Monday, March 05, 2018

Sísifo


Recomeça....

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...


Miguel Torga

Friday, February 23, 2018

Chico Luso


Quem se achasse perdido no tempo, sem saber que dia do mês era e não encontrasse um calendário, podia entabular conversa com o Chico Luso. O seu nível de alcoolemia, para quem conhecesse bem os seus hábitos, chegava para determinar se estávamos no princípio, no meio ou no fim do mês.

Chico não trabalhava, mas tinha alguns rendimentos. O rendimento social de inserção, os subsídios de refeição e de transporte que ganhava por andar num curso de operador agrícola e alguma esmola, normalmente em género, dada pelas suas idosas e piedosas vizinhas.

Fora o pouco que comia, fugaz como um passarinho, tudo era dissipado em bebida. Nos poucos dias após receber, em vinho de garrafa de origem denominada e em copos de macieira aos balcões dos cafés da vila em que ainda tinha autorização para entrar. Mais tarde, em garrafões de cinco litros do vinho mais barato que o supermercado vendesse. Já no fim do mês, e ainda antes de receber novo pagamento do estado, em pacotes de litro de vinho que dizia em letras pequenas: “mistura de vinhos de vários países da União Europeia”, [o vinho do Chico Luso a concretizar as promessas de unidade europeia com mais eficácia que os governos do Velho Continente]. Quando todo o dinheiro terminava, sacava constantemente de dentro da mochila de garrafas de litro e meio cheias de água com sumo de limão que bebia apenas com uma sombra da luxúria com que tragava o vinho de há meia dúzia de dias.

Fazia-se transportar de bicicleta. Recebia, é claro, dinheiro para transportes públicos, mas descobriu que os dezassete quilómetros duas vezes por dia podiam ser feitos a pedalar com relativa facilidade e, ainda que em algumas ocasiões ostentasse na face marcas de contacto repentino com o asfalto, a bebida que esse dinheiro podia comprar era bálsamo mais que suficiente para essas e outras dores.

Entre os dias em que bebia vinho e os dias em que bebia água aromatizada com limão, havia uma constante: o repetir de histórias sobre a sua vida. Havia sempre, contudo, algumas diferenças no tom, ora eufórico, ora deprimido consoante o líquido que lhe servisse de combustível. Contava-nos histórias, mas não esperava a nossa atenção. Chegámos a vê-lo sozinho a dar à manivela desse fantástico mecanismo de rememoração. Parecia que era ele próprio o destinatário daquelas narrativas. Articulava as palavras de maneira incoerente, demasiado mastigada, aos solavancos como se estivesse numa montanha russa. Cuspia por vezes as palavras, desdenhoso de si próprio. Umas vezes amaldiçoava-se e outras chorava, emocionando-se com algum pormenor.

Tinha muita dificuldade em seguir o fio dessas narrativas, mas, pela repetição, apercebi-me que o tema era sempre o mesmo. Histórias sobre oportunidades perdidas, inúmeras, um mar delas. As circunstâncias sempre contra ele, vítima de invejas e infortúnios. Era como aqueles filmes de Hollywood com muitas sequelas a imitarem o enredo do original, mas cada vez com menos fôlego e capacidade de surpreender, como réplicas de um terramoto. Cada vez que começava, já sabíamos de que forma terminava: “…e hoje podia ter uma vida boa em vez de andar aqui a penar.” E a seguir o silêncio, contemplativo, fitava um ponto no infinito e era assim que sabíamos que a história terminara. Não havia um descer da cortina, mas era como se houvesse.

