol daquele domingo de Setembro.

Lúcio dir-se-ia extasiado, com um sorriso sardónico, observava. Mas... a eficácia da sua mentira plantou nele também a semente da desconfiança. E se fosse verdade? Não podia ser. Mas e se fosse? Estavam quase trinta homens e mulheres marchando a caminho de Alvito sem que nenhuma prova concreta os movesse? "Se calhar aconteceu mesmo", pensou. Começou então a imaginar. Um ensopado de borrego, batatinhas novas com um pouco de aba, aromatizado com hortelã. Um joelho de borrego assado no forno da padaria, com a carne a descolar-se do osso e a desfazer-se na boca. Sentia-lhe o cheiro e até, quase, o sabor. Por isso, foi. Correu um pouco até alcançar a massa de gente que caminhava ao engano à espera de encontrar os imaginados borregos. 

Foi o seu maior triunfo. Nesse dia, Lúcio enganou tanta gente e de maneira tão eficaz que enganou quem nunca esperara enganar, a si próprio.


Wednesday, August 28, 2019

Jadan

Um ano nestas terras parecia muito mais tempo. Aproveitando os raros momentos de solidão, Jadan aproximou-se da porta, descalço e em silêncio, para assistir à alvorada de mais um dia neste país. O nascer do sol deixava adivinhar o calor abrasador no Alentejo. 

Na sua terra, o distante Bangladesh, aproximava-se a época das monções. O Ganges iria transbordar do leito causando destruição e dando origem a nova vida, tornando as terras mais férteis. Jadan fora ensinado a respeitar e a sentir-se grato por este trabalho da natureza que os punha à prova para, mais tarde, poderem colher os frutos de tão dolorosa sementeira. 
Mas aqui não havia chuva, era outro mundo. As cores eram mais tristes, a água não corria livremente por todo o lado, era bem escassa. As cegonhas eram uma pálida sombra do calau bicórnio e os poderosos tigres não caçavam nestas terras.

Há precisamente um ano, Jadan despedia-se dos pais e dos irmãos. Também nessa ocasião acordou mais cedo que todos para ver uma derradeira vez as margens do Ganges e as ruas adormecidas de Sujanagar.
Numa família de tantas bocas era preciso que todos trabalhassem e, mesmo assim, quase não chegava para comprar arroz que sossegasse os estômagos. A solução era ir para uma terra distante. Portugal seria a sua nova casa por uns anos, se tudo corresse bem. 

Via agora, à medida que a luz do sol que se erguia à esquerda e tornava visíveis os contornos de todas as coisas, um imenso mar de plástico, as estufas onde labutava todo o dia. Em breve, estaria no seu interior. De dentro do contentor que partilhava com mais quatro companheiros, ouvia-se já o som familiar de pessoas a levantar-se. Acabava assim este momento só dele. Sem olhar para dentro da sua improvisada habitação, conseguia adivinhar o que se passava. Despertavam apressadamente para tomar um pequeno almoço de arroz cozido, iam à casa de banho apagar da cara os vestígios da noite. Sempre em silêncio, sem conversas entre eles. Os capatazes juntavam-nos ali, pensando que eram conterrâneos. A verdade é que nem falavam a mesma língua. Indianos, tailandeses, vietnamitas comunicavam precariamente.

No último ano, Jadan, só uma vez por semana, falava a sua língua materna. Ao domingo, só trabalhava de manhã, por isso caminhava cinco quilómetros até à praça da vila onde tinha Internet grátis. Na véspera, carregava o telemóvel para que a bateria lhe não falhasse e ia falar com os pais, ouvir os sons que lhe eram familiares. Tinha também um desejo enorme de falar, de se fazer compreender. Falava do trabalho, da dificuldade em respirar dentro do calor abrasador das estufas, dos pequenos arbustos carregados de azeitonas que cobriam o que restava da planície. De tudo quanto era estranho na terra, dos caracóis que via comerem e das saudades que tinha dos cozinhados da mãe e de brincar com os sobrinhos pequenos. Só não encontrava modo de descrever o que sentia na planície, tão só, num contentor tão cheio. Nada conseguia exprimir este sentimento. 

