Tuesday, June 09, 2020
ying-yang
Wednesday, April 01, 2020
Contos da Quarentena I Confina a mente
“Só me falta a farda!” Não conseguiu conter a força do
pensamento de maneira que lhe saiu em voz alta em frente ao espelho. Começava
mais um dia de quarentena e de trabalho para António Oliveira. Apesar de
reformado e fazendo parte dos grupos de maior risco por força da idade, não era
medo que sentia durante esta pandemia. Animava-o uma nova vitalidade, uma
alegria estranha ao ver, nas notícias, os soldados pelas ruas.
Tempos houve, de má memória para António, em que a
tropa na rua era sinónimo de desgraça e degeneração. Mas agora não! Impunham a
ordem que desejava que fosse geral ao país, ao mundo. Durante as horas do dia
em que o corpo não reclamava o descanso, estava na marquise com um olho,
vigilante, na rua, pronto a gritar ordens e imprecações a quem avistasse, e
outro no computador, ligado às redes sociais. Este aparente estrabismo era
alegremente suportado por António que desejava que o livrassem, a ele e aos
outros, desse vício que era a Liberdade, empregando mais músculo na aplicação
de medidas de contenção. “Todos temos que fazer sacrifícios”. Era assim
que colocava as coisas. E, afinal, que sacrifício era este? Ficar em casa,
com todos os confortos da vida moderna: água canalizada, esgotos, eletricidade,
internet! O confinamento nunca foi tão fácil como agora. Com um
telefone ou só com a internet pode-se encomendar de tudo. Fruta,
verduras, carne, peixe, móveis, eletrodomésticos, vinho, medicamentos,
máscaras, álcool gel… Até brinquedos sexuais para os mais pervertidos, António
tinha visto por curiosidade.
Opinava muito, lia bastante, ignorava as notícias
quando os factos reportados não validavam os seus pontos de vista, mas
partilhava muitos rumores e boatos quando eram mais do seu
interesse. Acabara por desenvolver uma capacidade de leitura muito
específica. Não se pode chamar “ler nas entrelinhas”, ia mais além: “ler
nas entreentrelinhas”. Procurar numa notícia um detalhe a que ninguém mais
dava importância e elevá-lo à categoria de parágrafo guia.
Do seu saudoso pai, antigo agente da Polícia
Internacional de Defesa do Estado, herdara não apenas a devoção a São Salazar,
mas também o culto da ordem e do respeito. Enquanto se olhava ao espelho,
procurava nas suas feições vestígios do rosto autoritário do desaparecido progenitor
e concluía que era mais desafortunado por viver nestes tempos. Ao
pai coubera em sorte defender a Pátria da ameaça do comunismo, um
cancro que minava as fábricas e explorações agrícolas. Com que amor pelo Estado
infligia torturas físicas e psicológicas a estes bolcheviques!
Era com espírito de missão que apagava os cigarros nas suas costas ou
lhes arrancava as unhas. Nada melhorava mais a disposição
deste diligente funcionário do que fazer “cantar” um destes vermelhos
à bastonada. Chamavam-lhe “maestro” porque sob a sua “batuta”, todos
acabavam por “cantar” ou então numa cama do hospital. Depois disso,
Tarrafal, lugar do Chão Bom, onde a comida apenas impedia que
caíssem no chão inanimados e os médicos existiam só para assinar
declarações de óbito.