Contudo, nem todas as atuações de Chico Luso pendiam para o dramatismo. Certas vezes, numa operação a que tive que assistir para acreditar, trazia na bicicleta, para além da já costumeira mochila carregada de bebida, a caixa de uma guitarra acústica. Nos dias em que bebia mais que a conta, ocasião bastante corriqueira, era um prodígio de equilibrismo a forma como conseguia montar-se na bicicleta e fazer em segurança os dezassete quilómetros até casa por entre curvas, subidas e descidas. Mais admirável era vê-lo com o contrapeso de uma guitarra às costas. Diria que era antes uma ruína de uma guitarra. Com três cordas colocadas ao acaso, afinadas segundo o critério de Chico Luso, serviam para este cantar baladas, fados e música tradicional. Acompanhava-se de uma gaita de beiços. Parecia, quando desviávamos o olhar, que conseguia a proeza de cantar, tocar gaita e guitarra ao mesmo tempo em total desarmonia.

Um dia, quis saber para onde ia Chico Luso quando se retirava. Havia quem dissesse que dali ia para casa. Outros juravam que, em certas ocasiões, já perdido de bêbado, dormia mesmo na vila em cima de um banco ao pé do tribunal. Também bastante popular era a tese de que ainda ia correr alguns dos cafés da vila na esperança de encontrar quem lhe pagasse algum copo ou partilhasse com ele da sua solidão. Segui-o a alguma distância, instruído pelos livros de espionagem que li na adolescência. Não que Chico Luso se apercebesse de que era seguido, ele mal dava conta das pedras da calçada debaixo dos seus pés ou dos carros que abrandavam a velocidade ao vê-lo ao longe. Andava numa passada mais rápida do que aquela com que estava a contar e, em algumas subidas, tive mesmo de me esforçar para o conseguir acompanhar. Chegámos ao fim da vila, à zona onde corria o Mira. Chico desceu até à margem e foi caminhando rio abaixo. Hesitei entre continuar a segui-lo ou desistir. Sem pensar muito no assunto, quando dei por mim estava também já junto ao rio. Caminhámos alguns minutos, o tempo suficiente para estarmos a uma boa distância da última casa da vila. A minha curiosidade adensava-se a cada passo. Então parou. Olhou em volta, mas não me viu. Por instinto, escondi-me atrás de um salgueiro como que antecipando o movimento. Achando-se sozinho, ajoelhou-se. Inspirou e soltou um grito que se não lhe vinha da alma, pelo menos saía-lhe das entranhas. Um grito que parecia rasgar o espaço, um grito sobrenatural cheio de dor e angústia em contraste com a calma da natureza em volta. Não sei dizer quanto tempo demorou o grito. Quando se calou, vomitou e, aninhando-se como um pequeno animal, adormeceu.

Thursday, February 08, 2018

Santos da Casa


Ao Domingo de manhã, enquanto muitos frequentam a missa, era figura certa na curva da igreja, frente às casas de banho públicas. Era dos mais idosos na freguesia mas estava bem conservado graças a uma vida salvaguardada dos trabalhos duros do campo. Enquanto que os poucos que restavam da sua idade, entre lamentos das doenças que os afetavam, recordavam as jornadas de sol a sol nas searas debaixo de um sol tórrido, as mondas que lhes vergavam as costas ou as carvoarias que lhes enchiam os pulmões de fuligem, Santos podia olhar para trás e recordar uma vida de privilégio e prestígio ao balcão da farmácia. Agora reformado, a idade era já muito avançada mesmo para um trabalho ligeiro, recordava a autoridade com que, detrás do balcão e em cima do estrado recomendava algum medicamento. Mais importante que o Santos da Farmácia, só o Dr. Capoulas. É que apesar de muito poderem os donos das terras que decidiam se uma família tinha ou não trabalho, o Santos e o Dr. Capoulas podiam salvar vidas. Talvez tivesse até vaidade nisso, até mais do que no dinheiro que fora amealhando ao longo da carreira. Conseguira fazer uma casa na aldeia, uma das maiores e mais bonitas, e tinha carro, objeto inacessível à grande maioria dos habitantes de Santiago. Era o carro o símbolo maior da riqueza e prestígio de Santos. As casas são investimentos que ficam para o futuro e para os filhos, sabe o povo. E sabe também que os carros são o contrário. Por isso, era quase que para recordar aos seus pares e a si próprio que pertencia à categoria dos homens que têm sucesso na vida, que Santos cumpria o ritual domingueiro de lavar o seu Datsun 240Z branco, restituindo-lhe semanalmente a alvura que, antes, ostentava na sua bata de farmacêutico. Depois, sentava-se ao volante, vagarosamente dava à chave e, após ouvir dois ou três roncos do motor, arrancava e dava uma volta triunfal de cerca de meia hora por Santiago.

