Wednesday, June 11, 2025

Pórtico*

Os homens transitam do Norte para o Sul, de Leste para Oeste, de país para país, em busca de pão e de um futuro melhor. 

Nascem por uma fatalidade biológica e quando, aberta a consciência, olham para a vida, verificam que só a alguns deles parece ser permitido o direito de viver. Uns resignam-se logo à situação de elementos supérfluos, de indivíduos que excederam o número, de seres que o são apenas no sofrimento, no vegetar fisiológico de uma existência condicionada por milhentas restrições. Curvam-se aos conceitos estabelecidos de há muito, aceitam por bom o que já estava enraizado quando eles chegaram e deixam-se ir assim, humildes, apagados, submissos, do berço ao túmulo - a ver, pacientemente, a vida que vivem outros homens mais felizes. Alguns, porém, não se resignam facilmente. A terra em que nasceram e que lhes ensinaram a amar com grandes tropos patrióticos, com palavras farfalhantes, existe apenas, como o resto do Mundo, para fruição de uma minoria. E eles, mordidas as almas por compreensíveis ambições, querem também viver, querem também usufruir regalias iguais às que desfrutam os homens privilegiados. E deslocam-se, e emigram, e transitam de continente a continente, de hemisfério a hemisfério, em busca do seu pão. 

Mas, em todo o Mundo, ou em quase todo o Mundo, vão encontrar drama semelhante, porque semelhantes são as leis que regem o aglomerado humano. Não esmorecem, apesar disso. Continuam a transitar de olhos postos na luz que a sua imaginação acendeu, enquanto os mais ladinos, aproveitando todas as circunstâncias favoráveis ou criando-as até, fazem oiro com ingenuidade dos ingénuos. 

Eles continuam a transitar com uma pátria no passaporte, mas, em realidade, sem pátria alguma, pois aquela que lhes é atribuída pertence apenas a alguns eleitos. Para eles, ela só existe quando nos quartéis soam as cornetas de guerra ou nas repartições públicas se recolhem tributos. É assim na Europa e é assim nos outros continentes. 

Nasce o homem e, se não dispõe de riqueza acumulada pelos seus maiores, fica a mais no Mundo. Entra na vida – já se disse e é bem certo – como as feras nos antigos circos – para a luta! Luta para criar o seu lugar, luta contra os outros homens, luta pelas coisas mesquinhas e não pelas verdadeiramente nobres, por aquelas que contribuiriam para uma maior elevação humana. Para estas quase não há tempo na existência de cada um. 

Transite ou não no Planeta, a maioria perece durante a batalha, porque não se removeu ainda, conforme a mais clara inteligência e o mais digno sentimento, a construção social erguida pelos potentados de outrora, e que hoje constitui, para a Humanidade, perene fonte de inquietações e de desditas. 

Biógrafos que somos das personagens que não têm lugar no Mundo, imprimimos neste livro despretensiosa história de homens que, sujeitos a todas as vicissitudes provenientes da sua própria condição, transitam de uma banda a outra dos oceanos, na mira de poderem também, um dia, saborear aqueles frutos de oiro que outros homens, muitas vezes sem esforço de maior, colhem às mãos cheias. 

O problema da emigração não é, porém, um problema-causa, mas consequência de outros mais vasto e mais profundo. Assim, sob a forma do primeiro, o nosso romance pretende dar a essência do segundo. E seria, portanto, um erro atribuir ao Brasil, país que tanto amamos e é um dos mais nobres e generosos no Mundo, ou à Argentina ou à América do Norte, que têm uma organização social idêntica à de quase todos os outros povos, responsabilidades especiais pela derrota que alguns emigrantes possam sofrer nas suas ambições, tanto mais que é verdade não estar preparada para a luta a maioria deles, constituída, em muitos casos, por pobres seres ignorantes que a Europa exporta diariamente. O drama é outro e é universal. Esses homens vão correr a sua aventura porque têm falta de pão ou porque se convenceram, justamente, de que no mundo em que vivem só quem dispõe de oiro tem direito às expressões capitosas da vida. Em circunstâncias particulares, são ainda iludidos por outros homens, que os exploram na sua própria terra, afirmando à ingenuidade deles que, mesmo assim rudes, mazorros, primários, encontrarão, neste e naquele trecho do Globo, fabulosas riquezas. E eles partem então, fascinados pela miragem. Se tivéssemos culpas a estabelecer, à Europa as debitaríamos em primeiro lugar. 

Tudo isto, porém, são simples ramos de grande, milenário e carcomido tronco, cuja sombra os homens andam agora a examinar, preocupados com o espaço que ela ocupa. 

Pela nossa parte, ao revermos, cuidadosamente, esta reimpressão de Emigrantes procurámos deixar bem nítido, para além do problema da Emigração, o problema fundamental – o de hoje, o de ontem, o de sempre. 

*Prefácio da 4.ª edição (1936) 

Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) 

Este blog agora é um livro


 

Monday, October 23, 2023

Formigas de Asa

 


Já não se lembra do dia, era Outubro, sabe-o porque havia formigas de asa por todo o lado. Esperava-as todos os anos. Intrigava-se com esta invasão, com a aparente inutilidade das asas em seres que rastejam sobre e sob o solo. Onde andariam todo o ano e por que motivo apareciam com as primeiras chuvas do Outono? Provocavam um frenesim nas aves que se alimentavam de forma prodigiosa com estes parentes longínquos também alados. O avô, homem que apesar de analfabeto conhecia a cartilha da natureza, dizia que adivinhavam a chuva, se conhecesse a palavra, melhor diria que eram os seus arautos.

Pensava ainda nisso quando surgiu o primeiro sinal de que estava grávida, dado pelo rebentar das águas. Não soube logo de que se tratava, apenas via os pés molhados com aquele líquido de fonte desconhecida. As dores puxaram-lhe um grito que, saindo-lhe da garganta, parecia vir de um local desconhecido, do baixo-ventre que era agora uma fornalha. O seu ventre, nove meses carregado em silêncio, era todo alarme. O medo impedia-a de compreender o que se passava. O animal que era sobrepunha-se à mulher que também era. Sentou-se, as pernas abertas e arqueadas, os pulsos, primeiro, depois os cotovelos, a susterem o peso do tronco. Respirou fundo, procurando a calma que a abandonara. Chamou, com uma voz frágil, por alguma companheira da apanha de azeitona que, mesmo longe, pudesse ter sido alertada pelo seu grito, mas ninguém se aproximava.

Foi quando caíram as primeiras lágrimas que conseguiu, enfim, organizar os pensamentos e trazer alguma luz à sua situação. Revia o mês de janeiro, o encontro furtivo com o Manuel, rapaz que vinha à aldeia para ajudar nas matanças dos porcos e no desmanche das carnes. Ela, encantada com aquela arte que transformava animais em conduto, a seguir os movimentos certeiros da sua faca. Segurava o instrumento vigorosamente com uma mão, enquanto a outra ora empurrava com firmeza ora afastava entranhas para conseguir chegar até ao ponto onde o corte era necessário. Achava tudo estranhamente sensual. Ao final de cada dia, despedia-se sempre com um sorriso e um “até amanhã, menina” e, mesmo antes de se montar na sua motorizada, estendia-lhe um pacote embrulhado em papel pardo e dizia “isto é para si, menina”.

A atenção fazia-lhe o sangue pulsar, sentia-se desejada, pela primeira vez. Chegava a casa e abria o pacote, umas vezes os rins ou a papada, outras bochechas, ainda os túbaros. Entregava tudo à mãe que, mesmo ardendo em curiosidade sobre a origem destes pedaços de porco, preferia calar-se e melhorar o jantar da família. Dormia deliciosamente, não sabia dizer se da barriga mais consolada se da vaidade de ser o objeto de desejo do rapaz. Havendo matança na aldeia, oferecia-se para ajudar se sabia que era Manuel quem vinha matar e amanhar. Amparava o sangue, agachada e olhando o rapaz que, com um cigarro ao canto da boca, se concentrava no abate do animal. Tirava, de vez em quando os olhos do alguidar já cheio quando a guincharia do bicho acalmava e a morte, enfim, o reclamava, para mirar a face do matador. Este, se surpreendia o seu olhar, sorria enrugando toda a cara, com um indício de luxúria.

No dia de Reis, o Arcadinho queria matar um porco e veio Manuel tratar do assunto. Ao final do dia, chamou-a. Levou-a para um recanto perto da ribeira, atrás de uma velha figueira e disse novamente “isto é para si, menina”. Ela esperava um corte de carne, mas desta vez parecia ela a ser cortada. Sangrou pouco, e foi uma dor prazerosa que se repetiu a cada visita de Manuel no resto desse Inverno.

Depois disso, veio o tempo quente e não houve mais matanças. Veio a seca, não choveu mais nesse Inverno, março marçagão foi de verão e abril sem águas mil. Maio foi de trovoadas, mas secas. O estio veio com força, sem pinga de água. Os pastos secavam, as hortas morriam de sede e chorava-se na aldeia um ano de fome. Sentia o ventre a crescer, mas escolheu ignorar como fingiu também não perceber que as regras deixaram de lhe aparecer todos os meses. Esqueceu voluntariamente o Manuel, desaparecido da aldeia, e vestia roupas largas para se enganar.