Felizmente que o seu pai tinha sido poupado a estes
tempos. Acabou por morrer cedo, já com o país a festejar
uma pirralha liberdade. Talvez dos nervos que sentia por temer
ser reconhecido na rua por algum comunista dos que tinha
torturado tivesse acelerado a sua partida. Contudo, pensa António, com
alívio, sem remorsos por ter servido o país. A António afligia-o não ter
podido usufruir dessa honra. Tinha feito os 18 anos e estava na tropa quando
veio o destacamento para o ultramar. Guiné. A família via aquilo como uma
sentença de morte. António era enfermiço, não havia doença infantil que o não
tivesse apoquentado e ainda o acompanhava a asma, a rinite e outros achaques
sem fim. Para fazer a recruta, fora o cabo dos trabalhos. Antevendo que António
seria repasto para mosquitos e que o paludismo o mataria mais depressa que as
balas do inimigo, a família empenhou-se em evitar tal fatalidade. O pai era
alguém na polícia política e conhecia as pessoas certas. Sabia muita coisa
sobre muita gente e entre a oferta de favores e a sugestão de uma ameaça,
conseguiu que o filho ficasse pela metrópole. Não teve, assim, o privilégio de
colocar a sua vida entre a pátria amada e aquelas que a queriam ameaçar.
António recordava ainda o confinamento a que o seu pai
fora obrigado durante vários anos após a revolução. Revivia o seu
desanimo ao ver que um homem grande e orgulhoso ia definhando neste abominável
novo mundo. Isso fazia crescer o seu ressentimento para com a Revolução. Lembrava
a quarentena que o pai cumpriu, sem aparecer na rua, a ida para uma aldeia
perdida no mapa em Trás-os-Montes onde ninguém suspeitasse das funções que
desempenhara com tanto zelo, até ao dia em que morreu e António e a mãe
puderam, enfim, regressar ao apartamento vazio no Lumiar.
Lembrava-se e passava a mão pela calva, único vestígio
do cabelo desgrenhado que, contra a sua sensibilidade estética, outrora fora
obrigado a ostentar. Reflete. “eram as máscaras da altura, não se podia sair à
rua de outra maneira.” Eram tempos em que o cabelo curtinho nem a militares
ficava bem visto. As ideias novas saíam, livres, da cabeça e iam deslizando
pelos cabelos, infetando tudo e todos, como piolhos, de novas palavras de ordem
que inspiravam a maior repulsa em António. Cabelo à escovinha e barba aparada
era sinónimo de reacionário e António tinha, na altura, muito medo de que o
identificassem como o filho do PIDE. Hoje, felizmente, pensa, as coisas mudaram
muito. Apareceu finalmente um partido que defende “os portugueses de bem”, que
quer acabar com a “esquerdalha”, que desmonta as mentiras do “jornalixo” e que
aceita todos os que querem acabar com a ameaça vermelha no país: dos
saudosistas do Estado Novo a Neo-nazis todos são essenciais. “Afinal, se a
extrema esquerda pode existir, por que não a extrema direita?!” Tantos anos de
liberdade e ele sem liberdade para dizer o que pensa! Que leveza em poder dizer
que os pretos deviam voltar para África e os ciganos deviam ser exterminados! E
ainda ser aplaudido pelos seus correligionários.
Os dias começavam cedo, tomava um
pequeno-almoço espartano, condizente com a situação, já lendo os destaques do
seu periódico favorito, Alerta da Manhã. Pegava depois no computador
portátil, removendo o sudário de plásticos que o protegiam, para começar o seu
trabalho. Tratava-o com o mesmo desvelo que um atirador furtivo trata a sua
arma. Encontrou uma primeira notícia que lhe chamou a atenção: “Um campo de
refugiados às portas de Beja”. Condicionado para se enervar com a palavra
refugiado, imediatamente abriu a notícia, era afinal sobre ciganos. Ainda
assim, não fora tempo perdido. Clicou em “partilhar” e produziu as
exclamações: “A esta gente nada se lhes pega! O vírus havia era de os levar,
para deixarem de mamar à conta dos nossos impostos!” Ao fim de dez minutos,
verificou, contente, que tinha cinquenta gostos, vários comentários
concordantes e vinte partilhas. Uma onda de prazer percorreu-lhe o corpo, sentimento
inequívoco de dever cumprido. Encontrou depois uma publicação sobre os
mercados de venda de animais para consumo na China, com espécies pouco
ortodoxas para os padrões ocidentais. Nova partilha com a legenda: “Boicote aos
produtos e lojas dos chineses! Raça que não acaba, querem dominar o mundo com
esta doença! Abram os olhos!” Novo coro de aprovação e aclamação. Por
acaso, só por acaso, as notícias eram verdadeiras. António tinha descoberto que
a verdade, nas redes sociais, é sobrevalorizada. Preferia acreditar numa
mentira que lhe agradasse do que numa verdade que lhe fosse amarga. “A
generalidade das pessoas é assim”, refletia, “basta ver como é no futebol,
nunca parece haver falta se o penalti é contra a nossa equipa.” Por isso, mesmo
sabendo que se tratava de uma aldrabice pegada, partilhava as maiores infâmias
sobre os políticos canhotos, sobre ativistas, jornalistas ou aquele que fosse o
inimigo do dia.
