Thursday, February 18, 2021

Dr. Ricardo Papa Gaio

 

Nunca na história da retórica, de Górgias a Martin Luther King Jr., alguém demonstrou semelhante domínio da oratória ou desenhou argumentos de forma tão impenetrável como este de que vos falo hoje: Dr. Ricardo Papa Gaio.

Como os primeiros sofistas, era capaz de debater qualquer tema sem preparação: política, futebol, religião… de tudo falava com propriedade. De tal forma lançava os seus argumentos que os seus interlocutores ficavam sem conseguir articular palavra, limitavam-se a deixar sair sons incompreensíveis sem correspondência em nenhuma língua humana.

Um dia de trabalho inteiro, perorava sobre temas diversos com a autoridade de um tudólogo. Especialista disto e daquilo, do que calhava a vir à conversa e do inusitado.  O Dr. Ricardo Papa Gaio era dentista. De “milagroso” numa mão e espelho na outra, debruçava-se nas cavidades bocais dos seus pacientes e, enquanto tratava uma cárie ou fazia uma obturação, discutia o tema que vinha a calhar nesse dia. De manhã ao final da tarde, depositava argumentação que ia aperfeiçoando ao longo da jornada de trabalho.

Os pacientes, entre os quais se contava este narrador, pouco mais conseguiam fazer que concordar. Era mais fácil assentir com a cabeça do que contestar um ponto de vista, especialmente de alguém que tem uma broca dentro da nossa boca. Contudo, cada vez que traçávamos uma linha vermelha no debate, demonstrávamos que queríamos contra-argumentar e, para isso, nos preparávamos para cuspir a água que tínhamos acumulada dentro da boca, vinha a broca com renovado vigor conduzida pelas mãos do doutor, subitamente, trémulas.

Não havia, assim, direito a contraditório fosse a discutir um hipotético penalti na área do adversário do campeão nacional ou a mais recente intervenção do governo na salvação de um banco. Mesmo que não estivéssemos de acordo, uma mirada rápida aos instrumentos que tinha na mão e uma tomada de consciência perante a nossa posição de fragilidade, tornava-nos cautelosos e submissos. Às vezes, acabada a consulta e ainda com o sabor da anestesia na boca, lá ganhávamos coragem e contestávamos. Que não era penalti, que os bancos são essenciais para a economia ou que os ciganos não eram todos bandidos, mas quando, semanas ou meses depois regressávamos para a consulta, saíamos de lágrimas nos olhos.

Quando tentou levar este talento discursivo para a vida política, o Dr. Ricardo Papa Gaio não obteve o sucesso que vaticinava para si próprio. Nos debates televisionados, parecia desorientado por os oponentes lhe darem réplica, desmontarem os seus argumentos e o ultrapassarem em capacidade oratória. Num dos debates, em que o vi mais desconcertado, chegou a levar para o estúdio um cortante com que apontava na direção do adversário no calor do debate.

Ao fim da quinta eleição perdida, retirou-se da vida política e voltou ao consultório. Desfeitas as ilusões, só o passei a ouvir falar do tempo. E não eram grandes discursos, simplesmente dizia: “está de chuva” se chovia ou “está calor” se realmente estava. E estávamos sempre de acordo.