Houve um dia em que, como se reconhecesse o seu rosto num espelho, ouviu algo que traduzia o que lhe ia na alma. Cantavam, ele não conhecia uma palavra mas o sentimento era, não duvidava, o dele. Na praça da aldeia, homens idosos vestiam trajes iguais. Amparados uns nos outros, soltavam um lamento em forma de canto que o comoveu até às lágrimas. Ali, longe de casa e numa língua estrangeira, homens tão diferentes dele pareciam saber exprimir, com sons, o que Jadan sentia. E sentiu-se grato por isso.

Monday, July 22, 2019

Desgraça


Mexia-se como um animal selvagem. Como um pequeno mamífero carnívoro de espécie indefinida. Furtivo, ágil e encolhido, tudo vasculhava com os olhos, mesmo que a sua caça fosse tabaco ou alguma carteira negligenciada. Os outros fugiam dele e, ao vê-lo, apalpavam os bolsos e as malas para terem a certeza de que traziam tudo com eles. Os seus bens terrenos emagreciam à mesma medida que ele. Os irmãos vieram buscar a mãe a quem prestava atenção apenas no dia em que chegava a sua míngua pensão. Desde esse momento, a casa foi-se esvaziando. Primeiro a televisão porque pouco interesse tinham as notícias e a ficção não era, de longe o seu escape preferido. Depois o fogão, sem uso num canto da cozinha. Quando cortaram a eletricidade por falta de pagamento, arrancou os fios elétricos e vendeu o cobre por uns tostões. O mesmo destino tiveram os caixilhos das janelas e as portas. Colocou um lençol no lugar da porta para ocultar de olhares curiosos a indigência em que morava.

Não ignorava os olhares feitos de iguais doses de repulsa e compaixão. Abraçava a primeira e revoltava-se com a segunda mesmo que fosse por pena que conseguia uma moeda ou um cigarro de algum conhecido. Amigos, nenhum. Perdeu-os como aos dentes que foram caindo por falta de utilidade. Pouco comia. Almoçava uns tempos num lar, irritava-se e era expulso, depois passava para uma associação, armava fita e não voltava, comia no refeitório do Centro de Formação, mas insultava as cozinheiras e deixava de ter que comer. O jantar, dependia do que encontrava no lixo dos supermercados. Até o cabelo se tornava escasso e os olhos iam-se enterrando cada vez mais nas suas fundas covas. As suas feições eram ossos sobre ossos. A roupa tornou-se larga. Lembrava um espantalho que ia perdendo o enchimento de palha. E espantava todos. Alguma companhia era acidental. A pessoa olhava à volta quando ele chegava e lembrava-se de alguma urgência repentina a que tinha de atender para sair apressadamente da sua presença. Por vezes, era necessário pagar “portagem”. Um cigarro ou uma moeda antes da fuga para o mais longe possível dele. As conversas que mantinha comigo ou com qualquer outro, invariavelmente, acabavam num pedido, numa súplica dita num tom, estudadamente ameaçador, no limite mínimo do ultimato.

Via-o muitas vezes na estrada. Eu, de casa para o trabalho ou do trabalho para casa. Ele, numa direção só conhecida por ele próprio. A pé, junto à berma, mas não muito. Se um carro lhe batesse era maior o azar do automobilista que o dele.

O seu temperamento era como o tempo de abril. Ora chuvoso e escuro, ora brilhante e quente. Em dias de trovoada, vinha pelo meio da rua aos gritos, com os dedos do meio de cada mão esticados num cumprimento ao contrário. Em dias de sol, normalmente com dinheiro na carteira e a cabeça onde ele gostava de a ter, fazia planos e promessas que desapareciam com a primeira nuvem.

Ninguém sabia dele muitas vezes dias a fio. Não dávamos por isso imediatamente. Íamo-nos dando conta aos poucos e também não ficávamos muito tempo a pensar nisso. Quando voltava, às vezes visivelmente maltratado, a cara arranhada ou a arrastar uma perna, recomeçava o seu ofício de cravar o próximo onde o tinha deixado.