A seguir era a hora dos programas de rádio que
realmente interessavam. As antenas abertas e fóruns públicos. “As pessoas estão
fartas de ouvir falar os doutores e engenheiros, quase todos da extrema
esquerda. É preciso dar a voz aos portugueses autênticos.” Felizmente,
inconsciente da ironia por assim pensar, ele que sempre fora um defensor da limitação
da liberdade de expressão de que a organização de seu pai fora expoente máximo,
lá marcou os números para participar nos dois programas mais populares.
Raramente era escolhido para participar, mas tentava todos os dias. Não
falasse ele e falaria outro António. As pessoas iam perdendo o medo de
chamar bois aos bois. Os temas variavam, mas a António isso era
indiferente. Tinha um guião fixo que apenas necessitava da introdução, essa sim
dependia do tema. O pretexto podia ser futebol, educação, racismo, saúde,
trabalho, pesca, drogas, Europa, o que fosse. António acabaria por falar do 25
de Abril, do fracasso da democracia, da dissolução dos costumes, da
insegurança, das minorias que sugavam o estado social, do marxismo
cultural, da ideologia de género e da corrupção. Quando acontecia entrar em direto, ficava
num estado de excitação anormal que só acalmava muitas horas mais tarde. Sentia
até, apenas nesses momentos, um volume a que já não estava habituado a
crescer-lhe nas calças.
Depois do meio-dia, ouvia a conferência de imprensa
com os últimos dados. Tentava ler nas expressões dos ministros e delegados
de saúde que tipo de novidades vinham relatar. Desejava,
secretamente, que aumentasse o número de infetados e mortos. Quanto
maiores os números, mais sucesso obtinham as suas publicações. Quanto
mais medo, mais fechados ficavam todos. Refletia: “As mais definitivas das
prisões têm sempre o trinco do lado de dentro. Ninguém é aprisionado tão
irremediavelmente como quem o faz de livre vontade”. Pegava nos gráficos e
indignava-se no mundo virtual: “Enquanto não tirarem às pessoas a liberdade de
andarem pela rua, isto não vai ter fim!” Se não era suficiente o medo para
levar ao isolamento, António pensava que devia ser o Estado, pela força.
Se os números calhavam a baixar, era a sorte, a chuva, era a
responsabilidade de alguns cidadãos. Se subiam… bem, se subiam a culpa era dos
deputados de esquerda, viciados na peçonhenta liberdade.
A seguir ao almoço, alguns dos vizinhos vinham
à rua. Uns passeavam os cães, que ajudavam a morder a solidão, outros
davam pequenos “passeios higiénicos” separados por muitos metros e sem
ajuntamentos. António a todos interpelava, cuspindo-se de raiva, do alto da sua
janela. “Cambada de irresponsáveis! Haviam de ser presos!”
De regresso às redes, via que alguém tinha publicado
críticas à classe política e dirigente por não ter aplicado medidas restritivas
mais cedo, as chamadas "sopas depois de almoço". Não era nenhum
especialista, era um antigo colega de trabalho no escritório de contabilidade.
