Monday, April 15, 2019

Bacalhau


Sempre um cigarro esquecido ao canto da boca, às vezes apagado há muito. A cinza vai caindo por si própria. Ocupado com a colher e a talocha, constrói. Olha, olhos franzidos por causa do fumo, óculos embaciados, e vê mais que todos os outros. Todos veem o que está construído, ele, qual profeta, vê o futuro. Um artista, ouvi chamar-lhe algumas vezes.

De manhã, levanta-se sempre sem um queixume. O trabalho chama e manda mais que o resto. Rói um pedaço de pão com queijo. Poucas palavras, observa e fuma. Mais raros os sorrisos, quase sempre irónicos. Cético, por natureza. Desconfiado, por experiência, porque há por aí muito “pantomineiro”.

Vejo-o, chegado do trabalho. Na marquise ou no quintal, junto à coelheira, de camisa interior de alças, remexe as mãos enquanto revê os pensamentos, insondável. Um homem seco e de aparência enganadoramente frágil.

À mesa, sempre frugal. A minha avó afadiga-se na cozinha, à roda do fogão, a fazer os seus pratos favoritos. Mas, de um frango de fricassé, ele come apenas a ponta de uma asa, de um carapau de escabeche, pouco mais que a cabeça. A seguir, com o prato quase intocado, sempre pão com queijo, menos vezes fruta.

Dizem muitas vezes que as pessoas não morrem, que continuam vivas em quem as lembra. Treta, lugar comum, banalidade. Sempre pensei isso. Não deixo de o pensar. Por muito que os lembremos, não lhes damos vida. E o ato de rememorar, acaba por se erodir. Vamos perdendo a imagem geral e fica, aqui e ali, um pormenor. A memória é lente que rapidamente se desfoca e perde a nitidez.

Mas, no espelho, às vezes, no meu perfil, reconheço cada vez mais o dele. Acabo uma refeição, como pão com queijo e sinto a sua presença, a sua aprovação. Raros disparos, acidentais. E penso que os lugares comuns, afinal, terão algum vestígio de verdade.

Tuesday, April 09, 2019

Mateus Indiano


Todo ele era ferocidade, mas segurava na Mauser com delicadeza. Os outros camaradas traziam a G3, arma mais temperamental que em rajada, ceifava tudo o que estivesse à frente. Mas para a caça, entendia Mateus Indiano, não era um instrumento justo. 

Enquanto muitos usavam artimanhas e os recursos da família de forma a financiar subornos para evitarem o Ultramar, Mateus fez o inverso.  Tinha nele uma sede de aventura que não conseguia satisfazer nas planícies do Alentejo. Miúdo inquieto, à medida que ia explorando os campos, as ribeiras e os buracos da mina à volta da sua vila, compreendia que o mundo era mais do que conseguia avistar da Senhora do Castelo e mais lhe crescia a vontade de partir. Um irmão tinha já sido chamado para Moçambique e Mateus ficou a invejar-lhe a sorte. De maneiras que, quando foi cumprir o serviço militar, tudo fez para que o enviassem para onde o irmão tinha estado para "ver se o que o meu irmão diz é verdade". Não o assustavam os perigos ocultos do mato, antes o excitavam. Na sua fantasia, África era uma terra fértil naquilo que animava os seus sonhos: aventura, violência e adrenalina. Assim, ainda que pouco adepto da disciplina militar, submeteu-se à recruta e às costumeiras humilhações infligidas pelos oficiais. A faísca que lhe acendia o olhar, evitava qualquer excesso por parte dos oficiais comandantes que percebiam que a fera não estava domesticada, antes voluntariamente adormecida. Percebia-se nele a ausência de escrúpulos caso fosse necessário recorrer à violência. Talvez até uma certa luxúria no que diz respeito a isso. Os responsáveis pela recruta, habituados a avaliar cada um dos homens que a eles chegavam, de forma rápida e inconsciente, o perceberam e mantiveram a distância. 

Enquanto esperava, com a arma na mão o aparecimento de alguma presa, recordava a chegada a Lourenço Marques e o primeiro contacto com a humidade e o calor de África. Viera de avião, ao contrário de muitos milhares que, no barco, foram-se adaptando ao clima. A ele, África atingiu-o em cheio de uma só vez assim que chegou ao aeroporto. Teve até dificuldade em respirar esta atmosfera densa e pegajosa mas também ele acabou por se habituar.