Sentiu nova vaga de dor a irradiar-se do ventre para o resto do corpo. Estremeceu. Sabia já o que estava a acontecer, ou melhor, aceitava que era uma criança que estava prestes a nascer. Era real, a sua vida haveria de ter um antes e um depois deste dia. Um marco de sangue e dor no seu curto caminho.

Os pensamentos sucediam-se sem que um se fixasse, até pensar na criança. Que seria das duas? Como chegaria a casa, se a conseguisse parir, com um recém-nascido nos braços? Imaginava os pais, estupefactos, primeiro, e depois irados. Adivinhava os nomes que a mãe lhe iria atirar à cara e o desgosto que provocaria no pai, que sempre a defendia. Depois disso, a aldeia, a marca que os olhares lhe atribuiriam para sempre, a criança, rapaz ou rapariga, vista como o resultado de um pecado sujo. Os pais ajudariam a criá-la ou renunciariam a ambas?

Chorava agora o destino deste ser que ignorava há minutos e a chuva rebentou com estrondo. A terra, mesmo sequiosa há meses, não conseguia absorver o dilúvio. A força da água a embater no chão projetava gotas de lama para as suas pernas descobertas. Pequenos cursos de água iam-se formando, seguindo os declives do terreno.

Faltavam-lhe as forças e a coragem para se erguer. Uma dor que parecia a mãe das que vinha a sentir levou-a ao limite da consciência. O instinto dizia-lhe para fazer força. Obedeceu, inclinando a cabeça para trás e soltando um rugido, gutural, animalesco que se misturava com o estrondo dos trovões que soavam pelo vale.

A seguir, o silêncio. Apenas o som da chuva que continuava a cair. As formigas de asa eram levadas pelo vento e esmagadas contra o chão pela água. Entre as pernas jazia, ensanguentada e imóvel, uma figura informe, ligada a si por um cordão. Pegou-lhe, sentindo que era apenas um pedaço de carne. Não respirava, nasceu sem vida.

Levantou-se, retirou a faca do saco do farnel e cortou o cordão. Evitando olhar o corpo, embrulhou-o no talego e, levantando-se a custo, atirou-o ao barranco que corria engrossado pelas águas vindas de um céu que desabava. O embrulho desapareceu de imediato, levado pela água que corria tresloucada. A recordação de Manuel assombrou-a por instantes, de braço esticado com um embrulho “isto é para si, menina”, agora repugnando-a.

Não tem dia certo, quase sempre em outubro, as formigas de asa vêm-lhe lembrar a chegada da chuva e aquilo que as águas levaram.

Tuesday, June 07, 2022

Poema da esperança relutante

Tão curto é o inverno como o verão,

Mesmo quando se arrasta longamente

E mesmo morrendo, deixa a semente

Do retorno ao mesmo chão.


Tão longo é o verão como o inverno.

A vida inteira pode ser breve,

Depois do sol, vem gelo e neve,

Mas não há um instante eterno.


É inglória a luta contra a roda

Que, nas suas voltas, ordena o mundo.

A eternidade parece um segundo

Quando o sol aquece e nada te incomoda.


Tempera com lágrimas a alegria

E sorri com esperança ao que te desafia.




Thursday, June 02, 2022

Pequena História da Desordem

Na Europa, divisão IV Sudoeste, 41560BE acabou de acordar. O som do despertador padronizado arrancou-o ao sono na hora prevista no sistema integrado de despertamento e elevação do leito (SISIDEL): sete horas da manhã no horário europeu unificado, seis horas na antiga hora continental portuguesa. Conforme ordenado pelo guião, levantou-se, colocou o pé direito no chão e dirigiu-se, dentro do minuto regulamentar, até à casa de banho. Sabe que se irá demorar entre 15 e 20 minutos na sua higiene diária. O último relatório do SISIDEL refere que na divisão IV Sudoeste o tempo médio é 19 minutos e 10 segundos, muito longe dos 17 minutos e 23 segundos da divisão I nordeste, facto apontado como uma das causas da baixa produtividade dos países da divisão IV em geral e do Sudoeste em particular. Retirou a roupa de entre as opções do catálogo padronizado de indumentária (CAPIN): o número 5, camisa azul e calças bege. O sistema integrado de rotação e seleção de indumentária do CAPIN (SISROSICA) estabelece o uso obrigatório de todas as combinações disponíveis a cada mês. O programa aleatório de seleção de indumentária (POSI) gerou esta opção. Não será a que mais agrada a 41560BE, mas o regulamento é soberano. No muito improvável caso de desregulação no sistema, deve remeter o formulário regulador de análise e descarte de erro (FRADE) que será analisado pela mesa de trabalho especial de reconversão do erro (MesTRE). Tomou o pequeno-almoço obediente ao guião metodológico de nutrição matutina (GUIMNUM), cereais e leite de soja.

O GUIMNUM prevê a possibilidade de refletir na vida enquanto come, 41560BE aproveitou a oportunidade já que o guião diário o proíbe no resto da jornada. Caso tenha pensamentos suicidas, sabe que deve preencher o formulário e enviar para os serviços de dissuasão da automorte (SERDISAM). Fixou o olhar no branco do leite e o pensamento fugiu-lhe, nesta curta trégua, para 16192AM, a sua ex-mulher. “Nada mais triste do que um homem velho e só”, concluiu de modo a evitar incumprir com o GUIMNUM. 

Dirige-se para a porta revendo mentalmente os passos do sistema integrado de basculação orientada domiciliáriolaboral (SISBOD). Por momentos distraído, quase esquece o registo na aplicação pessoal de movimento de créditos (APEMOC), entra no sistema de avaliação de desempenho acordar/despertar (SIADAP) e submete o relatório. Ato contínuo, ouve o sistema eletrónico destrancar a porta e pode, finalmente, sair. O SISBOD tem sido alvo de grande evolução e aperfeiçoamento que implicou a eliminação de transportes redundantes. Havendo alternativas coletivas, o transporte individual foi suprimido. Constatou-se que o acesso generalizado a esta comodidade, incentivava a indolência para a qual os povos do Sul têm natural inclinação. Os poucos que receberem classificações de mérito no marcador identitário de uniformidade europeia (MIUE) poderão, cumpridos os requisitos de idoneidade e aplicadas a quotas, ser premiados com um automóvel por alguns meses. 41560BE teve uma classificação adequada que em nada o pode envergonhar. Dá-lhe acesso à carruagem de segunda classe, pode ir sentado, o que é mais de que muitos se poderão gabar. É uma justa recompensa que premeia as reincidentes horas extraordinárias e permanente obediência. 41560BE nunca forçou o seu dirigente a preencher um único formulário de negação laboral e reivindicação inoportuna de direito (FORNLARID).

No percurso, assiste ao vídeo obrigatório na carruagem, cumprindo o SISBOD. Os livros há muito foram proibidos e a conversa altamente desaconselhada, exceto se trate de observações meteorológicas objetivas e concretas, para isso são remetidos para os dispositivos móveis de identificação pessoal dados sobre a precipitação, nebulosidade e temperatura. O vídeo lembra as Regras e apresenta casos de sucesso de cidadãos sorridentes das várias divisões de Europa que conseguiram, através do Novo Sistema, alcançar os seus objetivos.

Antes da Grande Organização e Desenvolvimento (GOD), 41560BE era escritor. O algoritmo, omnisciente, associou-o ao centro de custos 41583, destruição de objetos irrelevantes: livros, quadros, estátuas, cada vez mais raros, são procurados pelas forças da polícia de identificação e recolha de objetos inúteis (PIROI) e levados ao centro de reaproveitamento e obliteração do irrelevante (CROI). À medida que se aproxima da paragem, acede ao dispositivo móvel de identificação pessoal para classificar a viagem. “O sistema depende da monitorização cidadã constante e do envio de contributos” ouve-se no vídeo, onde todos sorriem, à medida que pressiona “enviar”.

Chega, finalmente, ao CROI. O trabalho é importante, como todos os de Europa, assim dizem os novos manuais escolares. 41560BE veste o uniforme de trabalho e segue, automaticamente, para o seu posto: fornalha de obliteração do irrelevante (FOI) n.º 249A. Realiza um primeiro exame ao contentor, muitos livros, algumas pinturas e uma estatueta. Fixa os olhos na estatueta, com a inscrição “reprodução de Nice de Samotrácia”. É subitamente acometido pela memória de uma visita, ainda pequeno, anos antes da GOD, a um museu no local onde é hoje a Europa, divisão I Centro. Não se recorda do nome do museu, mas a estátua causou-lhe grande excitação. Como a esta miniatura, faltava-lhe a cabeça. Ainda assim era bela, no conceito da altura, anterior à reorganização semântica europeia (RSE). Depois da GOD, o adjetivo belo apenas se tornou associado aos conceitos de organizado, útil e eficiente. Pega nesse objeto sem uso e atira-o para a fornalha preenchendo o auto de abate de objeto irrelevante (AAOI).

