Tuesday, September 17, 2019

O Mentiroso de Cuba


Há vários tipos de mentirosos. De todos, destaco dois: o que mente em proveito próprio e o, chamemos-lhe, mentiroso recreativo. Tenho, como muita gente, pouca estima pelo primeiro, sempre atarefado em subir vertiginosamente a escada de um sucesso ilusório e efémero às costas de outros, mas, em relação ao segundo, reservo até alguma admiração. 

Deste tipo de aldabrão, o maior de que ouvi falar foi o Lúcio Alves. A mentira deixava-lhe sempre um sabor mais doce na boca. A verdade saía em sons estranhos articulados com as entranhas e que o deixavam como que vazio e sem jeito. De maneiras que era mais frequente mentir que dizer a verdade. Começou por exagerar a realidade, com grande sucesso. As pessoas no café até se calavam e juntavam-se para o ouvir. Quando se foram apercebendo que nem tudo o que luzia era ouro, começaram a dar o devido desconto, mas continuaram a ouvir com interesse e a pagar-lhe um copo. Com o tempo deixou de lhe bastar. Inventava acontecimentos de raiz. Estórias pouco verosímeis, fantasiosas que chegavam a incluir lobisomens e outros medos, mas também acontecimentos banais inspirados em anedotas que ouvia os homens contar na taberna.

Soubesse ele escrever e Cuba passaria a ser o berço de, não um, mas dois talentos literários. Para além de Fialho de Almeida, seria também célebre Lúcio Alves. Porém, analfabeto como era, aguçou-se nele o talento para a oralidade. Dominava uma plateia com pausas dramáticas, sotaques imitados e defeitos na fala simulados.

Quando o viam chegar, uns reviravam os olhos em busca de paciência para tanta fantasia, outros ficavam ansiosos como os garotos quando, na tourada, soltam o primeiro boi.

Era tolerado por ser aquela espécie de mentiroso que, por muito que compusesse as mais elaboradas aldrabices, nunca resvalava para a difamação, sempre respeitador da honra alheia. Mentiras de alcova, isso nunca! Para esses assuntos, contassem com as alcoviteiras e não tinha interesse algum em ceifar em seara alheia. Havia muito quem se ocupasse com os assuntos do coração ou da carne, os quais até considerava abaixo da sua categoria criativa.

O primeiro de abril era para Lúcio como dia de Natal. Um dia em que tendo carta branca, liberdade total sem que ninguém pudesse guardar rancores por ser enganado, preferia recorrer ao adágio popular "com a verdade me enganas". Optava por, durante 24 horas, não se juntar ao coro de  mentirosos de ocasião na vila. Narrava apenas as mais inverosímeis histórias, absolutamente verdadeiras, que coleccionava durante todo o ano.

Viam-no chegar e notava-se à légua quando tinha alguma para contar. A velocidade a que caminhava, por mais naturalidade que simulasse, dava a entender uma urgência tremenda em chegar perto de quem o escutasse. Começava com uma pergunta para recolher a atenção dos circundantes: "atão vocemessês sabem da última?" Como nunca ninguém pode ter a certeza, por muito que saiba, de dispor da informação mais recente, a resposta "não" dava azo a mais uma estória mirabolante.

Em tempos de fome, as estórias de Lúcio Alves eram um placebo para os cubenses. Não enchiam a barriga, é certo, mas ajudavam a pensar noutra coisa, ainda que momentaneamente. Sabendo disso, e sentindo ele próprio as presas da fome ferrarem-lhe o estômago, depois de uma semana em que apenas açorda condutada com azeitonas lhe tinha passado pelo estreito, criou aquela que seria a sua obra-prima. Estava agachado no bacio quando a ideia lhe surgiu de assalto e não conseguiu conter uma gargalhada. A mãe, mulher séria e pouco dada a risos, ainda perguntou o que era, sem esperar resposta, habituada que estava a desapontar-se com este filho. Levantou-se, limpou-se mal e à pressa e correu porta fora para o Largo do Tribunal. Aí começou a espalhar a sua invenção. Sem conseguir reproduzir a riqueza de detalhes e o colorido da linguagem, este humilde narrador fará aqui um rascunho da paisagem descrita pelo grande mitómano. O comboio das três, entre Alvito e Cuba, tinha colhido um rebanho de borregos, grande número dos quais jazia morto e moribundo junto à linha. Uma grande desgraça, calcula-se, para o pastor que veria subtraído ao seu soldo o preço das cabeças de gado e um contratempo para o proprietário. A estória não teve o sucesso imediato almejado pelo seu autor e sentia que ia esmorecer a qualquer momento. Mas nisto, o Castro chega ao largo e, casualmente, para meter conversa, comenta que o comboio das três chegara com algum atraso. Aí sim! A coincidência fez com que passassem da total descrença para a dúvida, e da dúvida para a certeza, num piscar de olhos. Sem se despedirem conforme mandam as leis da boa educação e movidos pela míngua a que estavam votadas as despensas domésticas, correram todos a buscar uma saca e um bom cutelo para desmanchar carne. Passado menos que um quarto de hora, eram quase três dezenas, junto à linha do comboio, em direcção a Alvito e aos inventados borregos, numa fila ordeira debaixo do sol daquele domingo de Setembro.