Agora, de noite, apenas os focos da berliet ligados a cortar a escuridão, já conseguia até fumar um cigarro enquanto não aparecia a caça: javalis, impalas, changos, imbalalas, o enorme pala-pala e o ainda maior boi-cavalo. Caça grossa, como não havia no Alentejo. Apreciava o desporto mas também a carne dos animais que serviam para melhorar e diversificar o rancho fornecido pelo exército. 

Ia a noite longa, Mateus e os companheiros tinham abatido dois cabritos e outros tantos javalis e preparavam-se para aceitar o fim da jornada quando ouviram um resmalhar. Atraído pelo cheiro da caça, vinha, majestoso, aquele que era, antes da chegada das armas e dos tanques, o verdadeiro rei da savana. Os companheiros de Mateus correram em pânico para o abrigo possível da berliet, abandonando as armas que só os atrapalhavam. Nenhum tinha estado frente a frente com um leão. Nem com o inimigo, que podia estar em toda a parte mas nunca se via, tinham tido um encontro tão próximo. De cima do veículo, chamavam Mateus, mas este não os ouvia. Olhou o animal nos olhos aceitando o seu desafio. Apenas um deles ficaria com a caça e ambos estavam igualmente determinados. Levantou a Mauser e apontou-a ao leão. Sentia a mão tremer e, por momentos, pensou em largar a correr para a berliet. Olhou a avaliar a distância entre ele, o animal e a sua salvação. Percebeu que era tarde de mais. Ou matava, ou morria. Fixou a mira entre os olhos do animal, premiu o gatilho e o tirou ecoou pela noite fora. O leão tombou quase de imediato. Um tiro limpo. Os companheiros, após uma curta e cautelosa espera, correram a felicitá-lo, já Mateus estava debruçado no leão. Um macho de frondosa juba. Lamentando-se de ninguém ter uma máquina fotográfica, incentivavam Mateus a que partissem com os cabritos e javalis e deixassem o leão. Mateus opôs-se: "levo-o concerteza, não o deixo aqui". A voz grave como um trovão, carregada ainda de adrenalina. Os camaradas, sabendo da proibição de matar estes felinos, não tiveram coragem de contrariar alguém que tinha acabado de abater um leão e ajudaram-no no esforço de carregar o corpo do animal.


Quando chegaram ao quartel, a notícia foi crescendo como um burburinho. Já rompia a manhã e todos vinham ver o animal. À porta do refeitório, muitos magalas, de origens humildes e de locais remotos das províncias que nunca tinham visto um leão, acotovelavam-se à sua roda. Davam a Mateus os parabéns, apertavam-lhe a mão e batiam-lhe nas costas. Horas depois, a seguir ao almoço, ouviu-se um comunicado nos altifalantes. "Soldado Indiano, é favor chegar ao gabinete do Comandante." Mateus teve a certeza que o seu momento de glória chegava ao fim. 


A cada passo que dava, o receio da sentença atribuída crescia. Uma repreensão ainda na parada, dentro do edifício pensava que ia ficar sem licenças, enquanto esperava à porta do gabinete antevia uma semana de prisão e, à medida que passava a porta de entrada teve a certeza que iria ser enviado para casa numa dispensa desonrosa. O comandante, mal pareceu ter dado pela sua entrada. De óculos à ponta do nariz, olhava para baixo, lendo algum documento. Mateus pensou ser a sua nota de culpa que teria que assinar. Pousou, finalmente, os papéis e encarou-o. 

- Foi você quem matou o leão? - perguntou.

- Fui, sim senhor, meu comandante. - respondeu Mateus, controlando como podia os nervos.

- Então e não sabe que não se podem matar leões?

- Sei, meu comandante. Mas ele não me deu hipóteses, era ele ou eu, meu comandante. - Tinha ensaiado esta resposta, mas não lhe parecia tão convincente quanto imaginava. Ficou, por isso, surpreendido quando o seu superior lhe perguntou:

- E quanto é que quer pelo leão?