Quando eu era novo, já Santos era velho. Conheci-o já reformado com a farmácia já fechada mas com esse sufixo sempre colado ao nome: "Santos da Farmácia". A minha mãe contava-me histórias da sua meninice e uma delas envolvia-o. Tinha o meu avô um cão que era um prodígio de inteligência - o Maroto. Tão inteligente que fez despontar na minha mãe um amor pelos animais que ainda hoje se mantém. Santos da Farmácia era caçador e, ao saber das qualidades do cão, quis comprá-lo. O meu avô aceitou 500 escudos pelo Maroto mas o próprio não aceitou bem a mudança. Sempre que conseguia, escapulia-se e ia ter com a minha mãe e o meu avô ao monte da Masmorra. Só quando lhe explicaram que o Santos era o novo dono, Maroto se conformou. Com o dinheiro da venda e para atenuar a culpa própria e o desgosto da minha mãe, o meu avô comprou uma pulseira ou um fio de ouro à filha. Esta história contribuiu para que Santos fosse, para mim, uma mistura de idoso respeitável e vilão de um filme da Disney. Era daquelas pessoas a quem era incentivado a cumprimentar formalmente "Bom dia, Sr. Santos" ou "Como tem passado, Sr. Santos?".

Um dia, alguém se queixou no posto da guarda da volta triunfal domingueira de Santos. Já não via muito bem, os reflexos não eram grande coisa e, por pouco, atropelava alguém. Não sei se houve mais queixas mas quero acreditar que houve até que o cabo Maximino foi falar com o idoso. Pediu-lhe primeiro que não conduzisse mais, depois desse pedido ignorado, proibiu-o, mais tarde tirou-lhe a carta. Já não tinha idade nem capacidade para conduzir. Santos continuou a lavar o carro ao domingo mas nunca mais o conduziu. Aconteceu então um fenómeno estranho: Santos que até então parecia ter interrompido o envelhecimento, parecia agora envelhecer um ano todas as semanas. A cada domingo sentia mais dificuldade em lavar o carro, cada vez demorava mais tempo e com movimentos mais e mais lentos. A pouco e pouco, até o carro, outrora sempre de um branco brilhante, parecia corroído e a acusar a passagem do tempo. A chama que faiscava nos olhos de Santos foi-se apagando aos poucos até que morreu. As pessoas diziam que morreu de desgosto por não ser autorizado a conduzir. Talvez tenha sido isso, digo eu, ou talvez porque em Santiago muitos tinham já carro e o seu Datsun 240Z era tão-só uma velharia bem estimada.

Wednesday, January 10, 2018

Nomes de Santiago

Conheces o nome que te deram, mas não conheces o nome que tens.
De um livro imaginário de evidências, retirou Saramago esta frase e a colocou em epígrafe do romance Todos os Nomes.

Em Santiago, tudo tem dois nomes. As pessoas, as ruas, os lugares, os cafés, as mercearias e a junção destes dois últimos, as vendas, tudo foi duas vezes batizado. Uma vez, pelos seus proprietários ou pais e regedores, o que vai dar ao mesmo. Esse batismo é fácil, deixa um rasto de papel, de registos e assentos de nascimento assinados, quando quem o faz sabe ler e escrever, ou apenas com uma cruz ou impressão digital no caso daqueles que passaram as primeiras infâncias atrás de uma vara de porcos.