Lúcio dir-se-ia extasiado, com um sorriso sardónico, observava. Mas... a eficácia da sua mentira plantou nele também a semente da desconfiança. E se fosse verdade? Não podia ser. Mas e se fosse? Entavam quase trinta homens e mulheres marchando a caminho de Alvito sem que nenhuma prova concreta os movesse? "Se calhar aconteceu mesmo", pensou. Começou então a imaginar. Um ensopado de borrego, batatinhas novas com um pouco de aba, aromatizado com hortelã. Um joelho de borrego assado no forno da padaria, com a carne a descolar-se do osso e a desfazer-se na boca. Sentia-lhe o cheiro e até, quase, o sabor. Por isso, foi. Correu um pouco até alcançar a massa de gente que caminhava ao engano à espera de encontrar os imaginados borregos. 

Foi o seu maior triunfo. Nesse dia, Lúcio enganou tanta gente e de maneira tão eficaz que enganou quem nunca esperara enganar, a si próprio.


Wednesday, August 28, 2019

Jadan

Um ano nestas terras parecia muito mais tempo. Aproveitando os raros momentos de solidão, Jadan aproximou-se da porta, descalço e em silêncio, para assistir à alvorada de mais um dia neste país. O nascer do sol deixava adivinhar o calor abrasador no Alentejo. 

Na sua terra, o distante Bangladesh, aproximava-se a época das monções. O Ganges iria transbordar do leito causando destruição e dando origem a nova vida, tornando as terras mais férteis. Jadan fora ensinado a respeitar e a sentir-se grato por este trabalho da natureza que os punha à prova para, mais tarde, poderem colher os frutos de tão dolorosa sementeira. 
Mas aqui não havia chuva, era outro mundo. As cores eram mais tristes, a água não corria livremente por todo o lado, era bem escassa. As cegonhas eram uma pálida sombra do calau bicórnio e os poderosos tigres não caçavam nestas terras.

Há precisamente um ano, Jadan despedia-se dos pais e dos irmãos. Também nessa ocasião acordou mais cedo que todos para ver uma derradeira vez as margens do Ganges e as ruas adormecidas de Sujanagar.
Numa família de tantas bocas era preciso que todos trabalhassem e, mesmo assim, quase não chegava para comprar arroz que sossegasse os estômagos. A solução era ir para uma terra distante. Portugal seria a sua nova casa por uns anos, se tudo corresse bem. 

Via agora, à medida que a luz do sol que se erguia à esquerda e tornava visíveis os contornos de todas as coisas, um imenso mar de plástico, as estufas onde labutava todo o dia. Em breve, estaria no seu interior. De dentro do contentor que partilhava com mais quatro companheiros, ouvia-se já o som familiar de pessoas a levantar-se. Acabava assim este momento só dele. Sem olhar para dentro da sua improvisada habitação, conseguia adivinhar o que se passava. Despertavam apressadamente para tomar um pequeno almoço de arroz cozido, iam à casa de banho apagar da cara os vestígios da noite. Sempre em silêncio, sem conversas entre eles. Os capatazes juntavam-nos ali, pensando que eram conterrâneos. A verdade é que nem falavam a mesma língua. Indianos, tailandeses, vietnamitas comunicavam precariamente.