- Não quero nada, meu comandante. - Mateus pressentia uma armadilha. O comandante, matreiro e experiente, poderia estar a tentar verificar se o leão tinha sido morto para ganhar algum dinheiro.

- Mas eu quero comprar-lho. Faça lá um preço, homem.

- Meu comandante, não o quero vender. Se o quiser, é seu, meu comandante.

- De certeza?

- De certeza, meu comandante.

O final da conversa foi melhor do que Mateus poderia ter esperado. Não só escapara a um castigo, como continuaria a ser olhado como o alentejano que matou o leão. Saiu do gabinete do comandante de peito inchado debaixo dos olhares curiosos dos camaradas que continuavam a vir e a querer saber mais sobre a caçada.

Passaram-se semanas, iguais às outras. A tensão das saídas pelo mato em que os olhos se perdiam pelo capim de onde poderia sair uma emboscada a toda a hora, o alívio do regresso ao quartel. A euforia das folgas, as cervejas frescas e a confraternização entre os camaradas. Até que um dia a rotina foi interrompida por um anúncio igual ao que Mateus Indiano tinha escutado quando matara o leão. As mesmas palavras anunciadas pelo altifalante da parada: "Soldado Indiano, ao gabinete do comandante." Desta vez, não foi capaz de prever o que se passaria. Por isso, fez o percurso muito mais depressa. A curiosidade ardia-lhe no peito. A noite em que matou o leão, veio-lhe à memória. Mas agora estava desarmado e sentia que era ele que seria caçado.  Avançou corredor fora e bateu à porta:

-  O meu comandante dá licença?

- Entre. - Assim que entrou, Mateus deu dois passos instintivos em defesa, procurando em vão por alguma arma que lhe pudesse valer num confronto. Aquilo que estava à sua frente, deixava-o sem pinga de sangue. Num esgar feroz, plena de tamanho e força, tinha pela frente a fera que matara, por algum milagre devolvida à vida e apostada em vingar-se. Mas a ausência de movimento fez com que percebesse que o que supusera era apenas metade verdade. O animal estava ali, isso era um facto, mas estava morto, embalsamado. Quanto mais olhava, mais percebia que os olhos que o miravam estavam apagados e não tinham vida, muito menos desejo de vingança. E compreendeu afinal. O comandante chamara-o, simplesmente, para lhe mostrar, com vaidade, o leão, transformado em troféu de caça. Mas a Mateus parecia-lhe que tinha sido chamado para tomar consciência que toda a altivez e ferocidade podia ser eliminada por uma bala certeira. Incluindo a dele próprio.

Monday, April 01, 2019

Edmundo Dantas

Surgia-lhe um calor nas tripas e uma força nos dentes, algum resquício de bestialidade quase desaparecida, que o retesava como à corda de um arco. De fora, raro era o que sentia a brasa da fornalha que lhe consumia o baixo ventre. Deitavam-lhe um olhar paternalista, sorriso de padre de barriga cheia, e viravam costas sem desconfiar da chama que deixavam para trás.

Já em moço, sofrera, pouco pacientemente, as zombarias dos colegas da escola quando, gaguejando, errava a tabuada. Sempre mais nervoso por o poderem tomar por parvo do que pelas repreensões e castigos do professor. Às gargalhadas forçadas respondia com um olhar fixo semicerrado, frio e seco, cara fechada, mas fantasiando torcer-lhes o pescoço. Edmundo Dantas conseguia há anos conter o bicho que dentro dele queria sair recorrendo ao mundo do sonho, no qual se afastava de tudo e todos e vivia como um ermitão depois de apertar o papo a todos quanto faziam pouco dele.

Agora, carteiro da vila, ocupava os dias inteiros na entrega da correspondência e a congeminar elaborados planos de vingança que nunca colocaria em prática contra aquele que não lhe falou quando se cruzaram no mercado ou contra aqueloutra que se furtou a dançar com ele no baile de S. João. Por vezes, semanas após alguma provocação que lhe tinham lançado, lembrava-se de uma resposta perfeita e a sua imaginação reconstituía a cena com um final alternativo. Amaldiçoava-se por não ser dotado para o repentismo. Mas passava o resto do dia a imaginar vividamente a cara do opositor ao ouvir a sua tirada.