Começa agora a pegar nos livros. Cada vez mais escassos, ainda vão chegando alguns vindos de casas inspecionadas após denúncias anónimas. Enciclopédias, dicionários, manuais de matemática e livros técnicos devem ser encaminhados, reaproveitados e desmaterializados para a grande nuvem (GN) após envio para o sistema automático de identificação de obra passível de desmaterialização e tradução digital (SAIOPDTD). Outros livros que possam causar dano por estimulação da imaginação, devem ter como destino imediato a fornalha: romances, novelas, contos, poesia, teatro, ensaios, biografias, etc.

A GN foi das maiores medidas da GOD. A eliminação da internet foi um passo seguro na pacificação e uniformização das tendências opinativas dos cidadãos (PUTOC). Em substituição criou-se a GN, um recurso com vista a disponibilizar conteúdos objetivos para a promoção da racionalidade: estudos científicos, entradas de dicionário, exercícios interativos de matemática, e outros estão ao acesso de todos através dos dispositivos móveis e fixos de identificação pessoal. Um algoritmo sugere a cada cidadão os conteúdos que melhor se adequam às suas funções, para que um agente da PIROI não ocupe o seu tempo com estudos sobre geologia ou um mineiro com documentários sobre enciclopédias. Há ordem e rigor na GOD, todos contribuem para que seja perfeita o que demonstra a sua perfeição.

A sua mão sente primeiro a comoção, antes mesmo de que os olhos, ansiosos, o confirmem. Quando olha o livro, lê primeiro o nome do autor, “José Saramago”. Costume encarado como primitivo, este de escolher um nome para os filhos. 41560BE já esqueceu o seu, mas este nome é-lhe familiar. Seria possível que também ele se chamasse José? Não consegue responder, mas continua a sentir um estremecimento inexplicável. “Ensaio sobre a Cegueira”. Será um livro de medicina? Um espaço inominável, para lá da consciência, é o único que parece reconhecer o livro. Levanta os olhos, procurando, em vão na brancura do teto uma resposta para esta agitação. Baixa-os para o chão com a impressão persistente de que esse branco se manterá, mas não. Distingue no chão vermelho o seu calçado regulamentar.

Impressionado com a situação, pondera por instantes submeter um relatório aos serviços de manutenção da sanidade (SMS), mas, antes que decida o que fazer, já submeteu o livro para o SAIOPDTD. 41560BE não tomou ainda consciência do que fez, já a máquina cataloga o livro, traduz para as línguas oficiais de Europa e disponibiliza na GN.

O algoritmo sugere o livro em primeiro lugar aos oftalmologistas. Estes atribuem uma pontuação elevada no sistema de avaliação de conteúdos da grande nuvem (SACGN) que leva a que seja também apresentado aos médicos, enfermeiros e, enfim, a todos. Apesar das proibições, fala-se do “Ensaio sobre a Cegueira” em todos os lugares. Quem lê, não resiste à urgência de falar sobre o livro, aqueles que apenas nessa ocasião dele ouvem falar, não conseguem evitar aproximar-se. As praças das cidades de toda a Europa enchem-se de gente para escutar a razão deste anunciamento mágico.

Uns poucos cidadãos cumpridores preenchem FRADEs abundantemente, mas a MesTRE já não consegue responder a todos. As praças vão-se enchendo de gente, ignorando sistemas e ordenações. Os CROI são invadidos em toda a Europa por gente que atira os APEMOC para as chamas, celebrando a sua destruição com cantos que tinham esquecido.  Multidões abraçam objetos antes destinados à fornalha, repetindo palavras proibidas que o livro fez relembrar: arte, pensamento, criatividade, liberdade, identidade.

41560BE terminou o seu pequeno-almoço e olhou por uns instantes a tigela vazia. Suspirou, sentindo o peso costumeiro do seu corpo, presente, pesado. Tinha deixado o pensamento voar longe demais. Como ave amestrada, a sua consciência regressou, com asas douradas, enfim, à sua gaiola. Estava na hora de ir produzir.

 


Wednesday, December 01, 2021

Atenas III

 Alguns metros quadrados no topo de uma colina, mas o local mais disputado desta zona do planeta. Apenas Jerusalém foi mais cobiçada. Atenienses, espartanos, persas e romanos foram tomando a Acrópole e a cidade. Os nazis também, mas dois rapazes, Apostolos Santas e Manolis Glezos, fizeram o que todos queriam mas o medo impedia: retiraram a bandeira com a suástica, hoje símbolo do ódio.

Os templos resistem estoicamente ao tempo. Atena já não tem sacerdotisas, tão pouco Poseidon. Ascendemos pelo Propylaea sem oferendas para Atena, mas ansiosos por um pouco da sua sabedoria.

Finalmente a cidade, finalmente uma noção concreta de Atenas. Pericles terá realmente sido o primeiro político, o primeiro homem de estado. Para que aquilo que se vê da acrópole tenha resistido 2500 anos, era necessário que se construísse o que está no topo. 

Depois Sounion, o cabo das colunas. Neste local onde erigiram um templo a Poseidon e Egeu pôs fim à sua vida, em desgosto. Os dois pais de Teseu assistem à sua chegada. O divino conhecedor da sua vitória, o humano, enganado pela cor das velas, a cumprir a profecia do Oráculo de Delfi e a atirar-se às águas. Aqui esperamos pelo pôr-do-sol sentindo o sopro de Poseidon. Algo em mim muda um pouco. A história, quando tem um espaço concreto ganha verosimilhança. E mais uma peça do meu barco é substituída, melhorada talvez. No mar Egeu não vejo velas, brancas ou negras. Mas Teseu, continuando a ser um mito, é mais real. 

Tuesday, November 30, 2021

Atenas II


Porto de Pireu. Navios do tamanho de edifícios. Vento, muito vento. Mas estes navios não precisam dele, não têm velas.

As pessoas agitam-se na estação de metro. Alguns turistas, mas sobretudo gente que quer ir trabalhar. O metro talvez esteja em greve ou seja pouco eficiente. Uns voltam para trás e vão para o autocarro, as caras mostram desagrado. Eu sento-me à espera. Por uma vez não tenho pressa. Vejo cada pessoa que entra, voltar a sair com a cara mudada pela contrariedade. A meu lado carregam entulho e à minha frente uma senhora segura o seu quiosque para que não voe com o vento. Lembra-me o guerreiro, no longo regresso a Itaca, amarrado ao mastro do navio para ignorar o apelo irresistível das sereias.

A carruagem foi-se preenchendo. Tomado por um receio de partir, por equívoco, para uma estação longínqua, por instantes um receio maior do que o do vírus que nos faz cobrir a cara, peço ajuda. Sim, vou para o sítio certo, dizem-me. Só aí verifico a ausência total de desinfetantes e o vírus volta a mandar nos meus receios.

Saio da estação à procura de álcool e sou surpreendido pela visão da acrópole que reina sobre a cidade. Milhares de anos de história em cima daquela colina. Daquela rocha. Homens transformados em deuses e deuses que eram como os homens. Hoje reduzidos à sua representação em imans para frigoríficos, porta chaves e outros souvenirs made in China. Ainda procuro Teseu, Thessias, mas não há. Temos os deuses, Aquiles, olhos azuis e reproduções de edifícios moldados nalgum país asiático. 

Plaka é um labirinto de ruas concebido para o turista se sentir perdido. Procuramos perder-nos quando viajamos para irmos ao encontro do cliché da autodescoberta, da viagem interior. Para, no falso alívio após o reencontro do caminho, nos sentirmos como Ulisses quando, uma vida depois, reencontra a costa familiar da sua ilha.

Em cada esquina, olhando para cima, de novo a acrópole. Parece desafiadora, altiva. Amanhã irei lá estar. 

Monday, November 29, 2021

Atenas I

Uma oportunidade perdida. Aegean como nome de uma companhia aérea grega é isso mesmo, uma oportunidade perdida. Pegasus, Dedalus, Ajax seriam nomes bem mais apropriados. Icarus já não tanto, descolava bem, voava sem problemas, mas era mais fraco nas aterragens e talvez não desse tanta confiança a potenciais passageiros. 

Aterrei agora em Atenas num avião cheio de gregos. A cadência da fala próxima dos latinos, mas a fonética menos familiar. Antes de os ouvirmos, não os conseguimos logo identificar. Parecem portugueses alguns, outros espanhóis, outros ainda turcos.

Piso com meus próprios pés a pátria dos mitos, numa altura em que, por coincidência, estes me interessam. Sobretudo Teseu, o herói dos atenienses, o homem forte por excelência. São cinco horas em Portugal, aqui sete. Já é noite. Aterro em Atenas de noite. Os placards publicitários num alfabeto que desconheço. Os símbolos sozinhos ou juntos, indecifráveis. Experimento um misto de uma espécie de analfabetismo com o prazer de me deslocar para um lugar longe e diferente. Não saber sequer ler aqui humilha-me e poder estar aqui exalta-me. São sentimentos que guerreiam entre si. Deixa-los, ausento-me de mim para assistir à batalha.

