Tuesday, December 04, 2018

Máquina Desafinada


Tinha um aspeto estranho à primeira vista. Considero-o agora concedendo que, na altura, pela inocência infantil e pela frequência com que o avistava, não tenha achado fora do normal. O lábio inferior estava em falta dando a sensação de que se recolhia por alguma razão. Vestia quase sempre uma pelica de pele de ovelha preta a que, na aldeia, chamávamos samarra e uma boina. Parecia omnipresente. Era uma figura familiar mas não tinha sítio certo para o encontrarmos. Calhou muitas vezes saltar-nos ao caminho na rua do cemitério quando acompanhávamos o meu avô até à Masmorra para regar a horta mas também junto ao cruzamento da Santa. Outras vezes, estava sentado num dos bancos vermelhos do Largo da Fonte, ao sol.

Recebia-nos sempre com uma festa. Eu e o meu irmão andávamos sempre munidos de um pequeno cantil de plástico a imitar uma cabaça, uma recordação que alguém trouxe de Fátima, um vermelho e outro azul para não nos enganarmos, e era por aí que se metia connosco. Pedia uma gotinha de água do nosso cantil e ria-se muito quando lhe respondíamos que havia muita na fonte.

Não me lembro do nome dele nem de alguma alcunha. Não me lembro se tinha família ou descendência. Lembro-me de poucas coisas dessa altura e, desconfio, muitas são memórias artificiais transplantadas para o meu subconsciente pelas histórias que os meus pais e avós me foram contando quando era mais velho. Muitas vezes, até misturo memórias reais com essas sem me aperceber e até memórias de coisas que aconteceram, não comigo, mas com o meu irmão. Porque a memória é um mecanismo estranho. É máquina que não conhece o dono. Caprichosa, pode, em determinado dia, ser capaz de nos levar aos primórdios da nossa existência para, logo de seguida, nos desiludir e não nos trazer a combinação do cartão de débito. Embaraça-nos quando o professor nos chama ao quadro para ditar a tabuada e depois consegue o milagre estúpido de preservar o número de telefone desusado há décadas da casa dos nossos pais. Escreve na pedra a matrícula de um carro que os nossos pais tinham quando mal sabíamos ler e escrever e falha na simples missão de armazenar o nome de um conhecido.

Reflito sobre isso agora porque, fora o que contei, pouco mais posso lembrar deste homem. Oculta-se-me o local da aldeia onde morava, a sua ocupação, o nome dos filhos e se os tinha, de que conversava com o meu avô. Tudo isso é poeira para mim. Mas lembro algo que fazia sempre parte destes encontros. Uma cantiguinha obscena que, na altura, nos divertia a todos, aos velhos, sabedores e velhacos, pela letra, e aos gaiatos, inocentes, pela melodia alegre. E ia assim a cantiga: “As mulheres têm dois buracos, pum! Os homens só têm um, pum! Eu tapo um, eu tapo um, eu tapo um…”

Monday, December 03, 2018

Feira da Aldeia



Quando as carrinhas da junta começavam a despejar as primeiras iluminações, sabíamos que as férias do verão estavam a meio. A caminho do campo da bola para as últimas futeboladas antes que o ringue de futebol de salão se convertesse por uns tempos em salão de baile ou improvisado recinto de vacadas, víamos o erguer daquelas estruturas que anunciavam o aproximar da “feira da aldeia”.

Já tínhamos todos, independentemente das origens mais abastadas ou humildes, uma muda de roupa para estrear na feira. Era um dos rituais que se cumpria anualmente há talvez muitas gerações. Ir à feira sem estrear roupa era ir envergonhado. Ainda que essa roupa ficasse cheia de pó, os sapatos novos a mudar de cor para um tom mais esbatido sob uma pátina de pó e as costuras das calças de ganga a acumularem a terra que o vento, que invariavelmente se levantava naquelas noites de final de Julho, empurrava. 

Faziam-se mealheiros para gastar nos carrinhos de choque, em bifanas a meio da noite empurradas por garrafas de canada dry, joy de maçã ou laranja ou, mais tarde, quando o buço começava a dar lugar a algo mais definitivo, por imperiais. Os tios e avós eram também chamados a contribuir com uma “notinha” para esse fim. Tinha algo para todos, a feira. As luzes a todos fascinavam, novos e velhos. Quando a noite começava a anunciar-se, depois dos longos dias de verão, a iluminação apontava o caminho para o campo da bola. As famílias chegavam juntas mas depois dividiam-se entre o bar, os carrosséis, a quermesse, as barraca das farturas e do torrão doce, a tenda dos tiros com pressão de ar, o assador de polvo, as vendas de brinquedos, a vacada e o baile.