Tuesday, June 09, 2020

ying-yang

Os primeiros pensamentos que nos ocorrem numa reflexão por vezes são uma precipitação. O fácil e rápido às vezes pode chegar perfeitamente para uma situação simples, mas o mundo e a humanidade estão cheios de complexidade. 
Na América, país longínquo, mas sempre presente nos telejornais, George Floyd foi detido por um agente de polícia que usou, manifestamente, excesso de zelo e força despropositada que levou à sua morte. Acontece vezes demais na América, onde os polícias são pouco tolerantes e mais temidos que respeitados, e são-o mais com afro-americanos. Isto não é uma opinião, há dados estatísticos que o comprovam. Por exemplo, um afro-americano tem duas vezes e meia mais probabilidades de ser morto por um polícia que um branco. As mortes por milhão de habitantes às mãos da polícia são o dobro quando se trata de afro-americanos relativamente a caucasianos. E há muitos outros dados que encontrei num site que penso ser insuspeito: www.statista.com. Compreender a indignação de uma boa parte da população com a morte de George Floyd, implica ter uma noção do que é e do que foi a América. Aqui, à distância, nem sempre é fácil. Hollywood mostra-nos uma face glamorosa, mas postiça, os noticiários mostram-nos outra. Ainda assim, é insuficiente. É difícil termos uma perspectiva da diversidade daquele país que é capaz de eleger Trump, mas que também colocou Obama na Casa Branca. É o país do Tiger King e do KKK, mas também de Lincoln e Martin Luther King Jr. 
A chegada dos protestos a Portugal veio trazer algumas reacções que, não sendo muito coerentes, devem ser abordadas. 
Em primeiro lugar, não há a noção do que é o privilégio. A alguém branco, mesmo nascido numa família com poucos recursos, falta a capacidade de se colocar no lugar de quem tem uma cor de pele diferente. Pode ser uma questão de empatia, mas em tempos de crise, quando somos afetados por problemas sociais, temos tendência para viver na nossa bolha e marginalizar os que são diferentes. Ainda mais quando alguém aparece a responsabilizar os outros pelos nossos problemas. Ou então é uma questão de semântica com a palavra privilégio. O seu significado não é sempre tão linear como parece. 
Depois há a questão da bipolarização: os maus e os bons. A obrigatoriedade de escolhermos lados: ou estou com os polícias ou com os bandidos. Como se numa instituição tão grande não houvesse, necessariamente, um número elevado de maus elementos que pertencem a grupos racistas. Certamente que a maior parte são pessoas que seguem uma vocação de proteger e ajudar, mas exigir que os que são racistas sejam responsabilizados e, se possível, expulsos da organização não é atentar contra a dignidade e profissionalismo dos primeiros. É defende-los do mau nome que alguns dão à farda. A única bipolarização que devia existir era entre os racistas e os anti-racistas. 
Depois há o folclore das designações. Há os que entendem que a designação de afro-americano é uma invenção do politicamente correcto, esquecendo que veio substituir uma designação extremamente ofensiva como "nigger". Juntam-se depois comparações estapafúrdias como a do cidadão assassinado por um cigano. Como se houvesse comparação entre um homicídio perpetrado por um indivíduo num contexto não conhecido e outro cometido por quem se deveria dedicar a proteger. 
Finalmente, aquela que é para mim a questão central, a ideia de que Portugal não é um país racista. Ora, se num país há racistas no parlamento, nas forças da lei e, digo-o com pena, na classe docente, enfim, em toda a sociedade, o país é racista. Isso vê-se todos os dias, até no pacato Alentejo. Vê-se, por exemplo, nos sapos de louça nos serviços públicos, no feed do facebook, nas milhentas páginas de fake news patrocinadas, por ventura, por apoiantes de movimentos racistas e xenófobos, nas caixas de comentários dos jornais, nas anedotas sobre o "preto". É um pequeno racismo, mas está lá e vai crescendo, devagarinho até ficar fora do nosso controlo. 

Wednesday, April 01, 2020

Contos da Quarentena I

 “Só me falta a farda!” Não conseguiu conter a força do pensamento de maneira que lhe saiu em voz alta em frente ao espelho. Começava mais um dia de quarentena e de trabalho para António Oliveira. Apesar de reformado e fazendo parte dos grupos de maior risco por força da idade, não era medo que sentia durante esta pandemia. Animava-o uma nova vitalidade, uma alegria estranha ao ver, nas notícias, os soldados pelas ruas.  

Tempos houve, de má memória para António, em que a tropa na rua era sinónimo de desgraça e degeneração. Mas agora não! Impunham a ordem que desejava que fosse geral ao país. Durante as horas do dia em que o corpo não reclamava o descanso, estava na marquise com um olho, vigilante, na rua, pronto a gritar ordens e imprecações a quem avistasse, e outro no computador, ligado às redes sociais. Este aparente estrabismo era alegremente suportado por António que desejava que o livrassem, a ele e aos outros, desse vício que era a Liberdade, empregando mais músculo na aplicação de medidas de contenção. “Todos temos que fazer sacrifícios”. Era assim que colocava as coisas. E, afinal, que sacrifício era este? Ficar em casa, com todos os confortos da vida moderna: água canalizada, esgotos, eletricidade, internet! O confinamento nunca foi tão fácil como agora. Com um telefone ou só com a internet pode-se encomendar de tudo. Fruta, verdura, carne, peixe, móveis, eletrodomésticos, vinho, medicamentos, máscaras, álcool gel… Até brinquedos sexuais para os mais pervertidos, António tinha visto por curiosidade.  

Opinava muito, lia bastante, ignorava as notícias quando os factos reportados não validavam os seus pontos de vista, mas partilhava muitos rumores e boatos quando eram mais do seu interesse. Acabara por desenvolver uma capacidade de leitura muito específica. Não se pode chamar “ler nas entrelinhas”, ia mais além: “ler nas entreentrelinhas”. Procurar numa notícia um detalhe a que ninguém mais dava importância e elevá-lo à categoria de parágrafo guia. 