Sunday, October 24, 2021

Labirintos

Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam

José Saramago

 

No tempo em que vivia ainda em sociedade, estava sempre a desfazer o mesmo equívoco, Teseu, T-E-S-E-U. Numa aldeia em que, por tradição, é o padre quem batiza os recém-nascidos, seria de esperar que houvesse gerações inteiras com nomes retirados dos Testamentos, mas não. O padre citava Homero com o mesmo fervor que colocava nas leituras dos evangelhos, de maneira que os nomes dos aldeões remetiam, irremediavelmente, para a civilização helénica. Os amigos de infância de Teseu partilhavam este infortúnio que os acompanhou pela vida fora. De Apolo a Zeus eram forçados a soletrar o nome nas repartições públicas, com grande inconveniente e desperdício de tempo.

Quem, por improvável acidente, se depara com Teseu, fica surpreendido. Tentar definir a sua idade é um exercício que nos confunde. A calma e resignação dos anciãos contrasta com uma face que não se mostra ainda marcada pela passagem dos anos. A sua vida, embora curta, tem sido rica em acontecimentos, ora milagrosos, ora trágicos. Recorda-os muitas vezes, perseguem-no durante as noites insones na sua cela. Nas ocasiões em que adormece, vencido pelo cansaço, revive esses momentos, incapaz de os alterar ou compreender. Acabou por aceitá-los, o que lhe trouxe algum conforto.

Órfão de mãe e com pai incógnito, viveu a sua infância, criado pela avó, perto de uma pequena aldeia chamada Monfurado. A única lembrança que alguma vez teve de quem o pôs no mundo foi o preto de que se cobria a avó e uma fotografia da mãe em cima de uma cómoda, ornamento único na sua humilde casa. A avó, Umbelina, já Teseu apenas conheceu como uma sombra da rapariga capaz de andar de sol a sol, dobrada, a mondar e ainda chegar a casa com vagar e disposição para resolver os trabalhos domésticos. Um ataque qualquer sofrido por altura do nascimento do neto, tinha-a deixado com uma perna “teimosa” e uma parte da cara paralisada. Umbelina era apenas capaz de meios sorrisos para o neto, numa expressão gasta e carregada pelo luto.

Em volta desta aldeia existe uma serra com o mesmo nome onde, séculos atrás, viveu uma comunidade de monges no Mosteiro de Nossa Senhora do Castelo das Covas de Monfurado.  Alguns anos depois de finalizada a construção, veio o grande terramoto, reduzindo-o a ruínas. Grande parte dos monges abandonou o local, mas outros dos religiosos, da ordem dos Monges Eremitas Descalços de São Paulo, ficaram a viver em lapas e grutas, abundantes na serra, para se penitenciarem. Mais do que estarem expostos aos elementos e à fome, o maior castigo era o silêncio do céu, a ignorância das ofensas que teriam causado esta punição divina. Ainda hoje, quase engolidos pela natureza, há vestígios destes monges: as ruínas e as covas. Este lugar tem exercido grande atração sobre os locais que, quando jovens, inspirados pela literatura de aventura e pelos heróis do cinema, sentem a tentação de os explorar.

Também Teseu ouvia este canto de sereia. Para o afastar, a avó bem inventava elaboradas fantasias sobre monges que ainda por lá se escondiam, alimentando-se da carne de meninos desobedientes ou ainda estórias sobre os fantasmas de religiosos que se finaram, soterrados pelas vigas e cujos lamentos se conseguiam ouvir em noites de temporal. Pretendia a senhora afastar o rapaz deste lugar perigoso, mas só lhe fazia crescer o desejo de o explorar. O convento tinha para Teseu, como para os outros habitantes da aldeia, tanto de assustador como de sedutor. Qualquer rapaz que se quisesse provar homem tinha que o visitar, sozinho, para mostrar a sua coragem.

Um dia, chegando tarde a casa, ocupado a apanhar cogumelos e cardos, a avó fez-lhe nova advertência sobre o mosteiro, imaginando que teria sido talvez esse o caminho que o rapaz tinha tomado. Sem saber bem porquê, Teseu adotou, nesse instante, a resolução de, no dia seguinte, se testar na serra. Umbelina não soube desta decisão do neto nem calculou que foi o seu aviso que o decidiu a alterar o percurso no dia seguinte. Mesmo que o viesse a saber, não se culparia pelo que aconteceu. Acreditava em algo que guiava os nossos passos, em lugares comuns como ser a vida um livro que contém todos os acontecimentos, do nascimento à morte, do qual vamos apenas conhecendo, vagarosamente, página a página. “Estava escrito” dizia às vezes, como se soubesse ler, ela que desconhecia todos os alfabetos. “Calha assim” era o ponto final das conversas sempre que tinha de justificar uma seca que arruinava as colheitas, ou a morte de um vizinho ainda novo de uma “doença manhosa”.

Muitas vezes, ao serão, sobretudo no inverno, quando as noites frias mais convidavam os corpos a juntarem-se junto à lareira, as chamas a lançarem sombra e fumo pelas suas caras, Umbelina evangelizava o neto nesta fé. Pouco sucesso obtinha, Teseu rebelava-se. Então não era ele um homem? Não estava nas suas mãos o que havia de vencer ou perder? Seria a vida apenas um lançamento de dados à nascença? Não aceitava, com os seus escassos anos e tanto por viver, não ser ele o senhor do seu destino.

Assim, quando tudo aconteceu, a avó entendeu que o sucedido foi congeminado por essa força secreta e Teseu percebeu uma mão invisível a guiá-lo.

No dia seguinte, lá marchou. Ao entrar, satisfeito por tornar-se, afinal, um homem, surpreendeu-se por não sentir medo. Percorreu a igreja despojada dos símbolos e imagens, descansou no claustro que a vegetação reclamava, aventurou-se na cripta decifrando as pedras tumulares e subiu os estreitos degraus que conduziam ao cimo do campanário. Comparava a paisagem que descobria com o que a sua imaginação lhe arquitetara. Percorria-o um sentimento de familiaridade, como se conhecesse já aquele lugar. Olhando o sol, deu pelo avançar das horas e decidiu voltar. Antes disso, atraído por uma pereira brava, decidiu apanhar alguma fruta. Não tinha a certeza de estar a roubar. Ainda que estivesse, a fruta roubada sempre lhe soubera melhor. Feita a colheita, apontou em direção à aldeia.

Era o final de um dia de calor e o céu do poente parecia explodir de cores atrás da serra, a infinidade de tons entre o laranja e púrpura lembrava outras tantas possibilidades em aberto. A luz dourada estava no próprio ar que Teseu respirava, confundia-se com o cheiro a silvados e montado. O rapaz sentia-se fora do tempo. Acomodava, cuidadosamente, os soromenhos nos bolsos, quando uma vertigem tomo conta dele. Todo o mundo se agitou e contorceu. O céu do fim da tarde aparecia e desaparecia de repente. Os pés, mesmo agitados de modo frenético, não alcançavam o chão. Apenas o choque do seu corpo contra alguma coisa lhe deu a noção concreta do que tinha acontecido. Abriu os olhos e deu por si dentro de uma cova, a saída a uma altura impossível. Debateu-se algum tempo com esta realidade, tentou negá-la. Talvez fosse um sonho e não tardasse muito que a avó o acordasse. As dores que sentia, bastante reais, apontavam noutro sentido. Sentindo-se de novo pequeno e tomando consciência das circunstâncias, foi procurando locais onde se agarrar e apoiar os pés até aceitar que esta escalada estava para além da sua força e perícia. A humidade tornava a escalada ainda mais difícil. As mãos, feridas e desesperadas, foram desistindo aos poucos.

Durante duas noites, Teseu esteve naquele buraco. Sozinho. Pela primeira vez, realmente sozinho. Exposto ao frio e apenas com um punhado de peras para se alimentar. Não em três frases como aqui. Longas foram as quarenta horas em que suportou o medo e a fome. Ouviu no vento que soprava os lamentos e as fúrias dos frades. A escuridão dava forma aos seus medos pueris, monstros com formas bestiais: touros, serpentes, javalis. Os primeiros raios da alvorada em vez de consolo, apenas ofereciam alguma luz à sua situação. As paredes que tateava de noite, tinham agora a forma concreta de uma prisão, eram reais. A garganta, cansada de tanto gritar, protestava a cada nova tentativa de encontrar quem lhe pudesse acudir. Consumidas as peras bravas, a fome instalava-se aos poucos. Sentindo-se enfraquecer e desmotivar, Teseu começava a resignar-se à inevitabilidade.

