Thursday, September 24, 2026

Personal Palma


Sempre pensei que me seria fácil escrever sobre o Jorge Palma. Estava enganado. Quando saiu o álbum Rio Grande, no meio de tanto talento, havia ali uma voz que me fascinava, um piano que me parecia, ao mesmo tempo, novo e familiar. De todo o álbum, comovia-me sempre "Senta-te aí", composta por João Gil e com uma letra do enorme João Monge. A voz do Palma aparecia inteira naquele misto de sussurro melancólico, mas esperançoso.

Um dia, numa conversa a caminho da Nau com o Luís Leal, incontestado mentor do Movimento Inerte dos Rebarbados, cujo manifesto foi publicado clandestinamente numa sala da Casa Cordovil, veio o nome do Jorge Palma. 

Não havia serviços de streaming, a única forma de conhecermos a música de alguém era ouvirmos os singles na rádio e comprarmos os discos. Quando recebi o primeiro ordenado de um trabalho de verão, comprei o álbum "Só". Ouvia-o no discman até à exaustão. Foi nesse momento que a música do Palma entrou verdadeiramente na minha vida.

Apenas os artistas geniais conseguem este sortilégio: o de criar a ilusão de que as suas criações se destinam a nós, em especial. Muitas vezes senti isso com estas canções. Fui mergulhando na sua discografia e descobrindo mensagens que me pareciam ser apenas para mim. Perdi a conta aos concertos a que assisti, não é uma hipérbole, tentei mesmo, de memória contá-los, sem sucesso. Sei que o primeiro foi em 2001, numa noite em que partilhou o palco com os irlandeses Waterboys. Sei que o último foi, em 2024, em Cuba, o mais belo de todos os concertos a que assisti na vidaa. Pelo meio, nunca menos de uma dezena.

Não estava preparado para isto. Saber que nunca mais o poderei ouvir ao vivo. Falei com o Palma em duas ocasiões, em nenhuma delas tive oportunidade de dizer mais do que duas ou três atabalhoadas frases de admiração.

Há algumas canções que farão sempre parte de mim. "Algumas" não! Muitas. Quase todas. As que tenho agarradas à alma, essas são talvez duas: "O Meu Amor Existe" e "Acorda, Menina Linda". A primeira acompanhou-me quando a Cristina me ensinou "a chegar, sedento de ternura, sarou a minhas feridas, e pôs-me a salvo para além da loucura". A segunda é uma memória doce, que me comove sempre: a minha filha, com horas de vida, internada na unidade de neonatologia, ao meu colo a ouvir-me cantar, pessimamente, como é óbvio, "acorda, menina linda, anda brincar/que o sol está lá fora à espera de te ouvir cantar./Acorda, menina linda, vem oferecer/o teu sorriso ao dia que acabou de nascer./Anda ver o lindo presente/que a aurora trouxe para te prendar/uma coroa de brilhantes para iluminar/o teu cabelo revolto como um mar."

Quem sabe se foi essa dose diária de Palma, repetida nove vezes, que lhe deu a força necessária para se juntar aos pais e irmãos na nossa casa? 

Por isso, foi só meia surpresa a quantidade de partilhas que li nestes dias. O Jorge Palma de que falavam é, sem dúvida, o mesmo, mas também é outro. Uma espécie de Palma pessoal, como o meu, mas só deles.

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