O cheiro a frango assado (verdadeiros frangos, não os pintos que nos vendem agora) aromatizava a atmosfera debaixo da estufa que era o improvisado abrigo construído por rede e pernadas de eucalipto. Grandes alguidares de plástico continham rodelas de tomate pouco maduro, cebola e pepino à espera de serem pescadas para uma travessa de inox onde eram temperadas para guarnecer a carne juntamente com pacotes de batata frita. Voluntários agitavam-se de um lado para o outro, à volta de descomunais grelhas de carne. Outros lavavam os legumes na torneira instalada ao lado da baliza oeste do Campo de Jogos 25 de Abril. Atrás do balcão vendiam-se senhas que eram depois trocadas por comida e bebida. Em mesas e bancos corridos, que obrigavam a prodígios de contorcionismo e ocupavam todo o espaço, conversava-se, ria-se a bom rir e reencontravam-se as caras ausentes durante o resto do ano. De toda a margem sul, do Pinhal Novo à Baixa da Banheira, chegavam nesta altura os parentes que a vida levou para longe e muitos vinham também da Suíça, França ou Alemanha para rever os seus familiares e a feira da aldeia. Abraços, comoção e até choro, que isto de voltar à terra é uma coisa muito emotiva. Compreendo-o agora.

Os moços corriam o recinto da feira em bandos. Gastos num instante os mealheiros nos carrinhos de choque, vagueavam à procura de pais, avós ou tios que lhes pudessem providenciar mais uma nota de cem escudos. As noites eram mais longas durante a feira, o sono tardava a vir. As birras eram frequentes durante a feira, só não eram provocadas pelo sono mas pelo desejo de uma volta num carrossel, de uma pistola de fulminantes, um saco de soldadinhos verdes de plástico com uma redondela por baixo que os mantinha em pé ou ainda uma rede cheia de berlindes. Um par de palmadas ou, como se diz por lá, “nalgadas” bem assentes costumava ter um de dois efeitos: ou agudizar o tom da birra ou dá-la por terminada.

Era a feira também fértil na existência de outro tipo de fenómenos: as bebedeiras. Havia de todo o género e investi algum tempo na sua tipificação. Havia as habituais, os ébrios que não precisam de nenhum pretexto para beberem demais e para quem a feira era, nesse aspeto, igual a todos os outros fins de semana. Havia ainda as inesperadas. Aquelas pessoas que passavam um ano inteiro sem tocar no álcool ou, quando bebiam, era um copo solitário às refeições ou um digestivo após um almoço particularmente faustoso. As bebedeiras inesperadas eram as mais surpreendentes e nos dias seguintes eram motivo de conversa entre o povo. Havia as choronas, aquelas que terminavam num pranto. Nunca cheguei a saber exatamente por que choravam, se por desgosto se por comoção por se verem rodeados por tão bons amigos. Muito apreciado pelo povo era também a bebedeira bailarina pelo grandioso espetáculo que proporcionava durante o baile com uma dança solitária que terminava numa queda em câmara lenta. A todos os que se viam nestas circunstâncias era lançada a provocação que se dirigia, na aldeia, a quem dava mostras de ter bebido mais que a conta: “Aiê! Vai deitá-la!”.

Quase sempre ficava triste quando acabava a feira. Afinal, só voltaria a assistir a tudo isto daí a mais doze meses. Passava algumas tardes nas semanas seguintes a assistir aos trabalhos de desmontagem da feira deitado por cima do balneário. Os vendedores, no dia seguinte, faziam-se à estrada e partiam para outro lado. A quermesse e a venda de comes e bebes permaneciam mais algum tempo, o suficiente para que a explorássemos e chegássemos a encontrar alguma moeda esquecida. Mas a vida continuava e as férias de verão também continuavam mas sabíamos que já não faltava muito e, acabado o mês de Agosto, estávamos de regresso à escola e à normalidade.