Quem, aos dez anos, poderá já conhecer as facetas todas do destino? A resposta parece óbvia. Se nem no leito da morte grande parte da raça humana a chega a encontrar, como poderia Teseu tê-las encarado? Contudo, a morte não lhe era estranha. O retrato da mãe que não chegara a conhecer lembrava-lhe, todos os dias, que a morte existe. Para combater o medo, a fome e o tédio, tentava lembrar-se de todas as pessoas que conhecera e tinham morrido. Procurava recordar o nome de todos os mortos que velara, arrastado pela avó. Teseu sabia que tinham sido muitos e seriam ainda mais depois dele.

Os pensamentos iam-se sucedendo, cada vez mais rebeldes, desobedecendo à sua vontade. Imaginava a avó preocupada por ele não chegar a casa, a procurá-lo cada vez mais desesperada. Depois a receber a notícia de que fora encontrado ali, sem vida. Angustiava-se por lhe infligir esta dor e imaginava-se noutro retrato na cómoda, ao lado da mãe.

O fim deste tormento veio por fim. Teseu esperava uma morte em figura de gente, como descrita nos contos da avó, uma morte com quem se podia conversar e mesmo negociar, mas acabou por ser a cara sardenta de uma colega da escola, Ariadne, que encontrou ao olhar para cima. Duvidou do que via, habituado a supor vultos e iludir-se com vozes na sua vigília. A cara desapareceu tão depressa como tinha aparecido, o que parecia confirmar a ideia de uma aparição, mas Ariadne tinha ido chamar ajuda. Passadas algumas horas, carregado ao colo, entrava triunfalmente na aldeia. A notícia do seu resgate correra depressa já que todas as almas do local o procuravam incessantemente desde que a avó dera o alerta. Todos queriam encontrar o garoto, alguns por genuína preocupação, muitos por vaidade, como se Teseu fosse um prémio. Por isso, quando se sabia que tinha sido encontrado, perguntavam quem tinha sido o autor dessa proeza. Todos acharam estranho que o padre se risse com a resposta.

Teseu nunca mais quis largar de vista a rapariga que o tinha salvo. Logo que se restabeleceu, procurava estar junto dela todos os dias. Na escola, encontrava-a ao intervalo, acompanhava-a a casa, em silêncio, quando saíam. Levava-lhe fruta da época, colhida no pomar que tinham perto monte. Às vezes, escrevia-lhe curtos bilhetes ou arriscava poemas que ela amarrotava e deitava fora. Vivia alheado do resto, apenas Ariadne o ligava a este mundo. Os instantes em que não estava próximo dela eram ocupados a recordar a sua figura e as constelações de sardas do seu rosto. A rapariga acabou por habituar-se a esta presença lacónica e àqueles olhos, sempre apontados aos seus. Durante anos, Teseu foi uma sombra, que Ariadne tolerava graciosamente porque parecia compreender que algo os unia.

Um dia, Ariadne surpreendeu o olhar de outro rapaz, Dionísio, e soube que este a amava. Corou e sorriu-lhe abertamente. Casaram depois de um curto noivado. Tudo tão rápido que Teseu nem sabia o que pensar, sentia tremer o chão que pisava. Quando viu os noivos sair da pequena igreja da aldeia, sentiu-se perdido. Pouco depois, Ariadne mudou-se para Vila Nova, para longe do rapaz que agora a enfastiava. Mesmo assim, tudo na aldeia lhe fazia lembrar a cara daquela que o obcecava desde o momento em que tinha renascido. Pensou em partir, buscar outra terra, outras gentes, mas sabia que isso lhe não traria alívio. Vagueava pelas ruas da aldeia. Quem o via passar, cabelo em desalinho e ar de quem tinha perdido o tino, metia-se em casa, corria o trinco e benzia-se. Passava à casa onde viveu Ariadne várias vezes durante o dia. Havia quem jurasse tê-lo visto, enroscado como um cão abandonado, a dormir à porta da igreja, onde a vira pela última vez.

Procurando um fim para o seu tormento, percorreu os quilómetros que o separavam da rapariga. Demorou alguns dias a encontrá-la, percorrendo as ruas de dia e dormindo onde calhava durante a noite. Encontrou-a à saída de uma mercearia, carregada de sacos e esperanças:

— Ariadne… — o tom entre o lamento e a súplica.

— Teseu, o que é que… — o olhar da rapariga não se erguia do chão desde que o vira. Não havia medo, apenas frio. 

— Não sei, precisava de te ver… Preciso de te ver — procurou ser determinado, mas a voz falhava.

— Mas porquê? Porque é que tens que estar sempre atrás de mim? — Ariadne arrastava a voz para que soasse calma. Respirou fundo, fechou os olhos e colocou as mãos sobre o ventre, acariciando-o.

Teseu deu por todos os gestos. Conhecia-a melhor que ninguém. Já a tinha observado a tentar disfarçar a irritação com esta falsa tranquilidade para, de seguida, explodir em fúria. Por isso, decidiu-se a dizer tudo de uma vez.

— A cova! Tu encontraste-me! Tu salvaste-me! Estás ligada a mim…

A fúria prevista impediu-o de dizer o resto:

— Estou ligada a ti? Porquê? Deixa-me! Salvei-te, é verdade, foi por minha causa que saíste daquele buraco, mas parece que... Às vezes desejo nunca te ter encontrado, que tivesses ficado lá e me...  respirou fundo, canalizando toda a calma que conseguia reunir  nos deixasses em paz!

A conversa terminou assim. Ariadne deixou-o com estas palavras definitivas. A Teseu nunca mais ninguém ouviu a voz. Decidiu guardar os seus poucos haveres numa saca e encaminhou-se para o mosteiro. Como os monges Eremitas Descalços de S. Paulo, também este jovem Teseu se adentrou no coração da serra. Aí, tomando uma vida de silêncio e contemplação, diz-se que conseguiu, numa cela do mosteiro, encontrar a paz que lhe faltava desde o dia em que Ariadne o retirou de onde o destino o esperava.

 

Thursday, October 07, 2021

Fragmento sobre Homeless Giant de Eric Drooker


Segura nas mãos esta frágil luz, é tua!

Tesouro desdenhado por tantos.

Na cidade que dorme, agigantas-te,

Até que a alvorada te diminua. 

Wednesday, October 06, 2021

Das maiores injustiças neste mundo, que parece ser capaz de gerá-las a todo o instante, nada me parece pior do que isto: apresentar-se uma opinião sobre quem não se conhece. Os jornais e outros meios de difamação, mais do que de informação, chamaram-lhe “monstro”. Monstruoso, verdadeiramente monstruoso, é o que lhe continuam a fazer.

Quem o conhece bem, entende o ser doce e sensível que o meu Apolo é. Guardo numa gaveta na minha mesa de cabeceira os poemas que me escreveu, um prodígio de sentimento em forma de sonetos. Gostava que os lessem. Não nego que, em certas ocasiões, deixa de ser ele. Não o faz por vontade própria. Tenho percebido que Apolo é muito nervoso. Lembra uma mola que vai sendo comprimida até ao limite e depois explode.

É hora de fazer um mea culpa. Sou eu a real culpada. Quantas vezes fui a causadora dessa perturbação? Coisas que poderia ter feito na perfeição caso não fosse tão negligente e desastrada, houve tantas! Dizem que me batia, não nego que seja verdade. Fazia-o por amor, para que eu fosse melhor. O monstro, o verdadeiro monstro, sou eu, Dafne Loureiro. Forcei-o a tudo que fez. Tivesse eu mais cuidado e as coisas não chegariam a este ponto.

Foi por minha causa que aquele homem morreu. Também o senhor teve culpa, afinal ignorou a sabedoria popular e isso nunca é boa ideia. Com toda a certeza que teria já ouvido: “entre marido e mulher não metas a colher”. O que Apolo estava a fazer, fui eu quem o forçou a isso. Por isso digo, é como se tivesse sido eu a puxar o gatilho.

É tão injusto que esteja agora o meu amor dentro de uma cela e se preparem para, a reboque do que se diz e escreve, o condenarem a uma vida na prisão. Não aceito este futuro sem ele. Deixo-vos esta carta de despedida. A ti Apolo, meu querido, prometo que serei melhor na eternidade.

Monday, May 31, 2021

Lê lá isto à avó

Entro na sala de espera do hospital. Esta é a zona das visitas, cheia a esta hora. Uns rostos escondem melhor que outros um sentimento que julgo comum a todos: a ansiedade. Todos esperam notícias, as melhores como os pais que aqui aguardam pelo momento em que passam a ser avós ou as piores como aqueles que estão à beira de se tornarem órfãos. Nestes locais a solidariedade é muito subtil. Estamos todos no nosso mundo, mas irmanados por esse sentimento de preocupação com os nossos. 

Esperamos pela autorização para entregarmos os nossos cartões de identificação e recebermos em troca um passe. De seguida, uns dirigem-se aos elevadores e outros, pelas escadas distribuem-se pelas entranhas deste monstro. Sigo as indicações até à Unidade de Cuidados Intensivos. Notei a mudança na cara do segurança, meu amigo, quando lhe pergunto o caminho. 