No último ano, Jadan, só uma vez por semana, falava a sua língua materna. Ao domingo, só trabalhava de manhã, por isso caminhava cinco quilómetros até à praça da vila onde tinha Internet grátis. Na véspera, carregava o telemóvel para que a bateria lhe não falhasse e ia falar com os pais, ouvir os sons que lhe eram familiares. Tinha também um desejo enorme de falar, de se fazer compreender. Falava do trabalho, da dificuldade em respirar dentro do calor abrasador das estufas, dos pequenos arbustos carregados de azeitonas que cobriam o que restava da planície. De tudo quanto era estranho na terra, dos caracóis que via comerem e das saudades que tinha dos cozinhados da mãe e de brincar com os sobrinhos pequenos. Só não encontrava modo de descrever o que sentia na planície, tão só, num contentor tão cheio. Nada conseguia exprimir este sentimento. 

Houve um dia em que, como se reconhecesse o seu rosto num espelho, ouviu algo que traduzia o que lhe ia na alma. Cantavam, ele não conhecia uma palavra mas o sentimento era, não duvidava, o dele. Na praça da aldeia, homens idosos vestiam trajes iguais. Amparados uns nos outros, soltavam um lamento em forma de canto que o comoveu até às lágrimas. Ali, longe de casa e numa língua estrangeira, homens tão diferentes dele pareciam saber exprimir, com sons, o que Jadan sentia. E sentiu-se grato por isso.

Monday, July 22, 2019

Desgraça


Mexia-se como um animal selvagem. Como um pequeno mamífero carnívoro de espécie indefinida. Furtivo, ágil e encolhido, tudo vasculhava com os olhos, mesmo que a sua caça fosse tabaco ou alguma carteira negligenciada. Os outros fugiam dele e, ao vê-lo, apalpavam os bolsos e as malas para terem a certeza de que traziam tudo com eles. Os seus bens terrenos emagreciam à mesma medida que ele. Os irmãos vieram buscar a mãe a quem prestava atenção apenas no dia em que chegava a sua míngua pensão. Desde esse momento, a casa foi-se esvaziando. Primeiro a televisão porque pouco interesse tinham as notícias e a ficção não era, de longe o seu escape preferido. Depois o fogão, sem uso num canto da cozinha. Quando cortaram a eletricidade por falta de pagamento, arrancou os fios elétricos e vendeu o cobre por uns tostões. O mesmo destino tiveram os caixilhos das janelas e as portas. Colocou um lençol no lugar da porta para ocultar de olhares curiosos a indigência em que morava.

Não ignorava os olhares feitos de iguais doses de repulsa e compaixão. Abraçava a primeira e revoltava-se com a segunda mesmo que fosse por pena que conseguia uma moeda ou um cigarro de algum conhecido. Amigos, nenhum. Perdeu-os como aos dentes que foram caindo por falta de utilidade. Pouco comia. Almoçava uns tempos num lar, irritava-se e era expulso, depois passava para uma associação, armava fita e não voltava, comia no refeitório do Centro de Formação, mas insultava as cozinheiras e deixava de ter que comer. O jantar, dependia do que encontrava no lixo dos supermercados. Até o cabelo se tornava escasso e os olhos iam-se enterrando cada vez mais nas suas fundas covas. As suas feições eram ossos sobre ossos. A roupa tornou-se larga. Lembrava um espantalho que ia perdendo o enchimento de palha. E espantava todos. Alguma companhia era acidental. A pessoa olhava à volta quando ele chegava e lembrava-se de alguma urgência repentina a que tinha de atender para sair apressadamente da sua presença. Por vezes, era necessário pagar “portagem”. Um cigarro ou uma moeda antes da fuga para o mais longe possível dele. As conversas que mantinha comigo ou com qualquer outro, invariavelmente, acabavam num pedido, numa súplica dita num tom, estudadamente ameaçador, no limite mínimo do ultimato.

Via-o muitas vezes na estrada. Eu, de casa para o trabalho ou do trabalho para casa. Ele, numa direção só conhecida por ele próprio. A pé, junto à berma, mas não muito. Se um carro lhe batesse era maior o azar do automobilista que o dele.

O seu temperamento era como o tempo de abril. Ora chuvoso e escuro, ora brilhante e quente. Em dias de trovoada, vinha pelo meio da rua aos gritos, com os dedos do meio de cada mão esticados num cumprimento ao contrário. Em dias de sol, normalmente com dinheiro na carteira e a cabeça onde ele gostava de a ter, fazia planos e promessas que desapareciam com a primeira nuvem.

Ninguém sabia dele muitas vezes dias a fio. Não dávamos por isso imediatamente. Íamo-nos dando conta aos poucos e também não ficávamos muito tempo a pensar nisso. Quando voltava, às vezes visivelmente maltratado, a cara arranhada ou a arrastar uma perna, recomeçava o seu ofício de cravar o próximo onde o tinha deixado.