Do seu saudoso pai, antigo agente da Polícia Internacional de Defesa do Estado, herdara não apenas a devoção a São Salazar, mas também o culto da ordem e do respeito. Enquanto se olhava ao espelho, procurava nas suas feições vestígios do rosto autoritário, já desaparecido, do progenitor e concluía que era mais desafortunado por viver nestes tempos.  Ao pai coubera em sorte defender a Pátria da ameaça interna do comunismo, um cancro que minava as fábricas e explorações agrícolas. Com que amor pelo Estado infligia torturas físicas e psicológicas a estes bolcheviques. Era com espírito de missão que apagava os cigarros nas suas costas ou lhes arrancava as unhas. Nada melhorava mais a disposição deste diligente funcionário do que fazer “cantar” um destes vermelhos à bastonada. Chamavam-lhe “maestro” porque sob a sua “batuta”, todos acabavam por “cantar” ou então numa cama do hospital. Depois disso, Tarrafal, lugar do Chão Bom, onde a comida apenas impedia que caíssem no chão inanimados e os médicos existiam para assinar declarações de óbito.  

Felizmente que o seu pai tinha sido poupado a estes tempos. Acabou por morrer cedo, já com o país a festejar uma pirralha liberdade. Talvez dos nervos que sentia por temer ser reconhecido por algum comunista dos que tinha torturado tivesse acelerado a sua partida. Contudo, pensa António, com alívio, sem remorsos por ter servido o país. António recordava ainda o confinamento a que o seu pai fora obrigado durante vários anos após a revolução. Lembrava a quarentena que o pai cumpriu, sem aparecer na rua, a ida para uma aldeia perdida no mapa em Trás-os-Montes onde ninguém suspeitasse das funções que desempenhara com tanto zelo, até ao dia em que morreu e António e a mãe puderam, enfim, regressar ao apartamento no Lumiar. 

Os dias começavam cedo, tomava um pequeno-almoço espartano, condizente com a situação, já lendo os destaques do seu periódico favorito, Alerta da Manhã. Pegava depois no computador, removendo o sudário de plásticos que o protegiam, para começar o seu trabalho. Encontrou uma primeira notícia que lhe chamou a atenção: “Um campo de refugiados às portas de Beja”. Condicionado para se enervar com a palavra refugiado, imediatamente abriu a notícia, era afinal sobre ciganos. Ainda assim, não fora tempo perdido. Clicou em “partilhar” e produziu as exclamações: “A esta gente nada se lhes pega! O vírus havia era de os levar, para deixarem de mamar à conta dos nossos impostos!” Ao fim de dez minutos, verificou, contente, que tinha cinquenta gostos, vários comentários concordantes e vinte partilhas. Uma onda de prazer percorreu-lhe o corpo, sentimento inequívoco de dever cumprido. Encontrou depois uma publicação sobre os mercados de venda de animais para consumo na China, com espécies pouco ortodoxas para os padrões ocidentais. Nova partilha com a legenda: “Boicote aos produtos e lojas dos chineses! Raça que não acaba, querem dominar o mundo com esta doença! Abram os olhos!” Novo coro de aprovação e aclamação. 

A seguir era a hora dos programas de rádio que realmente interessavam. As antenas abertas e fóruns públicos. “As pessoas estão fartas de ouvir falar os doutores e engenheiros. Temos que dar a voz aos portugueses autênticos.” Felizmente, inconsciente da ironia por assim pensar, ele que sempre fora um defensor da repressão da liberdade de expressão, lá marcou os números para participar nos dois programas mais populares. Raramente era escolhido para participar, mas tentava todos os dias. Não falasse ele e falaria outro António. As pessoas iam perdendo o medo de chamar bois aos bois. Os temas variavam, mas a António isso era indiferente. Tinha um guião fixo que apenas necessitava da introdução, essa sim dependia do tema. O pretexto podia ser futebol, educação, saúde, trabalho, pesca, drogas, Europa, o que fosse. António acabaria por falar do 25 de Abril, do fracasso da democracia, da dissolução dos costumes, da insegurança, das minorias que sugavam o estado social, do marxismo cultural e da corrupção. Quando acontecia entrar em direto, ficava num estado de excitação anormal que só acalmava muitas horas mais tarde. 

Depois do meio-dia, ouvia a conferência de imprensa com os últimos dados. Tentava ler nas expressões dos ministros e delegados de saúde que tipo de novidades vinham relatar. Desejava, secretamente, que aumentasse o número de infetados e mortos. Quanto maiores os números, mais sucesso obtinham as suas publicações. Quanto mais medo, mais fechados ficavam todos. Refletia: “As mais definitivas das prisões têm sempre o trinco do lado de dentro. Ninguém é aprisionado tão irremediavelmente como quem o faz de livre vontade”. Pegava nos gráficos e indignava-se no mundo virtual: “Enquanto não tirarem às pessoas a liberdade de andarem pela rua, isto não vai ter fim!” Se não era suficiente o medo para levar ao isolamento, António pensava que devia ser o Estado, pela força. Se os números calhavam a baixar, era a sorte, a chuva, era a responsabilidade de alguns cidadãos. Se subiam… bem se subiam a culpa era dos deputados de esquerda, viciados na peçonhenta liberdade. 