Lembro-me dos filmes, das séries de televisão para tentar antever a sala onde estou prestes a entrar. Imagens filmadas com a câmara aos solavancos, cenas agitadas e gritos a pedirem unidades de sangue, a gritarem para se afastarem quando empunham o desfibrilhador. Tudo contrasta com a imagem que encontro quando entro. Uma calma inesperada. As camas dispostas em coroa. Maquinaria cuja função só posso supor e que produz o único ruído. Apitos ritmados, espaçados, como código Morse aos meus ouvidos. Ouço os apitos, mas não os compreendo, como se fossem uma língua estrangeira.

Procuro a minha avó e depressa a encontro. Está desperta, encostada, parece reconhecer-me, animo-me com isso. Parece-me bom sinal que me reconheça. Esperava encontrá-la tranquila, mas não me parece. Quando lhe seguro a mão, sobressalta-se. Concentro-me nos detalhes, sei como são fugidios. Confirmo-o agora, quando recordo, tudo tão vago. Na minha memória, as paredes não conservam cor alguma, os médicos e enfermeiros são apenas batas sem rostos. Os detalhes que aqui coloco, não tenho a certeza de terem existido ou de os preencher com a imaginação.

Os olhos claros da minha avó, parecem ainda mais azuis, às vezes esverdeiam. As mãos não estão quentes nem com aquele frio arrepiante. Tento falar-lhe sem palavras, só com a forma como lhe seguro a mão, procuro saber o que me quer dizer com a forma como segura a minha. Olha em volta, procura talvez por outra pessoa. Penso que esperaria o meu pai que veio à visita anterior. Pergunto-me se terá consciência do local onde está. Depois olha para mim, o seu olhar parece conter urgência, como se o que fosse dizer pudesse redimir o mundo. A custo, articula algumas palavras, mastigadas, difíceis de perceber: “vai-te embora”. Consigo distinguir os sons, mas não entendo o que quer dizer. Acabei de chegar, quero vê-la, animá-la e consolá-la e diz “vai-te embora”. Percebe a minha confusão. “Antes que ele volte, o homem. Ele depois não te deixa abalar a ti também.” Concluo nesse instante que está confusa, a medicação deixa-a baralhada. Não é para menos, está nesta sala, com máquinas a apitar, com boiões de soro e medicação à sua volta, os dedos ligados a cabos e os cabos ligados a máquinas. Pelo menos assim o suponho, hoje, anos depois. Apenas ela é nítida, o seu rosto que, para mim, é a personificação da generosidade.

Insiste, separa as sílabas, ela que nunca aprendeu a escrever mais do que o seu nome, “vai--te, em-bo-ra”. A estranheza que me provocava sempre ela não saber ler. Eu, com seis ou sete anos e ela a chamar-me: “Lê lá isto à avó”. Uma carta das finanças e “Lê lá isto à avó”, uma prateleira de um supermercado e “Lê lá isto à avó”, uma fatura e “Lê lá isto à avó”, a seguir uma receita e “Lê lá isto à avó”. Ela a ir para a escola, já reformada ou perto disso para aprender as letras. A treinar os a’s, a assinar o nome, a caneta e o lápis ferramentas estranhas à sua mão, habituadas a enxadas, sachos e outras alfaias. Depois a desmotivar-se, a achar-se "burra" e a repetir “Lê lá isto à avó”.

Eu a dizer-lhe que não me ia embora, que ainda agora tinha chegado e queria vê-la a melhorar e ir para casa. Ela a afastar os olhos, a rodá-los pela sala a dizerem-me “Lê lá isto à avó” como se só ela soubesse o que queria dizer aquela sala, aquelas máquinas, aqueles médicos e enfermeiros. Como se fosse eu quem não soubesse ler e tivesse de me habituar ainda a este alfabeto. A dizer “Lê lá isto à avó”, não porque não soubesse, mas porque eu não sabia. Ela, resignada por eu ali ficar, com uma expressão descrente a ouvir a minha impressão de que estava melhor e que, não tardava nada, estava em casa. “Ele deve estar a voltar, vai-te embora”. O médico entra e diz que os visitantes devem sair. A minha avó, parece aliviada e diz: “vai-te embora, ele não tarda.” Percebo nessa altura que não se refere ao médico e saio despedindo-me, confuso enquanto a beijo. À porta, volto-me uma última vez e vejo que me incentiva a ir embora.

No dia seguinte vêm notícias do hospital. Junto as letras todas, e consigo, por fim, ler o que ela me mostrava. “Lê lá isto à avó.”

Thursday, February 18, 2021

Dr. Ricardo Papa Gaio

 

Nunca na história da retórica, de Górgias a Martin Luther King Jr., alguém demonstrou semelhante domínio da oratória ou desenhou argumentos de forma tão impenetrável como este de que vos falo hoje: Dr. Ricardo Papa Gaio.

Como os primeiros sofistas, era capaz de debater qualquer tema sem preparação: política, futebol, religião… de tudo falava com propriedade. De tal forma lançava os seus argumentos que os seus interlocutores ficavam sem conseguir articular palavra, limitavam-se a deixar sair sons incompreensíveis sem correspondência em nenhuma língua humana.

Um dia de trabalho inteiro, perorava sobre temas diversos com a autoridade de um tudólogo. Especialista disto e daquilo, do que calhava a vir à conversa e do inusitado.  O Dr. Ricardo Papa Gaio era dentista. De “milagroso” numa mão e espelho na outra, debruçava-se nas cavidades bocais dos seus pacientes e, enquanto tratava uma cárie ou fazia uma obturação, discutia o tema que vinha a calhar nesse dia. De manhã ao final da tarde, depositava argumentação que ia aperfeiçoando ao longo da jornada de trabalho.

Os pacientes, entre os quais se contava este narrador, pouco mais conseguiam fazer que concordar. Era mais fácil assentir com a cabeça do que contestar um ponto de vista, especialmente de alguém que tem uma broca dentro da nossa boca. Contudo, cada vez que traçávamos uma linha vermelha no debate, demonstrávamos que queríamos contra-argumentar e, para isso, nos preparávamos para cuspir a água que tínhamos acumulada dentro da boca, vinha a broca com renovado vigor conduzida pelas mãos do doutor, subitamente, trémulas.

Não havia, assim, direito a contraditório fosse a discutir um hipotético penalti na área do adversário do campeão nacional ou a mais recente intervenção do governo na salvação de um banco. Mesmo que não estivéssemos de acordo, uma mirada rápida aos instrumentos que tinha na mão e uma tomada de consciência perante a nossa posição de fragilidade, tornava-nos cautelosos e submissos. Às vezes, acabada a consulta e ainda com o sabor da anestesia na boca, lá ganhávamos coragem e contestávamos. Que não era penalti, que os bancos são essenciais para a economia ou que os ciganos não eram todos bandidos, mas quando, semanas ou meses depois regressávamos para a consulta, saíamos de lágrimas nos olhos.

Quando tentou levar este talento discursivo para a vida política, o Dr. Ricardo Papa Gaio não obteve o sucesso que vaticinava para si próprio. Nos debates televisionados, parecia desorientado por os oponentes lhe darem réplica, desmontarem os seus argumentos e o ultrapassarem em capacidade oratória. Num dos debates, em que o vi mais desconcertado, chegou a levar para o estúdio um cortante com que apontava na direção do adversário no calor do debate.

Ao fim da quinta eleição perdida, retirou-se da vida política e voltou ao consultório. Desfeitas as ilusões, só o passei a ouvir falar do tempo. E não eram grandes discursos, simplesmente dizia: “está de chuva” se chovia ou “está calor” se realmente estava. E estávamos sempre de acordo.