Para António era um calhau com olhos, ainda por cima de esquerda, mas desta vez
estavam de acordo por isso deixou um "gosto" e o seu costumeiro
chiste: “No tempo do Salazar, os políticos eram homens sérios! Agora temos a
extrema-esquerda no poder…”
Ah, eram dias felizes para António. Ainda mais quando
o Presidente da República e o Primeiro-Ministro anunciaram, por fim, o
endurecer das medidas de contenção. Quem circulasse na rua tinha sempre de ter
um documento que o justificasse. Quem não cumprisse, levava multas pesadas e
penas de cadeia. Faltou apenas a "delação premiada" para que António
ficasse plenamente satisfeito. As ruas, já de si desertas, ficaram ainda mais
vazias. As pessoas que cantavam às janelas desanimavam com o prolongar do
cerco, recolheram-se ainda mais como se a simples visão das ruas, agora
vedadas, lhes provocasse uma angústia insuperável, uma saudade da antiga rotina
que antes lhes parecia desinteressante.
Certo dia, ao executar o seu demorado ritual antes de
dormir, apercebeu-se que se estava a acabar a pomada Viks VapoRub.
António tinha lido algures nas redes sociais que era um medicamento muito
eficaz para prevenir e combater o vírus. Naturalmente, só não era mais
divulgado porque a indústria farmacêutica não tinha interesse em que se
soubesse. As redes sociais pululavam de páginas “pela verdade” que
desmascaravam conspirações de dimensões globais: a rede 5G que controlava o cérebro
da população, a vacina para a enfermidade que iria implantar um chip para
transmitir dados biométricos às grandes corporações, os “Chemtrails” espalhados
pelos aviões que disseminavam químicos pela atmosfera para tornar a população
mais dócil e não questionar os seus líderes reptilianos vindos de outro
planeta. Havia teorias para o menino e para a menina, era à escolha. Sempre que
alguém um pouco mais iluminado chamava a atenção para o absurdo por detrás
dessas ideias, os seus seguidores, mandavam-no, invariavelmente, de volta para
o rebanho. De maneira que, na manhã seguinte, preparou-se com luvas, máscara e
uma garrafa de álcool no bolso e saiu de casa em direção à farmácia com o fito
de comprar alguns frascos.
Ia, feliz por não ter encontrado vivalma no trajeto,
quando foi abordado por uma patrulha da polícia. Dir-se-ia que os dois homens
estavam cansados da situação, enervados por estarem sempre separados das
famílias e expostos aos maiores riscos. Só isso explica que se tenham dirigido
a António, que tinha idade para quase ser seu avô com modos tão rudes: “Olha-me
este! Que é que andas a fazer na rua, ó velho? Mostra lá a tua justificação.”
António empalideceu, não tinha justificação. Começou a explicar que ia comprar
o Viks, que era um método infalível para evitar a doença. Os agentes
começaram a rir, nem disfarçavam o que achavam de António. “Está bem ó
avozinho, diga lá onde mora que vamos levá-lo.” António resistiu, indignou-se,
procurou no telemóvel o artigo para mostrar aos agentes. Estes riram ainda
mais. Chamou-lhes nomes, desrespeitou a farda e trinta por uma linha, até
que um deles perdeu a paciência, atirou-o ao chão com uma facilidade que
António não antevira e o algemou. Colocaram-no no carro à força e levaram-no
para casa.
À chegada, uma receção surpreendente. Os vizinhos,
todos à varanda. Nas janelas, caras surpreendidas com o
que se via: António saía do carro patrulha algemado
e com a ajuda dos polícias. Foi libertado, mas os seus carcereiros
esperavam que ele se encaminhasse para a porta do prédio. Os vizinhos começaram
então, como que num coro ensaiado, a devolver a António, de uma vez, todos os
impropérios que foram guardando durante a quarentena, numa
enxurrada de raiva artificial, com muito riso contido, que fez o quarteirão estremecer. Entrou
no prédio de cabeça baixa e só saiu para receber a primeira dose da vacina.
Nunca mais vi nada publicado por ele nas redes sociais
desde essa altura, mas ainda o vejo todo o dia à marquise, vigilante. Quis-me
vender o computador, estimado como estava e sendo bom o preço, aceitei.
