Wednesday, November 09, 2005


é só para partilhar com vocês esta foto q tirei este Verão na Salvada (concelho de Beja) essa bela localidade. Não se percebe muito bem mas sou eu e o Jorge Palma e lá atrás em segundo plano o Vicente Palma, o filho.
Foi uma noite fixe porque falei com o Jorge um bocado, tirei uma foto e fiquei com um autografo, mas o concerto deixou um bocado a desejar mais uma vez por causa dos excessos etílicos. Ainda assim, não deixei de me arrepiar inúmeras vezes como quando abriu com O Meu Amor Existe ou se sentou ao piano para cantar Estrela do Mar.
Enfim, está partilhado.

Saturday, October 08, 2005

um texto de "o vermelho no escuro"

Vêm ao longe
as ressonâncias

Abrem-se fendas
na pedra dos ossos
que estalam
em gemidos plangentes.

A carne
estremece
em crateras de dor.

A alma
foragida
procura o reencontro com o útero.

O caminho
sem caminho
o caminho procura

A loucura
enxameia
em ondas de espuma viscosa de azeviche
a existência singular.


A vida
faz-se
de sangue vermelho.

De negro
se faz
o poema.

António Ricardo Mira

Poema embriagado

Bebo
Bebo sem medo
A alma no copo
A alma do corpo

Bebo sem medo
Do ridículo
Vinículo

E encontro-me no espelho outra vez
E saúdo alguém que não quero ser
E o álcool diz que eu não sou aquilo
Por isso traz-me prazer


8/10/05

Thursday, September 15, 2005

Memória Recuperada

Águas fétidas sepultam exércitos de eras distantes.
As armas brilham como peixes carnívoros.
Dentes afiados que apodrecem.
Não sopra o vento, mas se soprasse seria o cheiro da morte,
Do sepulcro vandalizado pelo tempo.

Pontes inacabadas e suspensas por fios invisíveis.
“A luz não é real” – disse alguém imerso na escuridão, olhos vazios.
“As criaturas rastejantes são desagradáveis à vista, mas agradáveis ao tacto”.
Toquei-lhe na anca e a morte sorriu.


2004

Friday, July 29, 2005

Para vos entreter nas férias:

Acende mais um cigarro, irmão
inventa alguma paz interior
esconde essas sombras no teu olhar
tenta mexer-te com mais vigor

abre o teu saco de recordações
e guarda só o essencial
o mundo nunca deixou de mudar
mas lá no fundo é sempre igual

E agora, que a lua escureceue a guitarra se partiu
D. Quixote foi-se embora
com o amigo que a tudo assistiu
as cores do teu arco-íris
estão todas a desbotar
e o que te parecia uma bela sinfonia
é só mais uma banda a passar

A chuva encharcou-te os sapatos
e não sabes p'ra onde vais
tu desprezavas uma simples fatia
e o bolo inteiro era grande demais
agarras-te a mais uma cerveja
vazia como um fim de verão
perdeste a direcção de casa
com a tua sede de perfeição

Tens um peso enorme nos ombros
os braços que pareciam voar
tu continuas a falar de amor
mas qualquer coisa deixou de vibrar
os teus sonhos de infância já foram
velas brancas ao longo do rio
hoje não passam de farrapos
feitos de medo, solidão e frio

Jorge Palma

Apesar do tom pessimista, para mim é uma canção feel-good, como muitas do Jorge Palma. Vou ouvir isto muitas vezes estas férias. Adeus e até ao meu regresso!

Friday, July 22, 2005

Ontem li: (do meu amigo poeta) II

Rainy Day Like Any Other

Wind and water flowing outside,
Thoughts and pictures through an empty mind,
Myself and I alone tonight.
While every rime I make ends with an “I”…

A concept of modern poetry,
A new concept in quatrains,
Recalling myself of the great before me,
A new concept in an old portrait.

Words becoming verses
Verses becoming stanzas,
Leaving the quarter verse behind.

Seven:

Motion and stillness,
Action and routine,
Sound and silence,
Echoes…

Seven days a week
Twelve months a year,
All years in a lifetime!

Recalling myself of the great before me,
The ones that knew how to write,
The ones that were modern
Without living in these modern times.

I remember the days before the rain,
The moments, the hours and the time long gone,
While I listen to this song,
Of raindrops at my door.

All this and nothing,
Today,
On this rainy day,
Like any other!


N. J. Smith

Wednesday, July 13, 2005

Hoje sinto-me assim:

"No calor da febre que me alaga toda a fronte
Sinto o gume frio da navalha até ao osso
Sinto o cão da morte a bafejar no meu pescoço
E a luz do sol a fraquejar no horizonte
Já desfila trémulo o cortejo do passado
Que me deixa quedo, surdo e mudo de pesar
Vejo o meu desgosto na beleza do teu rosto
Sinto o teu desprezo como um dardo envenenado (...)
Sopra forte o vento na fogueira que arde em mim
Sinto a selva agreste nos batuques do meu peito
No cruel caminho em que me lança o desespero
Sinto o gelo quente do inferno do meu fim..."
Adolfo Luxúria Canibal

Monday, June 27, 2005

Ontem ouvi (ao vivo):

Adormecido
No cenário da tua vida
aclamas noites alucinantes
de gentes estonteantes
que são tanto como tu

No teatro do teu olhar
há quem note que a coragem
não passa de uma miragem
com preguiça de gritar

No repetir do teu mostrar
inventas-te uma história
que em ti não há memória
porque sabes que não é tua...