A seguir ao almoço, alguns dos vizinhos vinham à rua. Uns passeavam os cães, que mordiam a solidão, outros davam pequenos “passeios higiénicos” separados por muitos metros e sem ajuntamentos. António a todos interpelava, cuspindo-se de raiva, do alto da sua janela. “Cambada de irresponsáveis! Haviam de ser presos!” 

De regresso às redes, via que alguém tinha publicado críticas à classe política e dirigente por não ter aplicado medidas restritivas mais cedo, as chamadas "sopas depois de almoço". Não era nenhum especialista, era um antigo colega de trabalho no escritório de contabilidade. Para António era um calhau com olhos, ainda por cima de esquerda, mas desta vez estavam de acordo por isso deixou um "gosto" e o seu costumeiro chiste: “No tempo do Salazar, os políticos eram homens sérios! Agora temos a extrema-esquerda no poder…” 

Ah, eram dias felizes para António. Ainda mais quando o Presidente da República e o Primeiro-Ministro anunciaram, por fim, o endurecer das medidas de contenção. Quem circulasse na rua tinha sempre que ter um documento que o justificasse. Quem não cumprisse, levava multas pesadas e penas de cadeia. Faltou apenas a "delação premiada". As ruas, já de si desertas, ficaram ainda mais vazias. As pessoas que cantavam às janelas desanimavam com o prolongar do cerco, recolheram-se ainda mais como se a simples visão das ruas, agora vedadas, lhes provocasse uma angústia insuperável, uma saudade da rotina que antes lhes parecia desinteressante. 

Certo dia, ao executar o seu demorado ritual antes de dormir, apercebeu-se que se estava a acabar a pomada Viks VapoRub. António tinha lido algures nas redes sociais que era um medicamento muito eficaz para prevenir e combater o vírus, só não era mais divulgado porque a indústria farmacêutica não tinha interesse em que se soubesse. De maneira que, na manhã seguinte, preparou-se com luvas, máscara e uma garrafa de álcool no bolso e saiu de casa em direção à farmácia com o fito de comprar alguns frascos. 

Ia, feliz por não ter encontrado vivalma no trajeto, quando foi abordado por uma patrulha da polícia. Dir-se-ia que os dois homens estavam cansados da situação, enervados por estarem sempre separados das famílias e expostos aos maiores riscos. Só isso explica que se tenham dirigido a António, que tinha idade para quase ser seu avô com modos tão rudes: “Olha-me este! Que é que andas a fazer na rua, ó velho? Mostra lá a tua justificação.” António empalideceu, não tinha justificação. Começou a explicar que ia comprar o Viks, que era um método infalível para evitar a doença. Os agentes começaram a rir, nem disfarçavam o que achavam de António. “Está bem ó avozinho, diga lá onde mora que vamos levá-lo.” António resistiu, indignou-se, procurou no telemóvel o artigo para mostrar aos agentes. Estes riram ainda mais. Chamou-lhes nomes, desrespeitou a farda e trinta por uma linha, até que um perdeu a paciência, atirou-o ao chão com uma facilidade que António não antevira e o algemou. Colocaram-no no carro à força e levaram-no para casa. 

À chegada, uma receção surpreendente. Os vizinhos, todos à varanda. Nas janelas, caras surpreendidas com o que se via: António saía do carro patrulha algemado e com a ajuda dos polícias. Foi libertado, mas os seus carcereiros esperavam que ele se encaminhasse para a porta do prédio. Os vizinhos começaram então, como que num coro ensaiado, a devolver a António, de uma vez, todos os impropérios que foram guardando durante a quarentena, numa enxurrada de raiva com riso contido que fez o quarteirão estremecer. Entrou no prédio de cabeça baixa e só saiu depois de haver vacina. 

Nunca mais vi nada publicado por ele nas redes sociais desde essa altura, mas ainda o vejo todo o dia à marquise, vigilante. Comprei-lhe o computador. Disse-me que já não lhe dava uso. Foi um bom negócio para os dois. Quando o liguei pela primeira vez, fui ver o histórico de navegação. A última página que visitou foi a de um jornal que investiga e denuncia notícias falsas, dizia que era mentira que o Viks prevenisse ou curasse o vírus. 

