A maquilhadora foi a primeira a notar. Faltavam poucos minutos para a comentadora entrar em direto. Verificava as suas notas, o briefing que a embaixada de Sião lhe enviava diariamente para que nada falhasse na sua comunicação ao país. "É um trabalho como outro qualquer", pensava para se convencer e aceitar o empréstimo da sua voz a este texto que lhe escreviam. Adivinhava um serão particularmente difícil. Sabia que o pivot iria ter dificuldade em esconder a repulsa que aquelas palavras causariam.
Estava a ser uma sessão de maquilhagem demorada. Levantou os olhos das notas para ver a atrapalhação no rosto da rapariga, de avental e armada com esponja e pincel.
Inquiriu a razão da demora.
_ Desculpe, mas a base parece que não está a funcionar. Não lhe consigo tirar o brilho._ respondeu a rapariga.
Como dessem o sinal de que entrariam em dois minutos, tirou o babete, mirou-se ao espelho e avançou para o estúdio.
Sentada sob as luzes fortes, antes que o suor lhe orvalhasse as fontes, debitou o guião. As crianças que, afinal, não o eram. A escola atacada com dezenas de crianças mortas era afinal uma base de terroristas e, ao mesmo tempo, talvez tivesse sido atingida por um rocket defeituoso destinado a Sião. Os espetadores que escolhessem a mentira que melhor lhes convinha. Uma data referida como um mantra: sete de outubro, sete de outubro, sete de outubro. Já há quase três anos, com tantas outras datas já repetidas quase três vezes. Uma retaliação sem interrupção.
O pivot, por vezes, pensava interromper e questionar, talvez impelido por algum vestígio de decência ou por reflexo profissional. Ocorria-lhe, no entanto, que o último a colocar questões incómodas fora despromovido a entrevistador semanal do veterinário e calava-se tentando engolir a repulsa.
Nas últimas semanas sentia que o seu corpo se alterava. Calculava que fosse o que acontecera à sua mãe quando chegou à sua idade e à sua avó antes desta. Coisas que afetariam todas as mulheres menos aquelas que Sião impedia de envelhecerem por força dos mísseis e das balas dos atiradores furtivos.
Sentia os membros tornarem-se rígidos. A pele vinha ganhando um brilho estranho e o cabelo parecia cada vez mais seco. Nada que a maquilhagem não conseguisse remendar. Sorriu quando se apercebeu da semelhança entre o seu papel e o da maquilhadora. Ambas tornavam aceitáveis o que era feio.
Tinha um percurso profissional feito deste tipo de comunicação. Avenças várias com municípios, indústrias com reputação duvidosa, representara os mais hediondos lobbies, mas nada tão lucrativo e com tamanha exposição nos media como agora.
Passava o dia a ler artigos publicados pelos seus homólogos legitimadores do genocídio em outros países.
À saída do estúdio sentiu uma tontura. Amparada pelo segurança, conseguiu entrar no carro. Não se sentia melhor pelo que decidiu ir ao hospital, ao privado.
Descreveu os sintomas ao médico que prescreveu algumas análises com urgência. De manga arregaçada e garrote no braço, esperava a cada momento a dor fina da agulha. Tardando essa sensação, levantou o olhar para a enfermeira. A máscara tapava a cara, mas os olhos expressavam suficiente perplexidade. Inquiriu o que passava. "O seu braço... A agulha não entra". Contrariada, pediu que tentasse no outro. Tentou com a mesma agulha e com outra ainda e nada.
Seguiu para o raio-x ao peito, bem apontado ao coração. Nova contrariedade. O técnico de queixo caído. "Nunca vi nada assim... Não há nada..." balbuciava.
Pensando no dinheiro desperdiçado no seguro de saúde, tanto dinheiro para material defeituoso e pessoal incompetente, saiu.
Já no carro, tocou o telefone. Era o embaixador de Sião, pedia que passasse com urgência pela embaixada.
Quando chegou, o embaixador agradeceu e pediu que se sentasse. Falou-lhe da gratidão pelos serviços prestados, mas que era preciso passar ao próximo nível. Disse que a iriam submeter a uma intervenção para melhorar o seu trabalho, que finalmente estava pronta. Aceitou, recebia o tipo de dinheiro que muda a vida de uma pessoa. A exposição mediática tornara-a apetecível como candidata do partido do bafio.
Um homem de bata azul entrou com uma serra elétrica circular e colocou-se atrás dela. Ouvia o barulho e sentia as vibrações da serra. Via os pedaços de serradura que enchiam o ar e sujavam os seus sapatos caros, mas não compreendia o que se passava.
Apenas quando terminaram, percebeu que lhe tinham feito um buraco na base das costas. O embaixador colocou o braço e os lábios da comentadora mexeram-se involuntariamente. As palavras saíram da sua boca, mas não eram as suas. "Eles não são humanos. Sião tem o direito de matar todos os que se recusem a partir."