Wednesday, November 07, 2018

Escória

Parece que descansa, como se o esforço de ultrapassar o Monfurado o tivesse levado à exaustão. Parece ter ficado inerte na base mas com os membros ainda semi-estendidos pela serra. Uma mão esquecida no poço da rua, num ângulo que parece desconfortável. Um pé pousado no Lagar, a seguir aos Mouzinhos. Já foi Santiago, agora é só Escoural.
Uma dupla toponímia, ora sagrada, ora profana. A primeira, a sagrada, é atribuída a outro santo, este mais recente que o peregrino: São Nuno de Santa Maria, conhecido na história como Nuno Álvares Pereira e, depois da canonização, como Santo Condestável. De acordo com o que me contaram, terá sido o fundador da vila e o responsável pelo batismo como Santiago, tendo ali vivido numa casa senhorial no Monte do Cavaleiro. Desconheço se haverá aqui rigor ou a tradicional apropriação de uma personalidade icónica que se verifica sempre com os heróis da nossa história, a serem reclamados por cidades, vilas e aldeias de norte a sul.
Desconcertou-me, quando garoto ainda, descobri que Escoural devia o seu nome à escória. Assim mesmo, no fundo, um desperdício. O que resta de um minério depois de retirarmos todo o material de valor. Aquilo que ninguém quer. Os que por cá viveram, há muitos séculos, extraíam do solo da Serra do Monfurado aquilo que de melhor oferecia. O que sobrava era atirado como material inútil encosta abaixo para o sítio onde, mais tarde, nasceria a aldeia. Será, talvez, dessa massa indesejada, desprovida de qualidades, que são feitas as nossas casas. No limite, talvez todos nós sejamos descendentes dessa escória.

Apesar de me confessar leigo em matérias de mineração, a curiosidade tem-me levado a aprender muitas coisas, descobri que apenas chegamos à escória depois de fundir o minério. Quer isto dizer que a escória é um resultado da exposição a temperaturas altíssimas, tão altas que provocam o derretimento de metais. Foi esta descoberta que me levou do desconforto ao orgulho no nome da minha terra. Mesmo que insistam em conotar negativamente a escória, ela já passou por muito e suportou tudo. Foi experimentada pelo rigor do fogo e dele nasceu. Talvez que o metal que se aproveitou em tempos esteja hoje oxidado, esquecido algures ou até totalmente destruído, mas a escória ainda cá está. Em todos nós que descendemos dela. Não sei se nos corre no sangue em quantidades microscópicas, mas quero acreditar que sim. Quero acreditar que é o segredo da resiliência dos nossos antepassados. Eram talvez feitos daquela matéria testada pelo fogo e, por isso, resistiram aos séculos, à fome, à peste, à miséria, ao colher da esperança recém-plantada, e aos desafios que se lhes apresentaram. Por isso, para mim, Escoural ressoa-me a duradouro e resistente, como as suas gentes e como a escória.

Monday, October 29, 2018

Dia de Finados

Mãos atrás das costas, inclinado para a frente, calças muito acima da cintura. A cesta da horta em cima da mesa da cozinha cheia de batatas, feijão verde, couves ou cebolas. O  boné usado de forma sóbria, num ângulo perfeito. A voz grave mas fresca como água tirada do poço do monte da Masmorra. A minha atenção, de férias e na minha cozinha, mas como se estivesse na escola. Ouvia falar de História, de reis, do Condestável, da Ínclita Geração, o Príncipe Perfeito, "A Arte de Cavalgar Toda a Sela", D. Sebastião, Sebastião de José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras, mais tarde Marquês de Pombal; Manuel Barbosa du Bocage, uma anedota. De Geografia, as capitais, uma viagem à Argentina, Carlos Gardel. Para Lima, Santiago e La Paz, de seguida, percorrendo os Andes. George Washington e Benjamin Franklin era como se os estudasse na escola, o pára-raios inventado por um dos pais da nação americana. Literatura, de novo Bocage, Elmano Sadino, mas agora mais a sério, Camões e o folclore biográfico. 
Os comboios, a sua vida toda desde que fez o exame da quarta-classe com uma botas emprestadas, as viagens pelo país e por Espanha, a bitola, as linhas ativas e desativadas. As idas com ele a Lisboa, eu meio bilhete e ele sem pagar, comboio, barco, Cais das Colunas, Terreiro do Paço, Rua Augusta, Chiado, uma ginjinha para ele, um capilé para mim que tentava absorver tudo com a mesma avidez com que me refrescava com a bebida. Pescada cozida com batatas e feijão verde ao almoço em Póvoa de Santa Iria. A Expo 98 ainda na incubadora. A viagem de regresso a jogar à sueca com os restantes reformados da CP, rabugentos e intolerantes para com as minhas juvenis renúncias.
O jornal do dia debaixo do braço, já lido e deixado, dobrado, na mesa da cozinha para eu ler. A parte lúdica, o concurso, uma moeda de 100 escudos, às vezes 200, estendida para quem acerte às três perguntas da chamada cultura geral. A sua definição "O que fica depois de se esquecer tudo o que se aprendeu." "Esqueci-me", "Esquece muito a quem não sabe". Eu a ajudar o meu irmão a acertar as perguntas dele, já com 100 escudos no bolso, "Não vale telefones..."
Anos depois, os livros dele. Depois de morto, os sobrinhos a dividirem a biblioteca. Capas bonitas para uns, o resto, os mais gastos, os mais lidos, para mim. Revistas "Vida Mundial", "Vida Soviética", Programas Eleitorais dos partidos para as primeiras eleições livres, "Testemunho" de Marcelo Caetano, livros raros e documentos que a sua inteligência proibiu de irem para o lixo. Tudo isto ficou, e do homem, fora o que escrevi, só sei o nome, Francisco Masmorra.