O perdão era palavra vã para Edmundo Dantas. Quando lhe saía era involuntariamente se acaso pisava alguém ou quando não percebia o que se lhe dizia. A sua vida, desde a primeira infância e desde que tinha memória, era um catálogo de alvos a abater. Visto de fora, pequenas ofensas, mas para Edmundo ousadas afrontas à usa honra e dignidade. Guardava mesmo rancor à sua própria família. À tia que no Natal o presenteava sempre com um par de meias quando o que queria era um brinquedo. À mãe que uma vez lhe dera um par de nalgadas por causa de uma terrina que o seu irmão partiu. Ao pai que lhe levantou a voz e lhe falou grosso no meio do Largo da Fonte. Até contra Deus, de quem começava a descrer, Edmundo nutria um ódio surdo.

Adormecia bastantes vezes a desfazer este novelo de vinganças e retaliações. Embalava-se no sono com imagens de inimigos quebrados, despojados de bens e dignidade a pedirem aquilo que nunca poderiam esperar vir a obter, o seu perdão. De manhã acordava e tudo se mantinha igual à véspera. A raiva que sentia não se diluía com o tempo, antes se depurava, tornava-se mais intensa e concentrada.

Um dia, apareceu na vila para assumir o cargo de chefe dos correios um senhor Ferreira. Homem austero, de aspeto militar e barba republicana veio tomar posse dos seus novos domínios e apresentar-se aos seus subalternos, grupo em que se contava Edmundo Dantas. A impressão que causava nos demais, certamente estudada, era depois confirmada pela forma como se dirigia a todos os funcionários dos correios. De modos bruscos, voz como um trovão, fez saber de imediato o que exigia de todos e o que não admitia a nenhum. A papada do senhor Geraldo, empregado de balcão, tremia e suava perante aquele sermão. Edmundo ficou satisfeito, lembrava-se ainda do vexame que tinha passado certa vez quando, ao sair dos correios com a mala cheia de correspondência, tropeçou, caiu e espalhou as cartas em seu redor. Testemunhas, apenas ele e o senhor Geraldo. Mas, passadas horas, não se falava de outra coisa na vila que não fosse o tralho do carteiro. Fermentou então em Edmundo a certeza de que o colega teria sido o responsável por espalhar a notícia da sua queda e dava-lhe uma pequena satisfação assistir a qualquer revés que o senhor Geraldo sofresse.

Passados dias, viu chegar, no comboio, a família do senhor Ferreira. Instruído pelo chefe para ir ajudar a família a descarregar os pertences, Edmundo Dantas, tentando cair nas suas boas graças, esperava na estação fumando pacientemente um cigarro. Foi quando, pela primeira vez, os seus olhos avistaram Mercedes. Era a antítese do pai. Edmundo dir-se-ia hipnotizado pelo sorriso da rapariga. Os seus dentes, brancos como pérolas deixavam-no alheio a tudo o resto. A custo, abandonou este estado aparvalhado em que se encontrava e dirigiu-se, nervoso e sem jeito a Mercedes e à mãe, apresentando-se e oferecendo a sua ajuda para levar a bagagem de ambas da estação à nova residência da família. Temia causar má impressão, por isso sentia as mãos como algo estranho, não sabia o que lhes fazer. A sua voz soava-lhe estranha, parecia-lhe mais aguda do que o normal. Os sentidos emaranhavam-se, sinestesias alimentadas pelo perfume da rapariga. Colocou, sonâmbulo, as malas da família no carro dos correios, abriu a porta para que entrassem e acomodou-se ao volante. Respirou fundo enquanto rodava a chave na ignição. Sentiu um formigueiro estranho nos lábios. Sem saber o que era, olhou para o espelho retrovisor e viu nascer a curva de um sorriso.

Nessa noite já não adormeceu a ruminar os planos de vingança costumeiros. Foi com a presença, o perfume e o sorriso de Mercedes que deslizou para a terra dos sonhos. Deixou de ocupar os dias com os estéreis e rebuscados planos de retaliação e deslizou pelos dias na esperança de um vislumbre, ou mais, uma palavra de Mercedes. Principalmente a que mais desejava ouvir: "sim".