Friday, June 19, 2026

Cosmética

A maquilhadora foi a primeira a notar. Faltavam poucos minutos para a comentadora entrar em direto. Verificava as suas notas, o briefing que a embaixada de Sião lhe enviava diariamente para que nada falhasse na sua comunicação ao país. "É um trabalho como outro qualquer", pensava para se convencer e aceitar o empréstimo da sua voz a este texto que lhe escreviam. Adivinhava um serão particularmente difícil. Sabia que o pivot iria ter dificuldade em esconder a repulsa que aquelas palavras causariam. 
Estava a ser uma sessão de maquilhagem demorada. Levantou os olhos das notas para ver a atrapalhação no rosto da rapariga, de avental e armada com esponja e pincel.

Inquiriu a razão da demora.

— Desculpe, mas a base parece que não está a funcionar. Não lhe consigo tirar o brilho — respondeu a rapariga.

Como dessem o sinal de que entrariam em dois minutos, tirou o babete, mirou-se ao espelho e avançou para o estúdio.

Sentada sob as luzes fortes, antes que o suor lhe orvalhasse as fontes, debitou o guião. As crianças que, afinal, não o eram. A escola atacada com dezenas de crianças mortas era afinal uma base de terroristas e, ao mesmo tempo, talvez tivesse sido atingida por um rocket defeituoso destinado a Sião. Os espetadores que escolhessem a mentira que melhor lhes convinha. Uma data referida como um mantra: sete de outubro, sete de outubro, sete de outubro. Há três anos, com tantas outras datas já repetidas quase três vezes. Uma retaliação sem interrupção. 

O pivot, por vezes, pensava questionar, talvez impelido por reflexo profissional ou algum vestígio de decência. Ocorria-lhe, no entanto, que o último a colocar questões incómodas fora despromovido a entrevistador semanal do veterinário e calava-se tentando engolir a repulsa.

Nas últimas semanas sentia que o seu corpo se alterava. Calculava que fosse o que acontecera à sua mãe quando chegou à sua idade e à sua avó antes desta. Coisas que afetariam todas as mulheres menos aquelas que Sião impedia de envelhecerem por força dos mísseis e das balas dos atiradores furtivos.

Sentia as articulações tornarem-se rígidas. A pele vinha ganhando um brilho estranho e o cabelo parecia cada vez mais seco. Nada que a maquilhagem não conseguisse remendar. Sorriu quando se apercebeu da semelhança entre o seu papel e o da maquilhadora. Ambas tornavam aceitáveis o que era feio.

Tinha um percurso profissional feito deste tipo de comunicação. Avenças várias com municípios, indústrias com reputação duvidosa, representara os mais hediondos lobbies, mas nada tão lucrativo e com tamanha exposição nos media como agora. 

Passava o dia a ler artigos publicados pelos seus homólogos legitimadores do genocídio em outros países. Traduzia-os e partilhava-os nas suas redes.

À saída do estúdio sentiu uma tontura. Foram precisas todas as suas forças para conseguir dobrar os joelhos e os cotovelos. Amparada pelo segurança, conseguiu entrar no carro. O seu andar parecia já o de um soldado de chumbo. Hirta, sentou-se no lugar de trás do automóvel e pediu ao motorista que a levasse ao hospital privado. O homem compreendia mal o português e foi obrigado a perguntar "address?". A comentadora revirou os olhos, procurou no seu telemóvel e mostrou-lhe o endereço com visível enfado.

Descreveu os sintomas ao médico que prescreveu algumas análises com urgência. De manga arregaçada e garrote no braço, esperava a cada momento a dor fina da agulha. Tardando essa sensação, levantou o olhar para a enfermeira. A máscara tapava a cara, mas os olhos expressavam suficiente perplexidade. Inquiriu o que passava. "O seu braço... A agulha não entra". Contrariada, pediu que tentasse no outro. A enfermeira tentou com a mesma agulha e com outra ainda e nada. 

Seguiu para o raio-x ao peito, bem apontado ao coração. Nova contrariedade. O técnico de queixo caído. "Nunca vi nada assim... Não há nada..." balbuciava. 

Pensando no dinheiro desperdiçado no seguro de saúde, tanto dinheiro para material defeituoso e pessoal incompetente, saiu. 

 De volta ao carro, tocou o telefone. Era o embaixador de Sião, pedia que passasse com urgência pela embaixada. 

Quando chegou, o embaixador agradeceu e pediu que se sentasse. Falou-lhe da gratidão pelos serviços prestados, mas que era preciso passar ao próximo nível. Disse que a iriam submeter a uma intervenção para melhorar o seu trabalho, que finalmente estava pronta. Apenas um grupo restrito de avençados espalhados pelo ocidente teria esta oportunidade. Naturalmente, a recompensa financeira seria ajustada. Aceitou, já recebia o tipo de dinheiro que muda a vida de uma pessoa, não podia abdicar disto. A exposição mediática tornara-a apetecível como candidata do partido do bafio e já tinha sido sondada informalmente.

Um homem de bata azul entrou com uma serra elétrica circular e colocou-se atrás dela. Em vez de medo, invadiu-a a resolução. Ouvia o barulho da serra e sentia as vibrações nos pés. Via os pedaços de serradura que enchiam o ar e sujavam os seus sapatos caros, mas não compreendia exatamente o que se passava. 

Apenas quando terminaram, percebeu que lhe tinham feito um buraco na base das costas, mas não havia dor. Era como se tivesse ficado vazia por dentro.
O embaixador colocou-se numa posição estranha, meio de cócoras, como se pretendesse esconder-se atrás dela. Por fim, enfiou o braço na concavidade e os lábios da comentadora mexeram-se involuntariamente. As palavras saíram da sua boca, mas não eram as suas: "Eles não são humanos. Sião tem o direito de matar todos os que se recusem a partir." 

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