Monday, September 24, 2018

Operários do Sonho

Teria dez, onze anos. O meu primo tão pouco mais e o meu irmão tão pouco menos que não faz diferença nenhuma para a história que relembro. Passou-se nas férias de verão, esse período em que os dias são como grandes lagartos: longos, vagarosos e preguiçosos. Dias que pareciam não ter fim para serem repetidos uma e outra vez na eternidade daquele calor abrasador.

O quintal dos meus avós era um mundo que tínhamos já explorado de cabo a rabo. Todos os recantos desde a parte de baixo, encostada à marquise com as suas duas nespereiras, ao muro que o limitava lá em cima com telhas, tijoleiras e vigas que o meu avô lá guardava a servirem-lhe de guarda de honra. O galinheiro e as colheiras não guardavam novidade para os três. Não nos surpreendiam já os movimentos rápidos dos coelhos quando nos aproximávamos e acostumámo-nos às remelas que chagavam aqueles afetados pelo “mal dos coelhos”. A cerca onde, por vezes, estavam alguns borregos, que o meu avô criava e depois vendia porque não tinha coragem de matar, tinha tido o seu potencial para a brincadeira esgotado. Não inventávamos mais touradas com bois sonhados nem a nossa imaginação conseguia já lobrigar ali um forte de índios, um castelo ou um navio de piratas. O casão onde o meu avô guardava as ferramentas há muito que se abrira também e conhecíamos o lugar das talochas, colheres de pedreiro, pás, carrinhos de mão e toda a sorte de utensílios de que o meu avô fazia uso para ganhar o pão.

Nas horas de calor, quando os adultos se fechavam em casa após nos chamarem insistente e inutilmente, o quintal era só nosso. Sem supervisão, em liberdade total naquele mundo limitado. Corríamos por ali como pequenos selvagens com os joelhos sempre escalavrados e os calções imundos. Formávamos os três uma espécie de tribo com uma hierarquia bem definida em que os poucos meses que espaçavam os nossos nascimentos ditavam a liderança. Por isso, foi como se fosse uma ordem de um capitão que, quando o meu primo teve a ideia, nós decidimos lançarmo-nos à obra. Algo brilhante, tão brilhante que até parecia um absurdo nunca termos pensado nisso. Anunciado como se fosse tão banal como colher uma romã da romãzeira: “hoje vamos fazer uma piscina”. Mesmo assim, uma empreitada. Naquele momento, nenhum de nós ousava imaginar outro cenário para o dia seguinte que não implicasse mergulhos e braçadas no quintal dos meus avós.

No casão estava tudo o que fazia falta. Não tínhamos necessidade de projetos ou plantas. Com uma cana afiada, o nosso mestre-de-obras sulcou no chão, aquilo que seriam os limites da piscina. E, enquanto a minha avó, no fresco da casa, dormia a ver a novela, nós começámos a nossa missão. Eu com uma sacho, o meu primo com a enxada e o meu irmão com a pá, íamos lutando contra o calor, o chão duro e seco e acrescentando cada vez mais o buraco. O meu irmão ia tirando, às pazadas, a terra num esforço sincronizado e fraterno. Suados e com os membros mais e mais pesados, íamos assistindo ao evoluir do nosso trabalho. Encorajávamo-nos uns aos outros em silêncio com o foco na recompensa que era, para nós um sonho. O calor que sentíamos era refrescado com a perspetiva de um oásis no meio do quintal.

Quando chegou o meu avô, irado e impressionado em igual medida, ficou a obra embargada. Na minha memória, era uma piscina já descomunal, talvez olímpica, e tínhamos escavado a um ponto em que saímos de lá com dificuldade. Mas, o mais certo é ter sido menos que uma cova. Um fracasso total tendo em conta a ambição do projeto.