Friday, February 14, 2020

Eutanásia, outra vez

Há cerca de dois anos, pudemos testemunhar um "debate" sobre a despenalização da eutanásia. Então, como hoje, houve muita argumentação inflamada, inquinada pela emoção e até por crenças metafísicas e religiosas. Decidiu-se, na altura, adiar uma decisão para a legislatura seguinte porque o debate terá sido insuficiente.
Hoje estamos na segunda semana de uma campanha, que tem maior a instituição religiosa do país no epicentro, em prol de um referendo. Dizem que durante a campanha para as eleições legislativas não houve uma tomada de posição oficial dos partidos políticos e que, como tal "não podemos permitir que alguns deputados queiram decidir por nós."
Em primeiro lugar, recordo este trabalho do Público (https://www.publico.pt/legislativas-2019/nove-temas-seis-lideres) que questiona os líderes dos principais partidos sobre o assunto, conseguindo uma resposta inequívoca. Em segundo lugar, na nossa democracia é exatamente assim que as coisas funcionam: elegemos um parlamento para que os deputados possam exercer, em nossa representação, o poder legislativo.
Depois temos ainda a pergunta que querem propor aos portugueses, formulada de forma demagógica e inaceitável: "Concorda que matar outra pessoa a seu pedido ou ajudá-la a suicidar-se deve continuar a ser punível pela lei em quaisquer circunstâncias?"
Na minha opinião, a despenalização da eutanásia é uma inevitabilidade, um avanço civilizacional inexorável. Vai acontecer mais tarde ou mais cedo, com maior ou menor oposição. Mesmo que algumas instituições religiosas tentem instrumentalizar os fiéis e usem celebrações religiosas para fins políticos, ignorando até Cristo que diz em Mateus 22:21: "Dai pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". A laicidade do Estado não deveria ser um tema em 2020, especialmente quando olhamos para a forma como se vive na maior parte dos estados confessionais que ainda subsistem pelo globo. Um estado laico respeita de igual forma todas as religiões, permite a liberdade religiosa sem que esta se sobreponha às leis do país. Mas deve haver reciprocidade. As instituições religiosas devem também respeitar o funcionamento da democracia. Os  fiéis, apesar de serem, alegoricamente chamados de rebanho, podem comportar-se com autonomia e usarem o seu pensamento crítico e livre arbítrio para escolherem as forças políticas que melhor representem as suas convicções.
O CDS, o PCP e o PSD deixaram claro que estariam contra a legalização da eutanásia, ressalvando Rio que haveria liberdade de voto no seu partido. Curiosamente, foram os partidos que mais perderam eleitorado. Não estou a afirmar que haja uma relação direta entre as propostas e os resultados, mas é factual.
Há dois anos, como hoje, penso que é uma questão de valores. Temos em oposição a Vida e a Liberdade. Na minha escala de valores, a Liberdade é mais importante. Os próprios mártires da Igreja sacrificaram a sua vida pela liberdade religiosa. Nisso concordo com os perto de 70 milhões de martirizados que se contabilizam desde os tempos de Jesus.
Acima de tudo, a despenalização da eutanásia reforçará a liberdade. Quem prefere, em determinadas condições, terminar com o sofrimento, pode fazê-lo sem temer a perseguição dos que o auxiliarem. Mas quem se opuser a isso, pode continuar a sua vida até ao fim natural, suportando as dores e o sofrimento de que algumas religiões fazem a apologia. De preferência, devem poder contar com os melhores cuidados paliativos que a ciência puder proporcionar. Já contam com um alívio que não menosprezo, o da fé. A fé pode ajudar os crentes a justificar e aceitar o sofrimento, mas e os que não a têm? Por que razão hão-de ter a obrigação de suportar a dor? 
A lei será aprovada, com ou sem referendo, hoje ou daqui a dez anos e depois resta-nos questionar porque demorámos tanto tempo. 

Friday, January 24, 2020

Lourenço

"A vida é circular". Era assim que falava. Sentenciava da autoridade dos seus oitenta e alguns anos. "Os que a vêem como uma linha que parece reta, enganam-se". 

Era difícil perceber a que se referia. Os filhos e netos encolhiam os ombros, certos de que a idade trazia já alguma baralhação natural às ideias. Ao mesmo tempo, surpreendidos. Não era costume ouvir-lhe duas frases seguidas. Mas isso não lhe diminuía o entusiasmo. Não lhe interessava se o compreendiam. Sabia que, um dia, chegariam eles próprios à mesma verdade. De que lhe valia tirar-lhes as certezas? Temos que ser nós próprios a abdicar delas, se tentam que as abandonemos, ainda as agarramos com mais força. 

E embalava na conversa: "Eu também pensava que era uma linha que se ia apagando no fim, mas vejo agora que não." Com o bisneto ao colo, os descendentes atribuíam também à comoção do momento alguma desordem no discurso. "É um círculo, nós é que estamos tão concentrados no que acontece à nossa volta que não damos pela curva. Só quando as linhas se vão fechando e repetindo, percebemos que não se apagam. Unem-se!" 

