Monday, June 18, 2018

Henriqueta Emerenciano

Era na casa a seguir à cozinha. À esquerda, encostada à parede, a cama alta de ferro onde gostava de estar sentada. À direta, dois sofás, uma janela, um roupeiro e uma mesa com a televisão a cores. Era por ali que andava e passava a maior parte do dia. Poucos metros quadrados de mundo com um bacio por debaixo da cama.
Já não se aventurava fora de casa. A saúde não o permitia. Recuando muito na memória ainda me lembro dela em minha casa. A demorar meia hora para fazer, com passinhos curtos e inseguros, os 150 metros que iam de uma porta à outra. A subir as traiçoeiras escadas de gatas pacientemente e a chegar ao primeiro andar cansada e eufórica como um alpinista. Esses dias depressa passaram.
As nossas conversas eram pontuadas com longos silêncios. Demorados minutos em que nenhum de nós dizia palavra. Falávamos com os olhos e o resto da cara. Às vezes ria calada, outras comovia-se ao ponto de quase chorar. Terminava o silêncio com a frase que lhe ouvi tantas vezes: "O meu Miguel está tão magrinho". E não estava, estava até gordo.
Durante essas pausas, demorava-se olhando para mim como se me estudasse as feições, parecia que tinha medo de as esquecer. Incomodava-me, às vezes, aquele olhar. Desviava então os olhos para o roupeiro. A porta do meio tinha um espelho e tentava lá perceber o que ela procurava tão atentamente. Nunca encontrei nada de especial. Só uma cara banal ora com barba, ora barbeada.
Dessas conversas, um detalhe é o mais importante, as suas mãos. Gastas e secas mas quentes e acolhedoras. Passava-me as mãos pelo rosto, sentindo os ossos do maxilar e tomava as minhas mãos nas suas. Toda a ternura que sentia para com o seu neto estava condensada nesse gesto. As mãos estavam sempre quentes quando eu tinha frio e frescas no verão abrasador do Alentejo.
Quando, como agora, algo me leva para a sua lembrança, são as mãos que sinto na minha face e ouço, num sussurro: "O meu Miguel está tão magrinho." 

Thursday, June 07, 2018

Vida Triste

Maria Teresa, a Vida Triste, tia da minha mãe, irmã da minha avó Henriqueta. Conheci esta tia-avó já ia a infância a meio caminho. Tanto o meu pai como minha mãe são filhos únicos, por isso sofri de uma espécie de orfandade de tios. Os meus colegas tinham muitos primos, os meus eram em segundo grau, mais próximos da idade dos meus pais que da minha.

Um dia, apareceu a Maria Teresa. Vinha de uma vida “a servir” em casa de uma “senhora” em Évora num tempo em que ainda havia criadas domésticas. Hoje ponho-me a imaginá-la ainda criança a despedir-se da casa humilde dos pais e irmãos para ir trabalhar em Évora. Com certeza que não para uma mansão como a que vejo nos filmes e séries passados na época vitoriana, mas penso que, para ela, habituada à pobreza em que viviam os meus bisavós, lhe tenha parecido algo ainda mais luxuoso. Dessa vida, só me resta imaginar, nunca me falou de tal coisa.

A imagem que mantenho dela, como de muitas coisas da minha infância, começa a tornar-se difusa como se o tempo fosse um filtro opaco que não deixa focar pormenores. Era uma senhora dos seus cinquenta e alguns anos. Referiam-se a ela como “menina Teresa” porque nunca casou embora mesmo no Outono da vida não lhe faltassem pretendentes: o Cadicha que, nós miúdos, conhecíamos por Nesga e a quem faltavam dois dedos na mão direita e Isidro Parreira que tinha os dedos cobertos de anéis de ouro. De um e de outro conseguiu rebater as investidas mantendo o celibato até à morte.

A Vida Triste, assim a batizou o cunhado, o meu avô Miguel, era baixa, usava o cabelo curto mas sempre bem arranjado pelas mãos da Bia Bicadas, raramente usava calças. A sua toilette era sempre completada por uma carteira minúscula que levava para todo o lado mesmo que, descobrimos muitas vezes, estivesse completamente vazia.