Nos dias de maior fúria, perorava longamente sobre uma entidade abstrata que nunca, ao certo, concretizava: as doutoras. As doutoras do lar, as doutoras da segurança social, as doutoras do centro de formação e as doutoras da câmara. Eram como santos a quem se apela em momentos de aflição e a quem se castiga, como à imagem de Santo António quando não nos vale. A doutora do lar que lhe tinha dito que lavava a roupa. A da segurança social que lhe garantiu que lhe pagava o arranjo da casa. A doutora do centro de formação que o autorizou a almoçar todos os dias e a tomar banho. A doutora da câmara que dizia que havia um subsídio para pagar a água e luz. A partir do momento em que enunciavam uma possibilidade, ele começava a cobrá-la, como uma certeza, com juros elevados. Ele farejava-lhes o medo e insistia sempre mais. Mas havia também aqueles que não o receavam. Os garotos então, eram terríveis. Latagões na força da idade, com o sangue a pulsar, frenético nas veias. Era para eles um ritual de passagem à idade adulta e bruta, dar uma chapada viril no rosto cheio de arestas deste ser.

Tinha muitos nomes. Ao ponto de poucos saberem, ao certo, o nome que a mãe lhe deu. Dirigiam-se-lhe no vocativo “Oh Desgraça!”. Era dos nomes menos antipáticos que usavam. Dizia-se que estava doente, uns falavam, em segredo, em SIDA, outros em tuberculose ou em anacrónica lepra. Aumentou com isso o seu ressentimento em relação ao mundo. Confidenciou-me, como acontecia, às vezes, antes ou depois de cravar um cigarro, que as pessoas o diziam por maldade ou ignorância. De acordo com ele, o hábito de revirar os caixotes do lixo à procura de uma refeição, era uma roleta russa. Tanto podia apanhar alimentos em bom estado ou uma intoxicação alimentar. Dependia da sorte. Outras vezes, a comida que lhe doavam, leite e iogurtes sobretudo, azedava já que a sua casa, do frigorífico, só tinha o espaço onde estava e este jazia, provavelmente, esventrado nalguma lixeira.

Um dia, abandonou em definitivo o casebre na pequena aldeia onde morava e mudou-se de armas e bagagens para a vila. “Armas e bagagens” é uma maneira de dizer. Não trazia nenhum tipo de armamento e muito menos bagagens, apenas um saco de plástico. Sem pouso certo, dormia onde calhava, umas vezes na rua, outras numa casa abandonada e devoluta. Os da aldeia ficaram alegres. Os da vila, nem por isso. Deu-se então um fenómeno curioso. Ele tornou-se omnipresente. Estava, constantemente, em todo o lado. Alguém destruiu uma cabine telefónica em Valdoca. “Foi aquela Desgraça”, proclamavam logo. Riscaram um carro nos Altos. “Quem terá sido?” perguntavam ironicamente, sabedores da resposta. Viravam um contentor do lixo. “Quem é que anda sempre aí rondando como uma ratazana?”. Roubaram a motosserra do Tramalagana, “A esta hora já se está a drogar à conta do dinheiro da venda.”

Calhava, às vezes, ser culpado de duas coisas que aconteciam ao mesmo tempo em sítios opostos da vila. Quando o confrontavam, nada negava. Para quê dar-se a esse trabalho? Só enfurecia ainda mais o acusador. Foi à conta disso que morreu. Digo, que o mataram. De golpe anónimo nas tripas dado sem ninguém esperar, por uma minudência qualquer que, na verdade, já ninguém lembra. Nem eu, que até tenho boa memória e, quando ela me falta, invento.

Sem que pudesse ser culpado de fazer isso a si próprio, a guarda foi obrigada a sair do posto para fazer uma investigação. Uma chatice. Pouco habituados a que as diligências policiais na vila fosse mais do que procurá-lo e dar-lhe uns calduços. Por falta de experiência nestas lides, ou por outra razão qualquer, nunca chegaram a nenhuma conclusão. Podia ter sido qualquer um, mas acabou por não pagar ninguém.

Desde esse dia, sobra sempre mais um cigarro ao final do dia e voltamos a encontrar uma moeda no bolso quando nos despimos para deitarmos a cabeça, sossegada, na almofada.