Nos dias de maior fúria, perorava longamente sobre uma entidade abstrata que nunca, ao certo, concretizava: as doutoras. As doutoras do lar, as doutoras da segurança social, as doutoras do centro de formação e as doutoras da câmara. Eram como santos a quem se apela em momentos de aflição e a quem se castiga, como à imagem de Santo António quando não nos vale. A doutora do lar que lhe tinha dito que lavava a roupa. A da segurança social que lhe garantiu que lhe pagava o arranjo da casa. A doutora do centro de formação que o autorizou a almoçar todos os dias e a tomar banho. A doutora da câmara que dizia que havia um subsídio dio para pagar a água e luz. A partir do momento em que enunciavam uma possibilidade, ele começava a cobrá-la, como uma certeza, com juros elevados. Ele farejava-lhes o medo e insistia sempre mais. Mas havia também aqueles que não o receavam. Os garotos então, eram terríveis. Latagões na força da idade, com o sangue a pulsar, frenético nas veias. Era para eles um ritual de passagem à idade adulta e bruta, dar uma chapada viril no rosto cheio de arestas deste ser.

Tinha muitos nomes. Ao ponto de poucos saberem, ao certo, o nome que a mãe lhe deu. Dirigiam-se-lhe no vocativo “Oh Desgraça!”. Era dos nomes menos antipáticos que usavam. Dizia-se que estava doente, uns falavam, em segredo, em SIDA, outros em tuberculose ou em anacrónica lepra. Aumentou com isso o seu ressentimento em relação ao mundo. Confidenciou-me, como acontecia, às vezes, antes ou depois de cravar um cigarro, que as pessoas o diziam por maldade ou ignorância. De acordo com ele, o hábito de revirar os caixotes do lixo à procura de uma refeição, era uma roleta russa. Tanto podia apanhar alimentos em bom estado ou uma intoxicação alimentar. Dependia da sorte. Outras vezes, a comida que lhe doavam, leite e iogurtes sobretudo, azedava já que a sua casa, do frigorífico, só tinha o espaço onde estava e este jazia, provavelmente, esventrado nalguma lixeira.

Um dia, abandonou em definitivo o casebre na pequena aldeia onde morava e mudou-se de armas e bagagens para a vila. “Armas e bagagens” é uma maneira de dizer. Não trazia nenhum tipo de armamento e muito menos bagagens, apenas um saco de plástico. Sem pouso certo, dormia onde calhava, umas vezes na rua, outras numa casa abandonada e devoluta. Os da aldeia ficaram alegres. Os da vila, nem por isso. Deu-se então um fenómeno curioso. Ele tornou-se omnipresente. Estava, constantemente, em todo o lado. Alguém destruiu uma cabine telefónica em Valdoca. “Foi aquela Desgraça”, proclamavam logo. Riscaram um carro nos Altos. “Quem terá sido?” perguntavam ironicamente, sabedores da resposta. Viravam um contentor do lixo. “Quem é que anda sempre aí rondando como uma ratazana?”. Roubaram a motosserra do Tramalagana, “A esta hora já se está a drogar à conta do dinheiro da venda.”

Calhava, às vezes, ser culpado de duas coisas que aconteciam ao mesmo tempo em sítios opostos da vila. Quando o confrontavam, nada negava. Para quê dar-se a esse trabalho? Só enfurecia ainda mais o acusador. Foi à conta disso que morreu. Digo, que o mataram. De golpe anónimo nas tripas dado sem ninguém esperar, por uma minudência qualquer que, na verdade, já ninguém lembra. Nem eu, que até tenho boa memória e, quando ela me falta, invento.

Sem que pudesse ser culpado de fazer isso a si próprio, a guarda foi obrigada a sair do posto para fazer uma investigação. Uma chatice. Habituados a que as diligências policiais na vila fosse mais do que procurá-lo e dar-lhe uns calduços. Por falta de hábito nestas lides, ou por outra razão qualquer, nunca chegaram a nenhuma conclusão. Podia ter sido qualquer um, mas acabou por não pagar ninguém.

Desde esse dia, sobra sempre mais um cigarro ao final do dia e voltamos a encontrar uma moeda no bolso quando nos despimos para deitarmos a cabeça, sossegada, na almofada.