O único que ouvia e parecia compreender tudo era Lourenço, o bisneto com quase dois meses. Este olhava como quem vê sabedoria nas palavras do bisavô, fixava-o com os seus rasgadinhos olhos claros e inocentes de quem ainda não viu todas as faces do destino. Apercebendo-se disso, José, o bisavô, dirigiu-se a ele: "Eu chego ao fim do círculo e tu começas agora. Se isto não é a perfeição, não a há no mundo!" E dos olhos velhos e cansados, enquadrados por farto sobrolho, escorria afeição, aceitação e contentamento em estado líquido. Lourenço expressava, tanto quanto é possível a um recém-nascido, sentimentos semelhantes. 

Eram os dois uma ilha naquele mar de ignorância. Partilhavam um conhecimento que, em breve, ao mais velho de pouco serviria e o mais novo depressa ia esquecer. Os outros pensavam em outras coisas: na ceia de Natal, presentes e sabe-se lá em que outras ninharias. "Não te peço que te lembres de mim. Acabaste de chegar e eu estou quase de abalada, mas pergunta por mim. Mantém o círculo fechado sempre. Sem memória, somos como os bichos, somos quebrados. O meu nome, no fim do teu, não basta. Tenta saber de onde vens. Tens de o fazer!"

E podia acabar aqui, mas não acaba. Na realidade, continua sempre. Com Lourenço, a abrir nova curva e a dizer ao seu bisneto: "A vida é circular".

Wednesday, December 18, 2019

A Lenda da Ferrenha


Da rocha, brota tranquila e solenemente um fio de água. Um mistério. Uma pessoa fica a olhar e a perguntar-se a sua origem e porque vem ao mundo naquele lugar. Os locais, durante séculos, têm adorado aquele sítio. Mesmo hoje, quando lhes basta acionar uma banal torneira em sua casa e têm água à sua disposição, frequentemente rumam ou romam à Ferrenha para lhe prestar tributo. A aumentar o fascínio pela fonte, o sabor da sua água que, certamente, terá contribuído para o seu batismo. Um sabor a metal. Não chega a ser desagradável, mas quase. A mim, sempre me lembrou, sei lá porquê, o sabor a sangue novo.

Em todos os locais, ouço lendas. Associadas a um castelo, a um monte, a uma ribeira, a um fragão e, claro, a fontes. Da Ferrenha, nunca tinha ouvido nenhuma, embora seja um local icónico para qualquer escouralense. Ir à Ferrenha é viajar nas memórias íntimas e nas memórias comuns. Seguir a ribeira que ela alimenta, da vila até à nascente, é como retornar à primeira infância, numa viagem familiar por afetos e lembranças. Um retorno impossível ao útero materno. Como Bernardim Ribeiro, “ao longo da ribeira que vai polo pé da serra”, assim vamos, como se aquela ribeira fosse a nossa ligação à Ferrenha.

Pareceu-me mal vê-la assim, órfã de aition, e, acometido de indignação por esta injustiça, longo tempo pensei em descobrir um mito fundador para esta fonte. Pensei que pudesse estar ligado à presença dos primeiros hominídeos que aqui procuraram abrigo. Mas se não escreviam e não deixaram tradição oral, não me pareceu possível. Ocorreu-me que pudesse estar associado a outro mito, o da residência do Santo Condestável, D. Nun’ Álvares Pereira, mas estive quase a desistir dessa ideia também.

D. Nuno ter-se-á retirado na mesma altura que a vila foi fundada. Diz-se que foi viver numa casa senhorial no monte que, por isso mesmo, ficou com o nome de “Cavaleiro”. Porém, após 1423, D. Nuno dividiu as suas propriedades pelos seus homens de confiança e abraçou a vida monástica. Não possuindo, apesar de santo, o dom da ubiquidade, não será provável que tenha vivido no Cavaleiro ao mesmo tempo que se internou no Convento do Carmo, de onde distribuía esmola pelos pobres da capital e cunhava a célebre expressão “uma lança em África”. Mas a minha pesquisa descobriu que terá vivido no Cavaleiro ainda antes da fundação da vila.

Num controverso manuscrito apócrifo encontrado nas ruínas do Mosteiro de Nossa Senhora do Castelo das Covas do Monfurado, dos Monges Eremitas Descalços de São Paulo, é descrita a vida do santo neste período. Estes monges fixaram-se, oficialmente, no Monfurado no início do século XVIII, mas desconfia-se que já por lá viviam há muitos anos, eremitas, nas lapas subterrâneas da serra. O manuscrito sobreviveu à destruição provocada pelo grande terramoto de 1755 que arrasou este aziago mosteiro, mas perdeu-se.  Há quem diga que está esquecido no Arquivo Nacional da Torre do Tombo ou que foi destruído. Há também quem diga que é uma fantasia que algum mentiroso ou sonhador tenha inventado. Ficou, ainda assim, a história conhecida por alguns. Foi-se multiplicando, passada dentro das famílias, como preciosa herança.