Disse-me que já não lhe dava uso. Foi um bom negócio para os dois. Quando o
liguei pela primeira vez, fui ver o histórico de navegação. A última página que
visitou foi a de um jornal que investiga e denuncia notícias falsas, dizia que
era mentira que o Viks prevenisse ou curasse o vírus.
Friday, February 14, 2020
Eutanásia, outra vez
Friday, January 24, 2020
Lourenço
Era difícil perceber a que se referia. Os filhos e netos encolhiam os ombros, certos de que a idade trazia já alguma baralhação natural às ideias. Ao mesmo tempo, surpreendidos. Não era costume ouvir-lhe duas frases seguidas. Mas isso não lhe diminuía o entusiasmo. Não lhe interessava se o compreendiam. Sabia que, um dia, chegariam eles próprios à mesma verdade. De que lhe valia tirar-lhes as certezas? Temos que ser nós próprios a abdicar delas, se tentam que as abandonemos, ainda as agarramos com mais força.
E embalava na conversa: "Eu também pensava que era uma linha que se ia apagando no fim, mas vejo agora que não." Com o bisneto ao colo, os descendentes atribuíam também à comoção do momento alguma desordem no discurso. "É um círculo, nós é que estamos tão concentrados no que acontece à nossa volta que não damos pela curva. Só quando as linhas se vão fechando e repetindo, percebemos que não se apagam. Unem-se!"
Eram os dois uma ilha naquele mar de ignorância. Partilhavam um conhecimento que, em breve, ao mais velho de pouco serviria e o mais novo depressa ia esquecer. Os outros pensavam em outras coisas: na ceia de Natal, presentes e sabe-se lá em que outras ninharias. "Não te peço que te lembres de mim. Acabaste de chegar e eu estou quase de abalada, mas pergunta por mim. Mantém o círculo fechado sempre. Sem memória, somos como os bichos, somos quebrados. O meu nome, no fim do teu, não basta. Tenta saber de onde vens. Tens de o fazer!"
Wednesday, December 18, 2019
A Lenda da Ferrenha
Wednesday, November 27, 2019
Menina Anita
Wednesday, November 13, 2019
Sueca
Monday, October 28, 2019
Deusnossosenhormeperdoe
Thursday, October 24, 2019
Açorda
Monday, September 30, 2019
Arco-Íris ao Peito
O Paulo usava o cabelo grande. Não era moda, não se pode dizer que imitasse
alguém, nos anos 80, naquela região, nem era assim tão comum. Simplesmente,
gostava de o ter assim: cabelo louro e liso pelos ombros. Também a pele era clara,
como se o sol do Alentejo tivesse decidido poupá-lo ao castigo que destinava a
todos os outros. Paulo tinha um ar angelical. Como é sabido, os anjos não têm
sexo, por isso, quem não o conhecia, passava alguns minutos numa perplexidade
que aprendemos a identificar e nos divertia. Viam uma figura andrógina, bonito
demais para ser moço e com feições ligeiramente grosseiras para ser rapariga.
Indecisos entre chamar-lhe gaiato ou gaiata, acabavam, muitas vezes por não
dizer nada e iam-se embora com os dois pronomes entalados na garganta.
Algumas das senhoras idosas, mais espertas que as outras, tentavam sair
airosamente deste impasse e perguntavam: “Como te chamas?” Mas a entoação que
ele dava ao seu nome, fechando a última vogal, deixava-as na dúvida. Teria dito
“Paulo” ou “Paula”? Não conseguiam perceber. Acho que não fazia de propósito,
mas nós divertíamo-nos a ver a confusão que ele provocava. Alguns ainda ficavam
a remoer rancores vindos de preconceitos contra cabelos grandes, como se o
Paulo fosse uma repetição das frustrações que tinham vivido com os seus
próprios filhos que, agora com idade para serem pais do Paulo, tinham sido hippies, com longas guedelhas, sapatos
de plataforma, horríveis camisas de hiperbólicos colarinhos e calças com boca-de-sino.