O segundo batismo é mais nebuloso e nem sempre, por mais que inquiramos, conseguimos descobrir a sua origem. Por vezes é um mistério que interessa a poucos mas que a mim sempre me atiçou a curiosidade. São os pares quem encontra esse nome que, quase sempre substitui o oficial e que, qual código tácito, contribui para a construção de um sentimento de comunidade. Quem vem de fora não conheces estes nomes e, por mais anos que viva em Santiago, será sempre um forasteiro enquanto não os dominar.

A rua da casa dos meus avós paternos é a Rua Dr. Miguel Bombarda mas em Santiago é a Rua do Pomarinho. A Rua Dr. Afonso Costa nunca teve esse nome para mim, a não ser agora que andei pelo Google Street View a descobrir esses nomes ocultos, era a Rua dos Rapazes. A rua onde era o mercado é ainda a Rua Tenente Abreu mas, para todos os que conheci na infância, menos os carteiros, é a Rua das Pites. De dois terços destes nomes, até consigo perceber a origem. Mesmo no centro da Rua do Pomarinho, há um monte com esse nome. Na Rua dos Rapazes, existiu uma venda que, apesar de ter outro nome, era conhecida como “os rapazes”. Estes “rapazes” já os conheci perto dos sessenta anos. Mas a Rua das Pites já tem uma origem para mim desconhecida. Aqui me confesso, nem sei o que será uma pite.

O mesmo acontecia com os estabelecimentos. Embora os proprietários dessem voltas mais ou menos menores para encontrar um nome para as mercearias e cafés, normalmente, o nome do proprietário ou alcunha tinha mais força. Foi assim com o Cancela, com o Tónica, o Zorro e continua a ser com o Marreca, o Daurindo e o Lavado. Quase tudo estabelecimentos cujo nome original remete para a orografia da região.
Mas o fenómeno mais curioso, aquele que realmente me interessa, é o das alcunhas. A mecânica que leva a que um homem, e muitas vezes toda a sua prole, passe a ficar conhecido por um nome oferecido por esta entidade coletiva que se chama Santiago. Há para todos os gostos e explicações. Alcunhas que nascem do local de origem das pessoas, de algum episódio caricato que com ele se passou ou com um antepassado demasiado longínquo para ser nomeado, da profissão do avô, bisavô ou triacontavô e algumas de pai e mãe incógnitos.

Muitas destas alcunhas, não sei há que tempo, passaram a ser legitimadas e a constar nos documentos das pessoas. Nomes tão ligados à família que substituíram o apelido. Eu que sou Masmorra Rabino, uma aliteração tão poderosa, a isso o devo. Masmorra era o nome do monte onde morava a família do meu avô materno e passou também a apelido. Rabino é nome demasiado bizarro para se dever a antepassados judeus, ainda para mais num país com um passado de perseguição tão grande ao povo de Moisés. O mais certo é ter havido uma transformação de adjetivo em nome próprio.

Rabino
Adjetivo
1      1. Velhaco; travesso.
2          2. Rabugento.
3          3. Teimoso e desinquieto.

Mas que não pareça que me queixo das alcunhas que se oficializaram em nomes. Gosto dos nomes, não os considero impróprios. Mais personalizados que Santos ou Silvas. E reconheço algumas destas características em alguns Rabinos e em mim mesmo.

E não me queixo até porque em Santiago há nomes ainda mais bizarros. Nomes que designam famílias inteiras e que não estão no Bilhete de Identidade. Nomes que, se calhar, não estão escritos em lugar nenhum mas que ouvimos todos os dias. Pois que fiquem aqui alguns:

Arcadinho, Barreirense, Besunta, Bicho-do-amor, Bóia, Cadicha, Cagaita, Cancela, Cara Cagada, Cerôla, Droga, Égua, Fezes (tenho um tio Fezes), Lapeira, Marreca, Pá da Ova, Palafofa, Pouca-Roupa, Pé-Cagado, Piço, Poila, Remexido, Tamente…

Assim, o mais humildemente que posso, sugiro a Saramago uma correção:

Conheces os nomes que te deram, mas não conheces o nome que tens.