Houve alguém que te conheceu
Que te faz tremer ao passar
porque nunca a deixaste de amar...
Continuas a ensaiar
a conveniência do sorriso
o planear do improviso
que te faz sentir maior
no artifício dos teus gestos
pensas abraçar o mundo
quando nem por um segundo
te abraças a ti mesmo
e assim vais vivendo
e assim vais andando aí
e assim vais perdendo em ti
tudo aquilo que nunca foste...
Houve alguém que te conheceu
Que te faz tremer ao passar
porque nunca a deixas-te de amar
Quando um dia acordares
numa noite sem mentira
e te vires onde não estás
vais querer voltar para trás.
Toranja, Esquissos

Monday, June 20, 2005

Ontem li: (do meu amigo Poeta)

Simposium De Mim

Eram dias oblíquos numa vida estranha,
Foram dias crus nesta rotina mundana...
Desta vida guardei muito pouco,
Sou louco!

Mas de quando em vez esqueço-o
Absorto em normalidade,
Perdido em trivialidade,
O ser e o não ser
Em eterna contradição,
Perpétua convulsão...

Em mim!

A Incapacidade de agir,
Fadista da alma sem a saber cantar,
Criatura sem garra sem saber amar.
Cantor sem voz num mundo de palavras ocas...

Enquanto desfilam as outras,
Aquelas criaturas loucas,
Tão mais sanas do que eu,
Vendo-as passar ao sabor do tempo,
A idade marca a hora de tantas derrotas agudas,
Neste mundo de palavras mudas.

Poeta sem pena nem esperança!

Alguém que escreve
num papel a lembrança,
Do que foi sem nunca ter sido...

Poeta perdido!




Gabriel Gonçalves

Monday, June 13, 2005

Eugénio de Andrade 1923-2005


Os elementos irão agora receber quem melhor os cantou. Eugénio é agora rosa na rosa, canto na ave e água no mar. A sua poesia irá manter-se como chama acesa da sua memória.

Wednesday, June 01, 2005

Ontem li:

Demasiado Humano

Escancarei, por minhas mãos raivosas,
As chagas que em meu peito floresciam.
Versos a escorrer sangue eis escorriam
Dessas chagas abertas como rosas…

Assim vos disse angústias pavorosas
Em versos que gritavam… ou sorriam.
Disse-as com tal ardor, que todos criam
Esse rol de misérias fabulosas!

Chegou a hora de cansar… cansei!
Sabei que as chagas todas que aureolei
São rosas de papel como as das feiras.

Que eu vivo a expor minh’alma nas estradas,
Com chagas inventadas retocadas…
Para esconder bem fundo as verdadeiras.

José Régio

Tuesday, May 24, 2005


Sentado no canto mais escuro da noite
A noite mais escura- a noite da traição

Um amigo que nos fere
É beber leite materno envenenado
É abraçar mil lâminas como a um irmão
É ver a máscara de ferro fundido cair com estrondo
e apertar no ponto mais frágil de um coração que baixou a guarda
É ouvir das Fúrias o grito derradeiro
É sentir a fragância putrefacta do caixão...

E desconfiamos das sombras familiares
E em sobresalto rejeitamos afecto
E acabamos frios como um rochedo
Sem que ninguém ouse chegar-se perto.

Thursday, May 19, 2005

Ontem li:


EU LUMINOSO NÃO SOU

Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.

José Saramago

Tuesday, May 17, 2005

Ontem li:


O Despertar de Adónis de John William Waterhouse
DESPERTAR
É um pássaro, é uma rosa,
é mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar.


Eugénio de Andrade

Friday, April 29, 2005

Ontem li:

Poeta: uma criança em face do papel
Poema: os jogos inocentes,
Invenções de menino aborrecido e só
A pena joga com as palavras ocas,
Atira-as ao ar a ver se ganha o jogo;
os dados caem: são o poema. Ganhou


Adolfo Casais Monteiro

Monday, April 11, 2005

Vive numa prisão sem barras de metal
Morre numa frágil prisão que é a sua própria pele

Envelhecida

Não pode confiar nas suas memórias

Pergunto-te:
“Qual a sensação de esperares por Ela?”

Responde-me com um olhar resignadoe manso
Que me faz chorar tristeza pura
(mais parece que se me derrete o olhar)

Surge um silêncio sem palavras
(quando se está só começamos a esquecê-las)
Um silêncio que me corta como mil lâminas
Quando numa vertigem vejo
Que sou eu quem não está preparado
Para o momento em que se liberte...
E é uma liberdade lenta e agoniosa!

Friday, April 01, 2005

...e pudesse eu pagar de outra forma...

Envolvido pela névoa dos teus cabelos Deixo-me estar na véspera da tua ausência Roubaste o fogo em que me deleitava Com a tua gélida despedida Agora quero assistir eternamente Ao festim das aves 
carnívoras 
com as tuas entranhas

Thursday, March 24, 2005


Indifference de Scott Barrow


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos

de Eugénio de Andrade

Monday, March 21, 2005

Ontem li:

espelho, és a terra onde as raízes rebentam de mistérios.
repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes
os olhares sem fim das coisas paradas, repetes o meu olhar.
espelho, és a parede e a pele cansada, és um silêncio a morrer à noite,
és o que ninguém quer, a verdade mais triste e cansada por dentro.
repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes
a desgraça, a miséria e o desespero.
espelho, quis conhecer-te e perdi-me de ti.

José Luís Peixoto

Tuesday, March 15, 2005

Desce a escadaria transvertida de vida
No salão todos param de conversar
Como se o ruído fosse uma ofensa
Embriagado pela atmosfera de perfumes sintéticos e irreais
Grito: “MORTE, MORRE!”

Se um instante durasse mais do que isso mesmo
Elegeria aquele como meu...

Até a cor dos cabelos é falsa
Enquanto ondulam ao dançar
Apetece-me vomitar
Mas não tenho mais no estomâgo do que vermes e terra...