Recordando esta empresa, não é o fracasso a ideia que retenho. Tanto que, ao dar à manivela ao mecanismo da memória, revivo-a amavelmente. Pensando bem, não se perdeu nada. Até porque acredito que nadar na piscina nos trouxesse menos satisfação que aquela jornada de trabalho.

Sunday, September 16, 2018

Encruzilhadas


Na tradição popular, pejada de superstição misturada com saber feito da experiência de muitas gerações, as encruzilhadas são lugares de magia e maldição. Negoceia-se com o diabo em figura de gente e, contava o meu avô, era onde os lobisomens, que ao contrário dos de Hollywood se transformavam também em bestas, deixavam as roupas ao abandonar a forma humana.

O caminhante que vem de uma longa e árdua caminhada perde ali a certeza da direção a tomar. Mas tem que decidir. Em caso algum pode, como canta o Jorge Palma, chamar "casa a esse lugar". Ao demorar-se ali, a maldição começa a ganhar força e a dúvida destroi-o por dentro. As certezas são sobrevalorizadas, começo a descobrir. Mais vale uma convicção, até um palpite, em muitas ocasiões, é preferível. O que há a fazer é olhar, analisar, escolher e avançar. E, sobretudo, não olhar para trás. Como Ló e as suas filhas em fuga de Sodoma e Gomorra, avançando sempre e deixando atrás de si a estátua de sal da sua mulher.

Há quem argumente que nos dão a ilusão do livre arbítrio. Quem tem fé, pode convencer-se que confia em deus ou no destino. Ao resto de nós, resta crer na nossa capacidade de olhar para a realidade e projetar o futuro.

Encontramos todos encruzilhadas na nossa vida, fazem-nos crescer. Fazem parte do nosso caminho. Ficamos mais fortes, mais experientes e mais sábios de cada vez que as ultrapassamos. Passamos por elas mas é como se elas também passassem por nós. Não saímos delas iguais. Sairemos melhores se conseguirmos, sobretudo, resistir a olhar para as opções que declinámos. Se soubermos que olhar para trás só nos acrescenta azedume e é inútil. Já não estamos lá. Melhor será projetar hipotéticos novos cruzamentos onde, de novo, teremos que decidir com um palpite ou uma fezada. E a vida é feita disto. E de novo Jorge Palma, desta vez, penso eu, mais certeiro: "enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar". E parar, nunca.

Thursday, August 30, 2018

Gatilhos


Há gatilhos que, uma vez premidos, são devastadores. Podem disparar projéteis que põem fim à vida e fazem nascer dor e sofrimento. Com esses, não quero ter nada a ver.

Há outros que me interessam mais. São gatilhos que disparam memórias. São silenciosos e até involuntários. Dedos invisíveis estão sobre eles e podem manter-se lá anos a fio, imóveis e furtivos, até ao momento mais banal em que nos fazem rememorar um episódio que julgávamos esquecido e que, quando corre pelo melhor, nos enche de ternura e afeto.

Muitas vezes, quase sempre, calamo-nos. A ideia de o partilharmos, ridiculariza essa memória. Vista de outro ângulo pode até parecer grotesca. É incomunicável, íntima demais. Por isso fica connosco, como que cristalizada num pequeno bibelot piroso que ornamenta a casa da nossa recordação. Como um quadro de Cristo com luzinhas a piscar. Como a estátua de um gato a acenar infinitamente com a mão, daqueles que se veem nas lojas de chineses. Ou ainda como uma reprodução do quadro que, há décadas, era omnipresente em todas as casas portuguesas – O menino das lágrimas.

Partilhar essas memórias é o derradeiro exercício de exposição. É colocarmo-nos, voluntariamente, numa situação desconfortável, ainda mais do que aquilo que é normal quando escrevemos. E é de uma generosidade absoluta e inútil. É tão nosso que esperar compreensão é como falar outra língua com quem não a entende e esperar diálogo.

Mas, enfim, coloquemos à prova o gatilho: Comer melancia no Algarve. Vês? É como te dizia. Para ti não quer dizer nada, mas a mim, a primeira dentada na melancia fez-me assomar lágrimas aos olhos e transportou-me para Loulé há trinta anos para junto da minha avó. Vi-me de novo com ela no supermercado a escolher a fruta, a irmos para casa contentes e cansados do esforço de carregar aquela esfera descomunal. Senti de novo a alegria com que, à mesa da cozinha, a íamos fazendo desaparecer talhada após talhada e, sobretudo o calor daquele momento de comunhão.

Por isso, guardo estes gatilhos como ninharias que são tesouros.