Era a pessoa mais supersticiosa que já conheci. As forças do oculto eram, para ela, evidentes e via assombrações e bruxas em cada esquina. Acreditava firmemente que havia neste mundo muito mais do que os nossos olhos podem ver. Conta-me a minha mãe que algumas vezes foram de camioneta da carreira a visitar “virtuosas”, bruxas ou charlatãs que a advertiam contra maus-olhados, maldições e olho gordo.

Era sozinha, a Maria Teresa. Não me refiro ao facto, objetivo, de que morava só. Mesmo para uma criança, como eu era, isso parecia óbvio. Duas a três vezes por dia, no mínimo, vinha visitar-nos a casa. Abria a porta e chamava: “Maria, estás cá?” Sem esperar resposta, ia entrando e falando. Muitas vezes, não estava a minha mãe, apenas eu e o meu irmão. Egoístas como as crianças aprendem depressa a ser, calávamo-nos para que ela fosse embora em vez de vir ter connosco e nos desconcentrasse dos desenhos animados ou dos jogos de computador. Por vezes, funcionava, andava pelo rés-do-chão algum tempo, falando sozinha, avaliando o conteúdo da fruteira ou abrindo o frigorífico. Se a minha mãe tivesse o almoço ao lume, provava e retificava os temperos ou queixava-se do excesso de sal. Refilava da abundância se a minha mãe tinha bacalhau de molho a dessalar ou da míngua se houvesse apenas uma banana onde tinha estado um cacho repleto. Sempre a conversar consigo própria e reforçando essa ideia que eu tinha de que era só.

Um dia, numa dessas visitas, ao ouvi-la falar, rimo-nos. Indecisa entre subir as escadas ou ficar, ficou a olhar para cima no patamar, à escuta. Ao senti-la aproximar, ficámos em silêncio como se estivéssemos a brincar às escondidas. Então, olhámos em volta e vimos no chão umas calças que estavam num monte de roupa suja. Irrefletidamente, pegamos nelas e atiramo-las escada abaixo atingindo a Maria Teresa na cabeça. Assustada, sem discernir o que a estaria a atacar, saltou em altos brados para a rua, ainda com as calças na cabeça gaguejando: “É bruxedo! É bruxedo!”. Nós rimo-nos a espreitar à janela do primeiro andar. A Maria Teresa não achou piada nenhuma.

A minha mãe recorda ainda, muitas vezes, a ocasião em que ouvia vozes vindas da televisão mesmo que o aparelho estivesse já desligado da tomada. Chamou a minha mãe que ficou igualmente perplexa e, mesmo antes de chamar um padre exorcista, chamou o Chibanga, entendido em eletricidade que descobriu um pequeno rádio transístor ligado na gaveta por baixo da televisão. As vozes do outro mundo eram apenas os locutores da rádio.

Noutra ocasião num estrondo, caiu-lhe um homem na cozinha, quebrando o telhado. Imagino que dessa vez ela tivesse crido que era o próprio Belzebu que a atormentava, foi um susto tal que nessa noite não quis dormir em sua casa e veio dormir com a minha mãe.



Quando estas coisas se explicavam e a Maria Teresa entendia enfim que nada de sobrenatural lhe tinha acontecido e que eram apenas coisas que aconteciam a mentes excessivamente ociosas, punha um ar desconsolado e soltava um lamento que introduzia com um “ai” prolongado e profundo: “Vida Triste!”. Era esta a bengala que a amparava, repetidamente, como um mantra. Repenso agora nos motivos que a levariam a adjetivar daquela forma a vida. Seria a solidão, o medo do sobrenatural? E concluo que a obsessão com o sobrenatural nascia da solidão. Talvez tivesse começado como um escape para o tédio, um rabisco que ela desenhava numa folha de papel que não suportava continuar a ver em branco ou uma conversa que tem consigo própria para rasgar o silêncio. Com a rotina, com o tempo, talvez o que imaginava se tenha tornado tão real como uma Vida Triste.

Wednesday, May 30, 2018

Há dez anos que há um tema de que falo todas as semanas. Não é um tema agradável mas tenho aprendido muito, mais a ouvir do que a perguntar. Ouvi muitas opiniões, respeitei-as todas. Mesmo quando me dizem que não têm opinião sobre o assunto, se calhar até são os mais sensatos. 