Tuesday, June 09, 2020

ying-yang

Os primeiros pensamentos que nos ocorrem numa reflexão por vezes são uma precipitação. O fácil e rápido às vezes pode chegar perfeitamente para uma situação simples, mas o mundo e a humanidade estão cheios de complexidade. 
Na América, país longínquo, mas sempre presente nos telejornais, George Floyd foi detido por um agente de polícia que usou, manifestamente, excesso de zelo e força despropositada que levou à sua morte. Acontece vezes demais na América, onde os polícias são pouco tolerantes e mais temidos que respeitados, e são-o mais com afro-americanos. Isto não é uma opinião, há dados estatísticos que o comprovam. Por exemplo, um afro-americano tem duas vezes e meia mais probabilidades de ser morto por um polícia que um branco. As mortes por milhão de habitantes às mãos da polícia são o dobro quando se trata de afro-americanos relativamente a caucasianos. E há muitos outros dados que encontrei num site que penso ser insuspeito: www.statista.com. Compreender a indignação de uma boa parte da população com a morte de George Floyd, implica ter uma noção do que é e do que foi a América. Aqui, à distância, nem sempre é fácil. Hollywood mostra-nos uma face glamorosa, mas postiça, os noticiários mostram-nos outra. Ainda assim, é insuficiente. É difícil termos uma perspectiva da diversidade daquele país que é capaz de eleger Trump, mas que também colocou Obama na Casa Branca. É o país do Tiger King e do KKK, mas também de Lincoln e Martin Luther King Jr. 
A chegada dos protestos a Portugal veio trazer algumas reacções que, não sendo muito coerentes, devem ser abordadas. 
Em primeiro lugar, não há a noção do que é o privilégio. A alguém branco, mesmo nascido numa família com poucos recursos, falta a capacidade de se colocar no lugar de quem tem uma cor de pele diferente. Pode ser uma questão de empatia, mas em tempos de crise, quando somos afetados por problemas sociais, temos tendência para viver na nossa bolha e marginalizar os que são diferentes. Ainda mais quando alguém aparece a responsabilizar os outros pelos nossos problemas. Ou então é uma questão de semântica com a palavra privilégio. O seu significado não é sempre tão linear como parece. 
Depois há a questão da bipolarização: os maus e os bons. A obrigatoriedade de escolhermos lados: ou estou com os polícias ou com os bandidos. Como se numa instituição tão grande não houvesse, necessariamente, um número elevado de maus elementos que pertencem a grupos racistas. Certamente que a maior parte são pessoas que seguem uma vocação de proteger e ajudar, mas exigir que os que são racistas sejam responsabilizados e, se possível, expulsos da organização não é atentar contra a dignidade e profissionalismo dos primeiros. É defende-los do mau nome que alguns dão à farda. A única bipolarização que devia existir era entre os racistas e os anti-racistas. 
Depois há o folclore das designações. Há os que entendem que a designação de afro-americano é uma invenção do politicamente correcto, esquecendo que veio substituir uma designação extremamente ofensiva como "nigger". Juntam-se depois comparações estapafúrdias como a do cidadão assassinado por um cigano. Como se houvesse comparação entre um homicídio perpetrado por um indivíduo num contexto não conhecido e outro cometido por quem se deveria dedicar a proteger. 
Finalmente, aquela que é para mim a questão central, a ideia de que Portugal não é um país racista. Ora, se num país há racistas no parlamento, nas forças da lei e, digo-o com pena, na classe docente, enfim, em toda a sociedade, o país é racista. Isso vê-se todos os dias, até no pacato Alentejo. Vê-se, por exemplo, nos sapos de louça nos serviços públicos, no feed do facebook, nas milhentas páginas de fake news patrocinadas, por ventura, por apoiantes de movimentos racistas e xenófobos, nas caixas de comentários dos jornais, nas anedotas sobre o "preto". É um pequeno racismo, mas está lá e vai crescendo, devagarinho até ficar fora do nosso controlo. 

Wednesday, April 01, 2020

Contos da Quarentena I Confina a mente

Só me falta a farda!” Não conseguiu conter a força do pensamento de maneira que lhe saiu em voz alta em frente ao espelho. Começava mais um dia de quarentena e de trabalho para António Oliveira. Apesar de reformado e fazendo parte dos grupos de maior risco por força da idade, não era medo que sentia durante esta pandemia. Animava-o uma nova vitalidade, uma alegria estranha ao ver, nas notícias, os soldados pelas ruas.  

Tempos houve, de má memória para António, em que a tropa na rua era sinónimo de desgraça e degeneração. Mas agora não! Impunham a ordem que desejava que fosse geral ao país, ao mundo. Durante as horas do dia em que o corpo não reclamava o descanso, estava na marquise com um olho, vigilante, na rua, pronto a gritar ordens e imprecações a quem avistasse, e outro no computador, ligado às redes sociais. Este aparente estrabismo era alegremente suportado por António que desejava que o livrassem, a ele e aos outros, desse vício que era a Liberdade, empregando mais músculo na aplicação de medidas de contenção. “Todos temos que fazer sacrifícios”. Era assim que colocava as coisas. E, afinal, que sacrifício era este? Ficar em casa, com todos os confortos da vida moderna: água canalizada, esgotos, eletricidade, internet! O confinamento nunca foi tão fácil como agora. Com um telefone ou só com a internet pode-se encomendar de tudo. Fruta, verduras, carne, peixe, móveis, eletrodomésticos, vinho, medicamentos, máscaras, álcool gel… Até brinquedos sexuais para os mais pervertidos, António tinha visto por curiosidade.  

Opinava muito, lia bastante, ignorava as notícias quando os factos reportados não validavam os seus pontos de vista, mas partilhava muitos rumores e boatos quando eram mais do seu interesse. Acabara por desenvolver uma capacidade de leitura muito específica. Não se pode chamar “ler nas entrelinhas”, ia mais além: “ler nas entreentrelinhas”. Procurar numa notícia um detalhe a que ninguém mais dava importância e elevá-lo à categoria de parágrafo guia. 

Do seu saudoso pai, antigo agente da Polícia Internacional de Defesa do Estado, herdara não apenas a devoção a São Salazar, mas também o culto da ordem e do respeito. Enquanto se olhava ao espelho, procurava nas suas feições vestígios do rosto autoritário do desaparecido progenitor e concluía que era mais desafortunado por viver nestes tempos.  Ao pai coubera em sorte defender a Pátria da ameaça do comunismo, um cancro que minava as fábricas e explorações agrícolas. Com que amor pelo Estado infligia torturas físicas e psicológicas a estes bolcheviques! Era com espírito de missão que apagava os cigarros nas suas costas ou lhes arrancava as unhas. Nada melhorava mais a disposição deste diligente funcionário do que fazer “cantar” um destes vermelhos à bastonada. Chamavam-lhe “maestro” porque sob a sua “batuta”, todos acabavam por “cantar” ou então numa cama do hospital. Depois disso, Tarrafal, lugar do Chão Bom, onde a comida apenas impedia que caíssem no chão inanimados e os médicos existiam só para assinar declarações de óbito.  

Felizmente que o seu pai tinha sido poupado a estes tempos. Acabou por morrer cedo, já com o país a festejar uma pirralha liberdade. Talvez dos nervos que sentia por temer ser reconhecido na rua por algum comunista dos que tinha torturado tivesse acelerado a sua partida. Contudo, pensa António, com alívio, sem remorsos por ter servido o país. A António afligia-o não ter podido usufruir dessa honra. Tinha feito os 18 anos e estava na tropa quando veio o destacamento para o ultramar. Guiné. A família via aquilo como uma sentença de morte. António era enfermiço, não havia doença infantil que o não tivesse apoquentado e ainda o acompanhava a asma, a rinite e outros achaques sem fim. Para fazer a recruta, fora o cabo dos trabalhos. Antevendo que António seria repasto para mosquitos e que o paludismo o mataria mais depressa que as balas do inimigo, a família empenhou-se em evitar tal fatalidade. O pai era alguém na polícia política e conhecia as pessoas certas. Sabia muita coisa sobre muita gente e entre a oferta de favores e a sugestão de uma ameaça, conseguiu que o filho ficasse pela metrópole. Não teve, assim, o privilégio de colocar a sua vida entre a pátria amada e aquelas que a queriam ameaçar.

António recordava ainda o confinamento a que o seu pai fora obrigado durante vários anos após a revolução. Revivia o seu desanimo ao ver que um homem grande e orgulhoso ia definhando neste abominável novo mundo. Isso fazia crescer o seu ressentimento para com a Revolução. Lembrava a quarentena que o pai cumpriu, sem aparecer na rua, a ida para uma aldeia perdida no mapa em Trás-os-Montes onde ninguém suspeitasse das funções que desempenhara com tanto zelo, até ao dia em que morreu e António e a mãe puderam, enfim, regressar ao apartamento vazio no Lumiar. 

Lembrava-se e passava a mão pela calva, único vestígio do cabelo desgrenhado que, contra a sua sensibilidade estética, outrora fora obrigado a ostentar. Reflete. “eram as máscaras da altura, não se podia sair à rua de outra maneira.” Eram tempos em que o cabelo curtinho nem a militares ficava bem visto. As ideias novas saíam, livres, da cabeça e iam deslizando pelos cabelos, infetando tudo e todos, como piolhos, de novas palavras de ordem que inspiravam a maior repulsa em António. Cabelo à escovinha e barba aparada era sinónimo de reacionário e António tinha, na altura, muito medo de que o identificassem como o filho do PIDE. Hoje, felizmente, pensa, as coisas mudaram muito. Apareceu finalmente um partido que defende “os portugueses de bem”, que quer acabar com a “esquerdalha”, que desmonta as mentiras do “jornalixo” e que aceita todos os que querem acabar com a ameaça vermelha no país: dos saudosistas do Estado Novo a Neo-nazis todos são essenciais. “Afinal, se a extrema esquerda pode existir, por que não a extrema direita?!” Tantos anos de liberdade e ele sem liberdade para dizer o que pensa! Que leveza em poder dizer que os pretos deviam voltar para África e os ciganos deviam ser exterminados! E ainda ser aplaudido pelos seus correligionários.