No recreio da escola, Paulo gostava de jogar à bola. Não era o primeiro a
ser escolhido quando se faziam equipas, mas também não era o último. Algum
talento tinha para a coisa. Metade das vezes, porém, preferia brincar com as
raparigas às telenovelas, recriando as cenas do capítulo do Roque Santeiro
visto no serão anterior.
Uma observação à indumentária também de pouco servia para que se
conseguisse alcançar qualquer certeza. Paulo, como todos nós, usava a
obrigatória bata branca imposta aos alunos e alunas pelo professor Albino. Para
além da bata, fazia parte do uniforme uma particularidade que servia para
premiar os alunos pelo seu desempenho e motivar para a aquisição permanente do
saber. Todos traziam ao peito um alfinete de dama com várias fitas que contrastavam
com a alvura da bata. Invejávamos o Paulo porque trazia penduradas todas as
fitas, numa infinidade de cores. Uma fita branca para a limpeza, obtida após
análise cuidada das unhas e atrás das orelhas, local onde o sarro era mais
resistente a uma boa esfrega. Uma fita vermelha para a destreza demonstrada no
interrogatório da tabuada. Uma fita amarela para a história, sempre que um
aluno sabia de memória os nomes e cognomes de todos os reis da primeira
dinastia. Uma fita verde para a ortografia, entregue a quem conseguia três
ditados seguidos com zero erros. Mais cores, muitas, para outras tantas tarefas,
deveres e saberes: pontualidade, resolução de problemas de matemática,
caligrafia, criatividade na escrita de composições, presenças na catequese,
enfim, fiquemo-nos por um et cetera. Um autêntico arco-íris
pendurado ao peito que o Paulo e a maior parte de nós mostrávamos com orgulho,
quando havia muitas, ou com vergonha se acaso minguavam.
Um dia, o professor Albino chamou o Paulo ao estrado e disse que lhe iria
retirar a fita branca da limpeza. Burburinho na sala! Estranhámos a situação e
disso demos conta ao colega de carteira que tinha a mesma intenção! Então o
Paulo que era o paradigma da limpeza, sempre com as unhas curtinhas, sem
remelas nos olhos e que, quando estava constipado, limpava o nariz com mil
cuidados e sem nenhum ruído! A sua mesa, magicamente, parecia-nos, nunca tinha
vestígios de borracha, os seus lápis nunca deixavam aparas. Tudo tão limpo e
ordeiro que parecia que nunca era usado. Uma antítese total das nossas
carteiras, sempre escritas, sujas de tinta e todos os vestígios em que os
gaiatos da escola primária são abundantes.
Paulo, humildemente, sem ponta de revolta ou sequer mau humor, perguntou a
razão dessa súbita e inesperada subtração da fita. O professor,
silenciosamente, apontou-lhe para a cabeça. Continuámos sem perceber. O Paulo,
apenas ele, parecia ter adivinhado. Passou as mãos pelo cabelo. O professor
começou a dizer que o cabelo grande era “uma falta de higiene”, que originava
piolhos, que era sinal de desleixo. Perguntei, candidamente, sem vestígio de
ironia, se as raparigas deviam também cortar o cabelo. O professor, confundindo
a minha inocente perplexidade com desafio, ordenou de imediato que me fosse
sentar à janela com orelhas de burro. Concluíu o professor, que “os homens
devem usar o cabelo curto”. Paulo, exposto a todos, baixou a cabeça e começou a
chorar silenciosamente. Isso pareceu irritar o professor que, ato contínuo, lhe
retirou a fita púrpura do bom comportamento dizendo, com um arrependimento
visível a meio da frase: “Um homem não chora”, cujo único efeito foi
multiplicar as lágrimas.
Na semana seguinte, o Paulo foi ao barbeiro, a isso os pais o obrigaram depois de uma conversa com o professor. Não sei se chorou, como na sala, quando as madeixas louras foram caindo à mercê do pente número dois do mestre Ciladas e ficou, por fim, frente ao seu reflexo no espelho, com o escalpe a descoberto.