Por falar constantemente de eutanásia com os grupos de formação, já vi o filme "Mar Adentro" de Alejandro Amenábar e li o conto "Alma Grande" de Miguel Torga tantas vezes que os sei de cor. Cada diálogo, cada frase. Cada plano, cada descrição. Ouvi pessoas de todos os quadrantes a mencionarem as duas obras nos últimos dias. Um é abertamente um filme panfleto, o outro foi instrumentalizado e descontextualizado pelo líder da bancada parlamentar do PSD. Fica bem um pouco de erudição num debate na casa da democracia mesmo que se mude o contexto histórico da era da Inquisição para "a primeira metade do século XX" e se deixe de lado a perseguição religiosa e a tortura para se colocar a fome e a miséria como móbil para a ação do abafador. Dá mais jeito para justificar o discurso político e convicções pessoais. 

Aceito todos os argumentos contra a eutanásia mesmo que o meu respeito pela liberdade do outro me impele a aceitar que a vida lhe pertence, a ele mais do que à família e amigos. É uma questão de valores, para mim a Liberdade está acima da Vida. Os que deram a vida em nome da liberdade são vistos como heróis. Os que abdicaram da liberdade em nome da vida não são, justamente, cantados. Só dois argumentos não respeito, os fundados na ignorância ou na superstição. Em relação aos primeiros nem falo, quem os utiliza terá dificuldade em compreender-me e estaria a perder tempo. Em relação aos segundos, não posso aceitar que as crenças religiosas de um grupo, por mais numeroso que seja, sejam lei para todos. Podem ser leis para quem nelas acredita, é um direito dessas pessoas. Não posso é aceitar que façam do sofrimento um dever para todos.

Monday, March 05, 2018

Sísifo


Recomeça....

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...


Miguel Torga

Friday, February 23, 2018

Chico Luso


Quem se achasse perdido no tempo, sem saber que dia do mês era e não encontrasse um calendário, podia entabular conversa com o Chico Luso. O seu nível de alcoolemia, para quem conhecesse bem os seus hábitos, chegava para determinar se estávamos no princípio, no meio ou no fim do mês.

Chico não trabalhava, mas tinha alguns rendimentos. O rendimento social de inserção, os subsídios de refeição e de transporte que ganhava por andar num curso de operador agrícola e alguma esmola, normalmente em género, dada pelas suas idosas e piedosas vizinhas.

Fora o pouco que comia, fugaz como um passarinho, tudo era dissipado em bebida. Nos poucos dias após receber, em vinho de garrafa de origem denominada e em copos de macieira aos balcões dos cafés da vila em que ainda tinha autorização para entrar. Mais tarde, em garrafões de cinco litros do vinho mais barato que o supermercado vendesse. Já no fim do mês, e ainda antes de receber novo pagamento do estado, em pacotes de litro de vinho que dizia em letras pequenas: “mistura de vinhos de vários países da União Europeia”, [o vinho do Chico Luso a concretizar as promessas de unidade europeia com mais eficácia que os governos do Velho Continente]. Quando todo o dinheiro terminava, sacava constantemente de dentro da mochila de garrafas de litro e meio cheias de água com sumo de limão que bebia apenas com uma sombra da luxúria com que tragava o vinho de há meia dúzia de dias.

Fazia-se transportar de bicicleta. Recebia, é claro, dinheiro para transportes públicos, mas descobriu que os dezassete quilómetros duas vezes por dia podiam ser feitos a pedalar com relativa facilidade e, ainda que em algumas ocasiões ostentasse na face marcas de contacto repentino com o asfalto, a bebida que esse dinheiro podia comprar era bálsamo mais que suficiente para essas e outras dores.

Entre os dias em que bebia vinho e os dias em que bebia água aromatizada com limão, havia uma constante: o repetir de histórias sobre a sua vida. Havia sempre, contudo, algumas diferenças no tom, ora eufórico, ora deprimido consoante o líquido que lhe servisse de combustível. Contava-nos histórias, mas não esperava a nossa atenção. Chegámos a vê-lo sozinho a dar à manivela desse fantástico mecanismo de rememoração. Parecia que era ele próprio o destinatário daquelas narrativas. Articulava as palavras de maneira incoerente, demasiado mastigada, aos solavancos como se estivesse numa montanha russa. Cuspia por vezes as palavras, desdenhoso de si próprio. Umas vezes amaldiçoava-se e outras chorava, emocionando-se com algum pormenor.