Friday, January 05, 2018

Barba e Cabelo

Quando, vestidos de igual, com fatos de treino e ténis comprados na mesma loja com um número de diferença, eu e o meu irmão parecíamos dois meninos selvagens por força do cabelo desgrenhado, a minha mãe decidia que era altura de ir ao Ciladas. Ciladas, Francisco, era o barbeiro da vila. Quando ainda éramos muito pequenos, acompanhava-nos o meu avô materno, a barbearia não era lugar para mulheres, quase tão proibido como os cafés ou talvez mais ainda. Mais tarde, íamos os dois e quando nos fartámos de ser aquela entidade semi-singular, os gaiatos do Daurindo, começámos a ir sozinhos.
A barbearia era um lugar simples. Não havia nada com que uma criança que esperava a sua vez enquanto um homem era barbeado pudesse entreter os olhos, nenhuma televisão, nada de jornais ou revistas. Nas paredes, apenas um calendário da Fidelidade que mostrava dois perdigueiros com perdizes na boca e um reclame à mesma companhia da qual Francisco era também mediador de seguros.

Restava-me a conversa. Não participar dela, mas escutá-la. Na sala, nunca cheguei a encontrar Ciladas sozinho. Presença constante era o seu cão. Minúsculo, inteligente, respondia pelo nome Jú e era costume ter longos diálogos com o dono a que respondia com expressões sabedoras. Francisco era um homem já nos sessenta anos, da idade dos meus avós. Na minha memória, tinha uma barriga enorme e usava umas calças subidas até meio desse ventre desmesurado. Usava um bigode fino e uns óculos grossos de massa. Companhia comum, era também o irmão de Francisco, o José. Quando isto acontecia, era certo que a conversa havia de ser sobre caça, a paixão que unia os irmãos. José começava, melancólico, a lembrar caçadas passadas, a recordar histórias que os deixavam a ambos a rir e acabava num lamento por "eles", os políticos, estarem a acabar com a caça. "Antes é que era caçar, hoje já não é nada". Eu, calado, tinha que acreditar naquilo. Muitas coisas de que falavam, fora a caça, acabavam neste queixume: "isso é que eram tempos, isto hoje é uma vergonha". E, para mim, era a verdade. Pensava que tinha azar por viver no meu tempo e não no tempo "deles". Depois começavam a falar da saúde, do médico que os proibia de beber vinho, de comer carnes gordas e acreditava que tinha azar também, como eles. Tudo o que era pretérito era perfeito naquelas conversas.

Tinha eu já sobre o lábio uma sombra que adivinhava um bigode e o passeio ao passado começou a incidir sobre outras aventuras e percebi que afinal não era só a caça que lhes acendia uma luz interior. Francisco recordava a caçada que lhe conseguiu a peça de caça de que mais se orgulhava, a sua esposa. Quando ao domingo, os víamos de braço dado a passear na vila ou numa visita ao mercado da Rua das Pites, sobressaía a diferença de alturas. Francisco era pouco mais de um palmo mais baixo que Rita. Rita era, na vila, conhecida por Rita do Ciladas como muitas mulheres ainda hoje são conhecidas pelo nome próprio seguido da preposição de posse e do nome do proprietário, o marido ou o pai. Mas tinha conhecido na barbearia o seu nome secreto, usado lá em casa: Galga, ou, como dizia Ciladas, "a minha Galga".

Calculo que cortava o cabelo três a quatro vezes por ano e devia também ser essa a frequência com que ouvia a história. Francisco cortejava Rita que o recusava, achava-o baixo para ela e por isso não lhe agradava. De recusa em recusa, a determinação de Francisco ia crescendo até que um dia, cheio de coragem e movido pela sensualidade, encostou Rita a uma figueira e lhe mostrou que, quase na horizontal, a altura não fazia diferença. Quando Francisco acabava a história, ríamos todos com gosto.