Wednesday, June 05, 2019

Faenas


Ainda a hora do calor castigava a terra, já iam saindo de casa a caminho do campo da bola. Uns ainda mastigavam o fim dos lanches, vinham de todas as pontas da vila, a pé e de bicicleta. Outros vinham dos montes e lugares da freguesia. Dos oito aos dezoito, davam vida às ruas desertas "fardados" para jogar à bola. Iam-se chamando uns aos outros de maneira que, à medida que se aproximavam do campo da bola, engrossavam o caudal daquele fio de juventude.

As mães, às vezes, quando vinham em grupo chamar algum mais atrasado, sentindo o calor, mentiam e diziam que não estava. Mas passado algum tempo lá aparecia ele de calção, meias até ao joelho e camisola de algum clube comprada no mercado. Enquanto não eram em número suficiente para começar a jogar, ensaiava-se penaltis, meínhos e rodas sem deixar cair a bola. Bola levantada e alguém dizia "a bola não pode cair, é o mundo". Vaias para os que a deixavam cair. E para estes gaiatos, a bola era um mundo. Uns com mais talento para a coisa que outros, mas todos prontos para uma tardada até que escurecesse ao ponto de não se conseguirem ver ou até que as vozes das mães soassem, longínquas, a chamar para jantar.

"A professora odiou-me, o futebol é a minha vida", assegurava um deles, destro, com dois pés esquerdos. O campo era de terra batida, com tabelas. Quando chovia, era perfeito. Arriscavam-se entradas de carrinho, pontapés de bicicleta e outras acrobacias sem medo de esfolar os joelhos ou os cotovelos. Saíam todos enlameados. Se acaso, acabava a partida e havia um com a roupa ainda impecável, tinha que ir ao chão para ficarem todos irmanados, envoltos na mesma lama. No Verão, tornava-se duro como pedra e, pelo menos no princípio, eram mais cuidadosos. Passavam a bola, quando tinham pela frente um daqueles que davam "no osso". Era demasiado arriscado tentar uma revirenga ou uma faena.

Quase sempre eram mais de quinze. Escolhiam-se três capitães que selecionavam a equipa. Os restantes na bancada, à sombra, à espera de serem chamados. Ansiosos por saberem qual era a sua equipa, com medo de serem dos últimos a serem escolhidos. Às vezes, o orgulho inteiro colocado em causa quando ninguém queria um "cepo" no seu grupo. Bota fora a dois golos. Ninguém queria ir à baliza, "vai um golo cada um", era a solução. À vez, ocupavam resignados o posto desejosos de sofrerem um golo.

Um remate desenquadrado, a bola subia, ressaltava na rede e ia por cima do muro para o meio das vacas. Pausa para descanso enquanto o rematador subia o poste ou negociava com outro mais ágil o resgate da bola no meio da manada.

Ao final da tarde, distinguiam-se já a custo os vultos. As pernas cansadas, já sem força arrastavam-se, um ou outro acometido por cãibras, os pés doridos de tanto chutar e correr. Alguém gritava: "quem marcar este, ganha" e iam-se buscar forças onde havia exaustão. De repente, uma final da Liga dos Campeões. Golo e, à vez, glória e desilusão. E voltávamos para casa com a certeza de que se repetiria. Repetiu-se muitas vezes, menos na última que não me lembro. Mas sei que nenhum de nós tinha a consciência de que seria aquela a última vez que fazíamos daquele lugar o nosso santuário, em que comungávamos daquela alegria simples de jogar à bola. A última vez em que alguém gritava "grande faena". 

Acabou, como tudo irremediavelmente acaba, também para o próprio campo da bola. As redes e as paredes foram tiradas, os muros caíram, a bancada já não existe, há um poste de eletricidade no meio do campo. Para quem não conheceu o sítio, não há quem possa suspeitar o que ali se passou. Mas para nós, que o vivemos, nunca será outra coisa que não o nosso campo da bola.

Monday, April 15, 2019

Bacalhau


Sempre um cigarro esquecido ao canto da boca, às vezes apagado há muito. A cinza vai caindo por si própria. Ocupado com a colher e a talocha, constrói. Olha, olhos franzidos por causa do fumo, óculos embaciados, e vê mais que todos os outros. Todos veem o que está construído, ele, qual profeta, vê o futuro. Um artista, ouvi chamar-lhe algumas vezes.