Conta-se, então que, cansado das batalhas em que passara boa parte da vida, quase tanto como das honrarias e homenagens a que depois o obrigaram, D. Nuno tomara a mansão no Monfurado como um refúgio. A um homem como ele, sempre lhe parecera que a guerra era uma obrigação, algo que os homens fazem uns contra os outros com o fim último de a tornarem o mais breve possível. O que mais esperava, agora que os Castelhanos tinham feito a paz e aceite o seu D. João I, era que não lhe lembrassem o horror da guerra. Queria o esquecimento das ordens que deram para matar e morrer, dos corpos ensanguentados e sem vida que jaziam no campo de batalha e lhe assombravam as noites. Odiava até que lhe chamassem Condestável, cargo com que fora agraciado. No Monfurado, era apenas o senhor. A vida era mais simples. Caçava, lia e tratava da correspondência que chegava sempre com muita dificuldade.

Apreciava as caminhadas pela serra, sozinho, contemplando os vales e a planície que se estendia a partir do Monfurado como um mar imenso pelo Alentejo fora. Nessas caminhadas, parava sempre numa pequena nascente de onde a água brotava da rocha. Aí bebia e ficava longas horas até anoitecer. Os servos encontravam-no, contemplativo e alheado da realidade. Essa água, com um sabor férreo, era a nascente mais próxima da sua casa e, naturalmente, era de onde se abasteciam para todos os gastos domésticos, dos banhos à alimentação. Mas esta água levava-o sempre de regresso ao frémito da batalha, o sabor lembrava os ferros que levantava contra os castelhanos e os seus partidários, entre eles, alguns irmãos lusos. A água, parecia-lhe ter um sabor ao sangue que tinha ordenado derramar nos Atoleiros ou Aljubarrota. Foi a fonte a que o povo deu o nome de “Ferrenha” que levou D. Nuno à decisão de se tornar carmelita. Entregou o Cavaleiro a um dos seus mais fiéis homens e, embora mantendo a cota de malha por baixo do hábito, tomou o nome de irmão Nuno de Santa Maria e entrou, para aquela que seria a sua derradeira morada, o Convento do Carmo. O irmão Nuno dedicou a vida à mendicidade, pedindo para os pobres, até ao Dia de Todos os Santos de 1431 em que, na presença d’el Rei e dos infantes, abandonou este mundo.

Era este, estripado dos detalhes e riqueza da linguagem, o conteúdo do manuscrito. Muitos questionam, mais que a autenticidade, a sua existência. Pouco importa para a Ferrenha, que antes de D. Nuno já lá estava e continua séculos depois. A água da Ferrenha levou D. Nuno à beatificação, não o deixando esquecer o seu passado. A nós, lembra-nos o nosso, o sítio de onde viemos. Como a água do Lete, um dos rios de Hades cuja água provoca o completo esquecimento, só que ao contrário.

Wednesday, November 27, 2019

Menina Anita


Quando os sinos começavam a tocar a anunciar a ida de algum habitante desta para melhor, era quando a menina Anita se sentia mais viva. Saía à rua a saber quem era o finado. Voltava para casa, aborrecida, se era alguém com quem tinha pouca lidação ou pessoa com que estava desavinda por razões próprias ou familiares. Quando era um moço ou moça da sua criação, parente próximo ou afastado, aí sim! Já tinha planos para o serão. Tinha como passatempo passar a noite a velar os falecidos e a confortar os seus familiares.

Solteira e com poucas distrações apropriadas ao estado civil, suportava melhor o frio ora da igreja ora da casa mortuária, conforme a notoriedade do morto. Diziam as más línguas, que as há em todo o lado, que era por ter a cama fria que não lhe faziam diferença essas noites insones e geladas sentada em frente aos caixões. Só que a menina Anita era bem-avisada, e apresentava-se sempre com um xaile bem grosso, um gibão quente, uma manta de lã para pôr aos joelhos e uma almofada para aquecer e proteger o avantajado traseiro da rijeza das cadeiras de pau. E enquanto os restantes amigos e parentes do finado, amadores nestas lides, batiam o queixo, estava ela bem aquecida e até com umas cores nas faces.

Os dias até podiam ser monótonos e tristes, com a papada encostada ao postigo da sua rua que, por infelicidade, não tinha muito movimento. Tristes era também os serões nos dias em que calhava a não morrer ninguém. O telejornal com notícias que sentia não lhe dizerem respeito, uma telenovela brasileira a que prestava pouca atenção, uma caneca de leite morno e cama. Mas se havia morto para velar, Anita era mais feliz. Havia conversas para escutar, viúvas e órfãos a quem confortar e podia olhar à sua volta, analisando todos os detalhes de cada um, da indumentária à profundidade da dor. Ocupados como estavam, ninguém daria pelo seu olhar inquisidor.