Acontecia que Francisco tinha uma neta da minha idade, até andava comigo à escola na turma do professor Albino. Coincidia que a neta dele era quase dois palmos mais alta que eu e, depois de rirmos da história, Francisco parava de cortar o cabelo ou fazer a barba a quem quer que fosse, mirava-me por cima dos óculos e dizia-me: "E tu também podes fazer o mesmo à minha neta, lá por ela ser mais alta não tens que ter medo." E riam outra vez todos com gosto, menos eu que só me ria, sem gosto nem desgosto.

Percebi então que na barbearia do Ciladas havia uma espécie de ritual que se cumpria com quase todos os clientes. Podia-se falar de atualidades, futebol, caça e política ou até sobre o tempo mas antes tinha que se recordar uma história ou conversa. A mim, calhou-me em sorte a história do Francisco e da sua Galga porque a neta era também mais alta que eu. A seguir perguntava-me sempre se era do Sporting ou do Benfica. E depois podíamos falar sobre futebol, ou sobre pesca, ou sobre a escola. Mas tive a sorte de ir muitas vezes cortar o cabelo no mesmo dia que o Oli. Oli foi o primeiro homem que conheci que era capaz de responder à tradicional pergunta sobre se era do Sporting ou do Benfica com "de nenhum", era do Porto. Mas a minha sorte nada tinha a ver com a cor de que mais gostava. É que a história com que Oli cumpria o ritual costumeiro nos deixava sempre à beira das lágrimas de tanto rir. Podia aqui tentar escrevê-la como era contada mas perder-se-ia a teatralidade que o Oli colocava ao serviço da história, as suas expressões e notas de rodapé, por isso deixo só um resumo tosco. O primo de Oli, o Domingos era já adolescente e não tinha ainda um pêlo púbico, facto que lhe causava grande angústia pelos comentários que os amigos com quem ia às barragens nadar lhe atiravam. Decidido a evitar que a vexação se prolongasse, um dia, à hora de fecho da barbearia, pediu autorização a Ciladas, que varria o resultado de um dia de cabelos cortados do chão, e encheu os bolsos de pêlos. No dia seguinte, Domingos e os amigos tinham já combinado ir nadar para um tanque de rega e foi com incredulidade que os seus companheiros viram que, onde antes Domingos era pelado, estava agora uma farta cabeleira. Oli aqui dizia: "Ó Domingos, isto não pode ser. Mas tu ontem não tinhas nem um..." Assim que Domingos entrava na água, a cola que mantinha tudo agrupado deixava de fazer efeito e a cabeleira ficava a flutuar para gargalhada de todos.

Durante anos, praticamente até a barbearia fechar, não entrei sequer noutro local para cortar o cabelo. Mesmo que o Ciladas, tinha eu talvez quatro anos, me tenha dado uma tesourada numa orelha, nem isso foi motivo para ir a outro lado.

O Ciladas já morreu há muitos anos e a sua barbearia já fechou. Mas, sempre que é dia de ir ao barbeiro, a barbearia e o Ciladas vive de novo, por instantes, na minha saudade.


Tuesday, December 12, 2017

Há momentos na nossa vida que nos tomam de assalto, tatuam a nossa memória. Não sei que mecanismos usam mas encontram um lugar que já lhes parecia destinado e ali encaixam como peças de um puzzle. Viajar é procurar essas peças, viver é construir um mapa de sentidos.
Em Bruges, no meio de um nevão e ansioso pelo conforto possível de uma estação de comboios, entro desprevenido num convento de freiras beneditinas. Um deserto branco de gente e fico esmagado pelo peso da visão que fez esquecer o frio e a urgência. A foto não é minha, não tive a presença de espírito de agir nessa altura, mas trago-a comigo para o dia em que encontre as palavras para pintar o cenário incomum e de tranquilidade que ali encontrei.