Quando voltou à escola, estava irreconhecível. Os grandes olhos claros
pareciam desabitados. O professor fazia-lhe perguntas e ele encolhia os ombros,
indiferente aos castigos, às reguadas e puxões de orelhas. Nem reagia enquanto,
uma a uma, as cores do arco-íris que trazia num alfinete ao peito eram
retiradas como as pétalas de um malmequer. Nunca ninguém mais olhou para o
Paulo na dúvida sobre se seria rapaz ou rapariga. Para nós, garotos, nada
mudou. Estava ali o nosso amigo. Mais triste, mas era ele. Para o Paulo, tudo mudou.
Como mudou para Sansão que, conforme contava o Padre Herculano, perdera as
forças à medida que perdera o cabelo. No professor e nos outros adultos,
parecia ter-se instalado um conforto que antes não experimentavam ao encarar o
Paulo. Era um rapaz que ali estava. Não podia ser outra coisa.
Tuesday, September 17, 2019
O Mentiroso de Cuba
Deste tipo de aldabrão, o maior de que ouvi falar foi o Lúcio Alves. Viveu há muitas décadas em Cuba, no Alentejo. A mentira deixava-lhe sempre um sabor mais doce na boca. A verdade saía em sons estranhos articulados com as entranhas e que o deixavam como que vazio e sem jeito. De maneiras que era mais frequente mentir que dizer a verdade. Começou por exagerar a realidade, com grande sucesso. As pessoas no café até se calavam e juntavam-se para o ouvir. Quando se foram apercebendo que nem tudo o que luzia era ouro, começaram a dar o devido desconto, mas continuaram a ouvir com interesse e a pagar-lhe um copo. Com o tempo deixou de lhe bastar. Inventava acontecimentos de raiz. Estórias pouco verosímeis, fantasiosas que chegavam a incluir lobisomens e outros medos, mas também acontecimentos banais inspirados em anedotas que ouvia os homens contar na taberna.
Wednesday, August 28, 2019
Jadan
Há precisamente um ano, Jadan despedia-se dos pais e dos irmãos. Também nessa ocasião acordou mais cedo que todos para ver uma derradeira vez as margens do Ganges e as ruas adormecidas de Sujanagar.
Numa família de tantas bocas era preciso que todos trabalhassem e, mesmo assim, quase não chegava para comprar arroz que sossegasse os estômagos. A solução era ir para uma terra distante. Portugal seria a sua nova casa por uns anos, se tudo corresse bem.
Via agora, à medida que a luz do sol que se erguia à esquerda e tornava visíveis os contornos de todas as coisas, um imenso mar de plástico, as estufas onde labutava todo o dia. Em breve, estaria no seu interior. De dentro do contentor que partilhava com mais quatro companheiros, ouvia-se já o som familiar de pessoas a levantar-se. Acabava assim este momento só dele. Sem olhar para dentro da sua improvisada habitação, conseguia adivinhar o que se passava. Despertavam apressadamente para tomar um pequeno almoço de arroz cozido, iam à casa de banho apagar da cara os vestígios da noite. Sempre em silêncio, sem conversas entre eles. Os capatazes juntavam-nos ali, pensando que eram conterrâneos. A verdade é que nem falavam a mesma língua. Indianos, tailandeses, vietnamitas comunicavam precariamente.
Houve um dia em que, como se reconhecesse o seu rosto num espelho, ouviu algo que traduzia o que lhe ia na alma. Cantavam, ele não conhecia uma palavra mas o sentimento era, não duvidava, o dele. Na praça da aldeia, homens idosos vestiam trajes iguais. Amparados uns nos outros, soltavam um lamento em forma de canto que o comoveu até às lágrimas. Ali, longe de casa e numa língua estrangeira, homens tão diferentes dele pareciam saber exprimir, com sons, o que Jadan sentia. E sentiu-se grato por isso.