Os dias começavam cedo, tomava um pequeno-almoço espartano, condizente com a situação, já lendo os destaques do seu periódico favorito, Alerta da Manhã. Pegava depois no computador portátil, removendo o sudário de plásticos que o protegiam, para começar o seu trabalho. Tratava-o com o mesmo desvelo que um atirador furtivo trata a sua arma. Encontrou uma primeira notícia que lhe chamou a atenção: “Um campo de refugiados às portas de Beja”. Condicionado para se enervar com a palavra refugiado, imediatamente abriu a notícia, era afinal sobre ciganos. Ainda assim, não fora tempo perdido. Clicou em “partilhar” e produziu as exclamações: “A esta gente nada se lhes pega! O vírus havia era de os levar, para deixarem de mamar à conta dos nossos impostos!” Ao fim de dez minutos, verificou, contente, que tinha cinquenta gostos, vários comentários concordantes e vinte partilhas. Uma onda de prazer percorreu-lhe o corpo, sentimento inequívoco de dever cumprido. Encontrou depois uma publicação sobre os mercados de venda de animais para consumo na China, com espécies pouco ortodoxas para os padrões ocidentais. Nova partilha com a legenda: “Boicote aos produtos e lojas dos chineses! Raça que não acaba, querem dominar o mundo com esta doença! Abram os olhos!” Novo coro de aprovação e aclamação. Por acaso, só por acaso, as notícias eram verdadeiras. António tinha descoberto que a verdade, nas redes sociais, é sobrevalorizada. Preferia acreditar numa mentira que lhe agradasse do que numa verdade que lhe fosse amarga. “A generalidade das pessoas é assim”, refletia, “basta ver como é no futebol, nunca parece haver falta se o penalti é contra a nossa equipa.” Por isso, mesmo sabendo que se tratava de uma aldrabice pegada, partilhava as maiores infâmias sobre os políticos canhotos, sobre ativistas, jornalistas ou aquele que fosse o inimigo do dia.

A seguir era a hora dos programas de rádio que realmente interessavam. As antenas abertas e fóruns públicos. “As pessoas estão fartas de ouvir falar os doutores e engenheiros, quase todos da extrema esquerda. É preciso dar a voz aos portugueses autênticos.” Felizmente, inconsciente da ironia por assim pensar, ele que sempre fora um defensor da limitação da liberdade de expressão de que a organização de seu pai fora expoente máximo, lá marcou os números para participar nos dois programas mais populares. Raramente era escolhido para participar, mas tentava todos os dias. Não falasse ele e falaria outro António. As pessoas iam perdendo o medo de chamar bois aos bois. Os temas variavam, mas a António isso era indiferente. Tinha um guião fixo que apenas necessitava da introdução, essa sim dependia do tema. O pretexto podia ser futebol, educação, racismo, saúde, trabalho, pesca, drogas, Europa, o que fosse. António acabaria por falar do 25 de Abril, do fracasso da democracia, da dissolução dos costumes, da insegurança, das minorias que sugavam o estado social, do marxismo cultural, da ideologia de género e da corrupção. Quando acontecia entrar em direto, ficava num estado de excitação anormal que só acalmava muitas horas mais tarde. Sentia até, apenas nesses momentos, um volume a que já não estava habituado a crescer-lhe nas calças. 

Depois do meio-dia, ouvia a conferência de imprensa com os últimos dados. Tentava ler nas expressões dos ministros e delegados de saúde que tipo de novidades vinham relatar. Desejava, secretamente, que aumentasse o número de infetados e mortos. Quanto maiores os números, mais sucesso obtinham as suas publicações. Quanto mais medo, mais fechados ficavam todos. Refletia: “As mais definitivas das prisões têm sempre o trinco do lado de dentro. Ninguém é aprisionado tão irremediavelmente como quem o faz de livre vontade”. Pegava nos gráficos e indignava-se no mundo virtual: “Enquanto não tirarem às pessoas a liberdade de andarem pela rua, isto não vai ter fim!” Se não era suficiente o medo para levar ao isolamento, António pensava que devia ser o Estado, pela força. Se os números calhavam a baixar, era a sorte, a chuva, era a responsabilidade de alguns cidadãos. Se subiam… bem, se subiam a culpa era dos deputados de esquerda, viciados na peçonhenta liberdade. 

A seguir ao almoço, alguns dos vizinhos vinham à rua. Uns passeavam os cães, que ajudavam a morder a solidão, outros davam pequenos “passeios higiénicos” separados por muitos metros e sem ajuntamentos. António a todos interpelava, cuspindo-se de raiva, do alto da sua janela. “Cambada de irresponsáveis! Haviam de ser presos!” 

De regresso às redes, via que alguém tinha publicado críticas à classe política e dirigente por não ter aplicado medidas restritivas mais cedo, as chamadas "sopas depois de almoço". Não era nenhum especialista, era um antigo colega de trabalho no escritório de contabilidade. Para António era um calhau com olhos, ainda por cima de esquerda, mas desta vez estavam de acordo por isso deixou um "gosto" e o seu costumeiro chiste: “No tempo do Salazar, os políticos eram homens sérios! Agora temos a extrema-esquerda no poder…” 

Ah, eram dias felizes para António. Ainda mais quando o Presidente da República e o Primeiro-Ministro anunciaram, por fim, o endurecer das medidas de contenção. Quem circulasse na rua tinha sempre de ter um documento que o justificasse. Quem não cumprisse, levava multas pesadas e penas de cadeia. Faltou apenas a "delação premiada" para que António ficasse plenamente satisfeito. As ruas, já de si desertas, ficaram ainda mais vazias. As pessoas que cantavam às janelas desanimavam com o prolongar do cerco, recolheram-se ainda mais como se a simples visão das ruas, agora vedadas, lhes provocasse uma angústia insuperável, uma saudade da antiga rotina que antes lhes parecia desinteressante. 

Certo dia, ao executar o seu demorado ritual antes de dormir, apercebeu-se que se estava a acabar a pomada Viks VapoRub. António tinha lido algures nas redes sociais que era um medicamento muito eficaz para prevenir e combater o vírus. Naturalmente, só não era mais divulgado porque a indústria farmacêutica não tinha interesse em que se soubesse. As redes sociais pululavam de páginas “pela verdade” que desmascaravam conspirações de dimensões globais: a rede 5G que controlava o cérebro da população, a vacina para a enfermidade que iria implantar um chip para transmitir dados biométricos às grandes corporações, os “Chemtrails” espalhados pelos aviões que disseminavam químicos pela atmosfera para tornar a população mais dócil e não questionar os seus líderes reptilianos vindos de outro planeta. Havia teorias para o menino e para a menina, era à escolha. Sempre que alguém um pouco mais iluminado chamava a atenção para o absurdo por detrás dessas ideias, os seus seguidores, mandavam-no, invariavelmente, de volta para o rebanho. De maneira que, na manhã seguinte, preparou-se com luvas, máscara e uma garrafa de álcool no bolso e saiu de casa em direção à farmácia com o fito de comprar alguns frascos. 

Ia, feliz por não ter encontrado vivalma no trajeto, quando foi abordado por uma patrulha da polícia. Dir-se-ia que os dois homens estavam cansados da situação, enervados por estarem sempre separados das famílias e expostos aos maiores riscos. Só isso explica que se tenham dirigido a António, que tinha idade para quase ser seu avô com modos tão rudes: “Olha-me este! Que é que andas a fazer na rua, ó velho? Mostra lá a tua justificação.” António empalideceu, não tinha justificação. Começou a explicar que ia comprar o Viks, que era um método infalível para evitar a doença. Os agentes começaram a rir, nem disfarçavam o que achavam de António. “Está bem ó avozinho, diga lá onde mora que vamos levá-lo.” António resistiu, indignou-se, procurou no telemóvel o artigo para mostrar aos agentes. Estes riram ainda mais. Chamou-lhes nomes, desrespeitou a farda e trinta por uma linha, até que um deles perdeu a paciência, atirou-o ao chão com uma facilidade que António não antevira e o algemou. Colocaram-no no carro à força e levaram-no para casa. 

À chegada, uma receção surpreendente. Os vizinhos, todos à varanda. Nas janelas, caras surpreendidas com o que se via: António saía do carro patrulha algemado e com a ajuda dos polícias. Foi libertado, mas os seus carcereiros esperavam que ele se encaminhasse para a porta do prédio. Os vizinhos começaram então, como que num coro ensaiado, a devolver a António, de uma vez, todos os impropérios que foram guardando durante a quarentena, numa enxurrada de raiva artificial, com muito riso contido, que fez o quarteirão estremecer. Entrou no prédio de cabeça baixa e só saiu para receber a primeira dose da vacina. 

Nunca mais vi nada publicado por ele nas redes sociais desde essa altura, mas ainda o vejo todo o dia à marquise, vigilante. Quis-me vender o computador, estimado como estava e sendo bom o preço, aceitei. Disse-me que já não lhe dava uso. Foi um bom negócio para os dois. Quando o liguei pela primeira vez, fui ver o histórico de navegação. A última página que visitou foi a de um jornal que investiga e denuncia notícias falsas, dizia que era mentira que o Viks prevenisse ou curasse o vírus.