Monday, November 20, 2017

Três Pulos


Olhando para fora da sala, Mauro entra no seu mundo interior. Não é necessária uma janela para esta fuga. Pode sair enquanto olha perdido para o quadro preto e para o professor que sobre o estrado fala de história ou de contas de multiplicar. Acontece, às vezes, Mauro sumir-se fixando o crucifixo que contempla, de cima para baixo, os alunos do professor Albino.

Ninguém sabe onde está o Mauro. Em boa verdade, nem ele sabe onde o leva a viagem. Lembra um sonâmbulo, caminhando vendo e não vendo a estrada que separa o Monte dos Três Pulos da vila do Escoural. Mochila às costas, fato de treino vestido e um olhar indecifrável. Às vezes nem se apercebe que já passou o cemitério ou o pavilhão da cooperativa. Nem mesmo nota que o chão que tem debaixo dos pés deixou de ser de terra batida, alcatroado ou empedrado.

Quando chega à escola vem ainda envolto em sonhos. Não há transporte desde o monte à vila. No Inverno encolhe o seu pequeno corpo debaixo de um guarda-chuva enorme. No Verão uma boina vem, como coroa, sobre os seus cabelos ralos e louros. Mauro é um ser estranho para os colegas. Um rapaz de aspeto frágil, esbranquiçado e enfermiço num local de moços robustos e trigueiros.

 Os seus olhos claros parecem gastos e criam estranheza por os encontrarmos num gaiato de sete anos. São os olhos que esperaríamos encontrar num idoso que viu muita coisa e chorou muitas dores. Mas a verdade é que, quando o vemos parado a olhar, só podemos especular sobre o que vê realmente.

Calculo que o seu imaginário seja parecido com o meu, tirando o facto de eu saber que o monte onde mora o Mauro não tem televisão. Por isso sei que ele não sabe quem é o Tom Sawyer, o Bocas, o MacGyver ou o Tintin. Ele também não tem grande desembaraço a ler por isso antevejo que não conheça os livros de quadradinhos da Disney traduzidos para português do Brasil. O que tenho em comum com ele, de certeza, é a proximidade dos avós e as histórias que nos contam. Deduzo isso quase trinta anos depois enquanto vou lembrando e contado. Mauro usava muitas vezes palavras que o resto dos gaiatos daquela idade já só ouvia aos avós: “ontiágora” que queria dizer “há pouco tempo”, “bucha” que queria dizer “lanche”, “pucro” que queria dizer “caneca” e outras expressões que compreendíamos, mas não reproduzíamos.

Brincávamos muitas vezes e, no recreio, o Mauro nunca era o Mauro, o seu nome era “Três Pulos”, o nome do monte onde morava. “Quem vai à baliza?” era a pergunta que iniciava qualquer desafio de futebol. “O Três Pulos” era a resposta pronta que eu ou outro gaiato tinha. E ele lá ia, sem reclamar, sem mostrar contentamento ou nervosismo para o posto. Quando calhava alguém a querer ir à baliza, Mauro já não jogava. Sentava-se encostado à parede a apanhar sol, com uma mão em pala sobre os olhos, conformado.

Acontecia muitas vezes ao Mauro urinar-se. Muitas vezes, mesmo. É normal porque ele não estava lá para sentir a urgência de ir aliviar-se à casa de banho. Parecia perplexo quando a minha mãe, a auxiliar lhe ralhava e o fazia regressar desse seu sítio. Invejava-o às vezes, mesmo quando sentia o cheiro ácido a urina com que ficava o resto do dia quando se descuidava de manhã. Invejava-o porque o sítio para onde ele saía devia ser realmente fantástico para nele se demorar tanto e parecer tão pouco interessado nas coisas deste mundo.

Nunca mais vi o Mauro nem nunca mais ouvi falar dele. É normal, provavelmente saiu em definitivo para lá.