Tinha muita dificuldade em seguir o fio dessas narrativas, mas, pela repetição, apercebi-me que o tema era sempre o mesmo. Histórias sobre oportunidades perdidas, inúmeras, um mar delas. As circunstâncias sempre contra ele, vítima de invejas e infortúnios. Era como aqueles filmes de Hollywood com muitas sequelas a imitarem o enredo do original, mas cada vez com menos fôlego e capacidade de surpreender, como réplicas de um terramoto. Cada vez que começava, já sabíamos de que forma terminava: “…e hoje podia ter uma vida boa em vez de andar aqui a penar.” E a seguir o silêncio, contemplativo, fitava um ponto no infinito e era assim que sabíamos que a história terminara. Não havia um descer da cortina, mas era como se houvesse.

Contudo, nem todas as atuações de Chico Luso pendiam para o dramatismo. Certas vezes, numa operação a que tive que assistir para acreditar, trazia na bicicleta, para além da já costumeira mochila carregada de bebida, a caixa de uma guitarra acústica. Nos dias em que bebia mais que a conta, ocasião bastante corriqueira, era um prodígio de equilibrismo a forma como conseguia montar-se na bicicleta e fazer em segurança os dezassete quilómetros até casa por entre curvas, subidas e descidas. Mais admirável era vê-lo com o contrapeso de uma guitarra às costas. Diria que era antes uma ruína de uma guitarra. Com três cordas colocadas ao acaso, afinadas segundo o critério de Chico Luso, serviam para este cantar baladas, fados e música tradicional. Acompanhava-se de uma gaita de beiços. Parecia, quando desviávamos o olhar, que conseguia a proeza de cantar, tocar gaita e guitarra ao mesmo tempo em total desarmonia.

Um dia, quis saber para onde ia Chico Luso quando se retirava. Havia quem dissesse que dali ia para casa. Outros juravam que, em certas ocasiões, já perdido de bêbado, dormia mesmo na vila em cima de um banco ao pé do tribunal. Também bastante popular era a tese de que ainda ia correr alguns dos cafés da vila na esperança de encontrar quem lhe pagasse algum copo ou partilhasse com ele da sua solidão. Segui-o a alguma distância, instruído pelos livros de espionagem que li na adolescência. Não que Chico Luso se apercebesse de que era seguido, ele mal dava conta das pedras da calçada debaixo dos seus pés ou dos carros que abrandavam a velocidade ao vê-lo ao longe. Andava numa passada mais rápida do que aquela com que estava a contar e, em algumas subidas, tive mesmo de me esforçar para o conseguir acompanhar. Chegámos ao fim da vila, à zona onde corria o Mira. Chico desceu até à margem e foi caminhando rio abaixo. Hesitei entre continuar a segui-lo ou desistir. Sem pensar muito no assunto, quando dei por mim estava também já junto ao rio. Caminhámos alguns minutos, o tempo suficiente para estarmos a uma boa distância da última casa da vila. A minha curiosidade adensava-se a cada passo. Então parou. Olhou em volta, mas não me viu. Por instinto, escondi-me atrás de um salgueiro como que antecipando o movimento. Achando-se sozinho, ajoelhou-se. Inspirou e soltou um grito que se não lhe vinha da alma, pelo menos saía-lhe das entranhas. Um grito que parecia rasgar o espaço, um grito sobrenatural cheio de dor e angústia em contraste com a calma da natureza em volta. Não sei dizer quanto tempo demorou o grito. Quando se calou, vomitou e, aninhando-se como um pequeno animal, adormeceu.