Entrava com um ar de compaixão e benzia-se cerimoniosamente em frente ao corpo. Olhava a cara do defunto antes de proclamar: "está tal e qual como ele era." Rezava um padre nosso de olhos fechados e, quando os abria, procurava a família para lhes oferecer os pêsames. Era uma profissional nesta área, dirigia-se aos cônjuges e aos filhos daquele ou daquela que ia arrefecendo e, numa voz que evocava lágrimas e lamentos, dizia solenemente: “os meus sentimentos!” Uma performance digna de nota que ensaiava muitas vezes no quarto, em frente ao espelho.

Não se pense que a menina Anita se acostumou rapidamente a este labor. Não! A quem é que não custa uma noite fora do camalho? Foi-se habituando, como um maratonista que começa a ignorar as dores nos músculos e a vontade de desistir. Fosse acompanhar os mortos um desporto olímpico e a menina Anita estaria coberta de ouro, apesar da sua compleição pouco atlética. Nunca fora magra, nem em moça. Os pais eram proprietários de uma venda, metade taberna e metade mercearia, pelo que tinha sempre maneira de remendar a fome com que via andar os outros colegas na escola. As irmãs foram casando e saindo de casa e ela ficou a ajudar os pais e para tia de muitos sobrinhos. Quando os pais se foram, vendeu tudo, os supermercados na vila grande tinham acabado com o negócio. Contudo, continuou a atividade da mãe, carpideira encartada, que chorava baba e ranho por todos, desde o mais próximo dos amigos àquele a quem, mesmo na véspera, tinha metido as orelhas a arder. Fora abraçando esse legado e transformara-se, aos poucos, no braço direito da mãe, que morreu orgulhosa de quem lhe seguisse o mister.

Agora, sozinha, encarregava-se de acompanhar os finados da vila, já sem os choros nem dramatismos fora de moda. Em vez disso, tornou-se especialista em tudo o que diz respeito a enterros. Colecionava, com o mesmo ardor que os garotos amealham cromos de futebol ou calendários de bolso, os folhetos com imagens dos falecidos. Inspecionava as coroas de flores e especulava sobre o preço de cada uma delas. Verificava a qualidade da madeira do caixão, área em que era especialista e discutia, entendida, com os proprietários da agência funerária. Analisava os rendilhados que amortalhavam os falecidos. Comparava tudo de enterro para enterro. Vira, a pouco e pouco, a casa mortuária alterar-se. As velas de cera a darem lugar a umas bizarras lâmpadas que imitavam as suas antecessoras. O aparelho de ar condicionado, que tantas discussões causava aos enlutados, fora instalado por cima da cruz, aquecendo ou arrefecendo as noites.

Às vezes, calhava a entrar, altas horas da noite, numa modorra provocada pela falta de sono e chegava a alucinar. O cérebro, cansado, pregava-lhe partidas. Via os fios das extensões elétricas que ligavam as lâmpadas, serpentear, ameaçadoramente. Outras vezes, o morto parecia acordar de um longo sono. Pareceu-lhe em certa ocasião que a cruz, de madeira, derretia. Sabia que nada disso era verdade, que era um truque da imaginação. Chegava a entretê-la naquelas longas horas.

Ocupava também estas noites a planear o seu próprio enterro. O caixão, tinha decidido, seria de mogno escuro. Mas não era só o caixão. Tinha decidido todos os detalhes como uma verdadeira especialista. Numa ocasião, chamou à parte o Sr. Arnaldo, agente funerário que mais trabalhava na vila e com quem tinha muita lidação, e entregou-lhe um envelope. Eram as instruções para quando ela própria morresse. O Sr. Arnaldo, ficou atrapalhado, não era costume ser o morto a decidir estas questões, e ficou também admirado com o conhecimento que esta senhora tinha sobre o seu próprio trabalho.

A menina Anita começou a notar que cada vez menos pessoas passavam a noite na casa mortuária. Ouvia-se falar que, noutros sítios, o morto já ficava sozinho de noite, atrás de uma porta trancada. Escândalo! Impensável! E, ainda assim, a menina Anita olhava à roda e via cada vez menos gente noite afora. As caras que a acompanhavam, uma a uma foram também sendo envoltas nas mortalhas, vestindo as suas melhores roupas e deitadas dentro de um caixão. Até que, certa ocasião, a menina Anita se viu a acompanhar um morto, a noite inteira, apenas com o filho do falecido.

O funeral seguinte foi o primeiro na vila em que a porta ficou fechada toda a noite. Não causou indignação à menina Anita, não terá tido já oportunidade de se melindrar. Lá dentro, sem estar acompanhada, sozinha, passou a sua última noite na casa mortuária.