Thursday, February 08, 2018

Santos da Casa


Ao Domingo de manhã, enquanto muitos frequentam a missa, era figura certa na curva da igreja, frente às casas de banho públicas. Era dos mais idosos na freguesia mas estava bem conservado graças a uma vida salvaguardada dos trabalhos duros do campo. Enquanto que os poucos que restavam da sua idade, entre lamentos das doenças que os afetavam, recordavam as jornadas de sol a sol nas searas debaixo de um sol tórrido, as mondas que lhes vergavam as costas ou as carvoarias que lhes enchiam os pulmões de fuligem, Santos podia olhar para trás e recordar uma vida de privilégio e prestígio ao balcão da farmácia. Agora reformado, a idade era já muito avançada mesmo para um trabalho ligeiro, recordava a autoridade com que, detrás do balcão e em cima do estrado recomendava algum medicamento. Mais importante que o Santos da Farmácia, só o Dr. Capoulas. É que apesar de muito poderem os donos das terras que decidiam se uma família tinha ou não trabalho, o Santos e o Dr. Capoulas podiam salvar vidas. Talvez tivesse até vaidade nisso, até mais do que no dinheiro que fora amealhando ao longo da carreira. Conseguira fazer uma casa na aldeia, uma das maiores e mais bonitas, e tinha carro, objeto inacessível à grande maioria dos habitantes de Santiago. Era o carro o símbolo maior da riqueza e prestígio de Santos. As casas são investimentos que ficam para o futuro e para os filhos, sabe o povo. E sabe também que os carros são o contrário. Por isso, era quase que para recordar aos seus pares e a si próprio que pertencia à categoria dos homens que têm sucesso na vida, que Santos cumpria o ritual domingueiro de lavar o seu Datsun 240Z branco, restituindo-lhe semanalmente a alvura que, antes, ostentava na sua bata de farmacêutico. Depois, sentava-se ao volante, vagarosamente dava à chave e, após ouvir dois ou três roncos do motor, arrancava e dava uma volta triunfal de cerca de meia hora por Santiago.

Quando eu era novo, já Santos era velho. Conheci-o já reformado com a farmácia já fechada mas com esse sufixo sempre colado ao nome: "Santos da Farmácia". A minha mãe contava-me histórias da sua meninice e uma delas envolvia-o. Tinha o meu avô um cão que era um prodígio de inteligência - o Maroto. Tão inteligente que fez despontar na minha mãe um amor pelos animais que ainda hoje se mantém. Santos da Farmácia era caçador e, ao saber das qualidades do cão, quis comprá-lo. O meu avô aceitou 500 escudos pelo Maroto mas o próprio não aceitou bem a mudança. Sempre que conseguia, escapulia-se e ia ter com a minha mãe e o meu avô ao monte da Masmorra. Só quando lhe explicaram que o Santos era o novo dono, Maroto se conformou. Com o dinheiro da venda e para atenuar a culpa própria e o desgosto da minha mãe, o meu avô comprou uma pulseira ou um fio de ouro à filha. Esta história contribuiu para que Santos fosse, para mim, uma mistura de idoso respeitável e vilão de um filme da Disney. Era daquelas pessoas a quem era incentivado a cumprimentar formalmente "Bom dia, Sr. Santos" ou "Como tem passado, Sr. Santos?".

Um dia, alguém se queixou no posto da guarda da volta triunfal domingueira de Santos. Já não via muito bem, os reflexos não eram grande coisa e, por pouco, atropelava alguém. Não sei se houve mais queixas mas quero acreditar que houve até que o cabo Maximino foi falar com o idoso. Pediu-lhe primeiro que não conduzisse mais, depois desse pedido ignorado, proibiu-o, mais tarde tirou-lhe a carta. Já não tinha idade nem capacidade para conduzir. Santos continuou a lavar o carro ao domingo mas nunca mais o conduziu. Aconteceu então um fenómeno estranho: Santos que até então parecia ter interrompido o envelhecimento, parecia agora envelhecer um ano todas as semanas. A cada domingo sentia mais dificuldade em lavar o carro, cada vez demorava mais tempo e com movimentos mais e mais lentos. A pouco e pouco, até o carro, outrora sempre de um branco brilhante, parecia corroído e a acusar a passagem do tempo. A chama que faiscava nos olhos de Santos foi-se apagando aos poucos até que morreu. As pessoas diziam que morreu de desgosto por não ser autorizado a conduzir. Talvez tenha sido isso, digo eu, ou talvez porque em Santiago muitos tinham já carro e o seu Datsun 240Z era tão-só uma velharia bem estimada.

Wednesday, January 10, 2018

Nomes de Santiago

Conheces o nome que te deram, mas não conheces o nome que tens.
De um livro imaginário de evidências, retirou Saramago esta frase e a colocou em epígrafe do romance Todos os Nomes.

Em Santiago, tudo tem dois nomes. As pessoas, as ruas, os lugares, os cafés, as mercearias e a junção destes dois últimos, as vendas, tudo foi duas vezes batizado. Uma vez, pelos seus proprietários ou pais e regedores, o que vai dar ao mesmo. Esse batismo é fácil, deixa um rasto de papel, de registos e assentos de nascimento assinados, quando quem o faz sabe ler e escrever, ou apenas com uma cruz ou impressão digital no caso daqueles que passaram as primeiras infâncias atrás de uma vara de porcos.

O segundo batismo é mais nebuloso e nem sempre, por mais que inquiramos, conseguimos descobrir a sua origem. Por vezes é um mistério que interessa a poucos mas que a mim sempre me atiçou a curiosidade. São os pares quem encontra esse nome que, quase sempre substitui o oficial e que, qual código tácito, contribui para a construção de um sentimento de comunidade. Quem vem de fora não conheces estes nomes e, por mais anos que viva em Santiago, será sempre um forasteiro enquanto não os dominar.

A rua da casa dos meus avós paternos é a Rua Dr. Miguel Bombarda mas em Santiago é a Rua do Pomarinho. A Rua Dr. Afonso Costa nunca teve esse nome para mim, a não ser agora que andei pelo Google Street View a descobrir esses nomes ocultos, era a Rua dos Rapazes. A rua onde era o mercado é ainda a Rua Tenente Abreu mas, para todos os que conheci na infância, menos os carteiros, é a Rua das Pites. De dois terços destes nomes, até consigo perceber a origem. Mesmo no centro da Rua do Pomarinho, há um monte com esse nome. Na Rua dos Rapazes, existiu uma venda que, apesar de ter outro nome, era conhecida como “os rapazes”. Estes “rapazes” já os conheci perto dos sessenta anos. Mas a Rua das Pites já tem uma origem para mim desconhecida. Aqui me confesso, nem sei o que será uma pite.

O mesmo acontecia com os estabelecimentos. Embora os proprietários dessem voltas mais ou menos menores para encontrar um nome para as mercearias e cafés, normalmente, o nome do proprietário ou alcunha tinha mais força. Foi assim com o Cancela, com o Tónica, o Zorro e continua a ser com o Marreca, o Daurindo e o Lavado. Quase tudo estabelecimentos cujo nome original remete para a orografia da região.
Mas o fenómeno mais curioso, aquele que realmente me interessa, é o das alcunhas. A mecânica que leva a que um homem, e muitas vezes toda a sua prole, passe a ficar conhecido por um nome oferecido por esta entidade coletiva que se chama Santiago. Há para todos os gostos e explicações. Alcunhas que nascem do local de origem das pessoas, de algum episódio caricato que com ele se passou ou com um antepassado demasiado longínquo para ser nomeado, da profissão do avô, bisavô ou triacontavô e algumas de pai e mãe incógnitos.

Muitas destas alcunhas, não sei há que tempo, passaram a ser legitimadas e a constar nos documentos das pessoas. Nomes tão ligados à família que substituíram o apelido. Eu que sou Masmorra Rabino, uma aliteração tão poderosa, a isso o devo. Masmorra era o nome do monte onde morava a família do meu avô materno e passou também a apelido. Rabino é nome demasiado bizarro para se dever a antepassados judeus, ainda para mais num país com um passado de perseguição tão grande ao povo de Moisés. O mais certo é ter havido uma transformação de adjetivo em nome próprio.

Rabino
Adjetivo
1      1. Velhaco; travesso.
2          2. Rabugento.
3          3. Teimoso e desinquieto.

Mas que não pareça que me queixo das alcunhas que se oficializaram em nomes. Gosto dos nomes, não os considero impróprios. Mais personalizados que Santos ou Silvas. E reconheço algumas destas características em alguns Rabinos e em mim mesmo.

E não me queixo até porque em Santiago há nomes ainda mais bizarros. Nomes que designam famílias inteiras e que não estão no Bilhete de Identidade. Nomes que, se calhar, não estão escritos em lugar nenhum mas que ouvimos todos os dias. Pois que fiquem aqui alguns:

Arcadinho, Barreirense, Besunta, Bicho-do-amor, Bóia, Cadicha, Cagaita, Cancela, Cara Cagada, Cerôla, Droga, Égua, Fezes (tenho um tio Fezes), Lapeira, Marreca, Pá da Ova, Palafofa, Pouca-Roupa, Pé-Cagado, Piço, Poila, Remexido, Tamente…

Assim, o mais humildemente que posso, sugiro a Saramago uma correção:

Conheces os nomes que te deram, mas não conheces o nome que tens.