De manhã, levanta-se sempre sem um queixume. O trabalho chama e manda mais que o resto. Rói um pedaço de pão com queijo. Poucas palavras, observa e fuma. Mais raros os sorrisos, quase sempre irónicos. Cético, por natureza. Desconfiado, por experiência, porque há por aí muito “pantomineiro”.

Vejo-o, chegado do trabalho. Na marquise ou no quintal, junto à coelheira, de camisa interior de alças, remexe as mãos enquanto revê os pensamentos, insondável. Um homem seco e de aparência enganadoramente frágil.

À mesa, sempre frugal. A minha avó afadiga-se na cozinha, à roda do fogão, a fazer os seus pratos favoritos. Mas, de um frango de fricassé, ele come apenas a ponta de uma asa, de um carapau de escabeche, pouco mais que a cabeça. A seguir, com o prato quase intocado, sempre pão com queijo, menos vezes fruta.

Dizem muitas vezes que as pessoas não morrem, que continuam vivas em quem as lembra. Treta, lugar comum, banalidade. Sempre pensei isso. Não deixo de o pensar. Por muito que os lembremos, não lhes damos vida. E o ato de rememorar, acaba por se erodir. Vamos perdendo a imagem geral e fica, aqui e ali, um pormenor. A memória é lente que rapidamente se desfoca e perde a nitidez.

Mas, no espelho, às vezes, no meu perfil, reconheço cada vez mais o dele. Acabo uma refeição, como pão com queijo e sinto a sua presença, a sua aprovação. Raros disparos, acidentais. E penso que os lugares comuns, afinal, terão algum vestígio de verdade.

Tuesday, April 09, 2019

Mateus Indiano


Todo ele era ferocidade, mas segurava na Mauser com delicadeza. Os outros camaradas traziam a G3, arma mais temperamental que em rajada, ceifava tudo o que estivesse à frente. Mas para a caça, entendia Mateus Indiano, não era um instrumento justo. 

Enquanto muitos usavam artimanhas e os recursos da família de forma a financiar subornos para evitarem o Ultramar, Mateus fez o inverso.  Tinha nele uma sede de aventura que não conseguia satisfazer nas planícies do Alentejo. Miúdo inquieto, à medida que ia explorando os campos, as ribeiras e os buracos da mina à volta da sua vila, compreendia que o mundo era mais do que conseguia avistar da Senhora do Castelo e mais lhe crescia a vontade de partir. Um irmão tinha já sido chamado para Moçambique e Mateus ficou a invejar-lhe a sorte. De maneiras que, quando foi cumprir o serviço militar, tudo fez para que o enviassem para onde o irmão tinha estado para "ver se o que o meu irmão diz é verdade". Não o assustavam os perigos ocultos do mato, antes o excitavam. Na sua fantasia, África era uma terra fértil naquilo que animava os seus sonhos: aventura, violência e adrenalina. Assim, ainda que pouco adepto da disciplina militar, submeteu-se à recruta e às costumeiras humilhações infligidas pelos oficiais. A faísca que lhe acendia o olhar, evitava qualquer excesso por parte dos oficiais comandantes que percebiam que a fera não estava domesticada, antes voluntariamente adormecida. Percebia-se nele a ausência de escrúpulos caso fosse necessário recorrer à violência. Talvez até uma certa luxúria no que diz respeito a isso. Os responsáveis pela recruta, habituados a avaliar cada um dos homens que a eles chegavam, de forma rápida e inconsciente, o perceberam e mantiveram a distância. 

Enquanto esperava, com a arma na mão o aparecimento de alguma presa, recordava a chegada a Lourenço Marques e o primeiro contacto com a humidade e o calor de África. Viera de avião, ao contrário de muitos milhares que, no barco, foram-se adaptando ao clima. A ele, África atingiu-o em cheio de uma só vez assim que chegou ao aeroporto. Teve até dificuldade em respirar esta atmosfera densa e pegajosa mas também ele acabou por se habituar.

Agora, de noite, apenas os focos da berliet ligados a cortar a escuridão, já conseguia até fumar um cigarro enquanto não aparecia a caça: javalis, impalas, changos, imbalalas, o enorme pala-pala e o ainda maior boi-cavalo. Caça grossa, como não havia no Alentejo. Apreciava o desporto mas também a carne dos animais que serviam para melhorar e diversificar o rancho fornecido pelo exército. 

Ia a noite longa, Mateus e os companheiros tinham abatido dois cabritos e outros tantos javalis e preparavam-se para aceitar o fim da jornada quando ouviram um resmalhar. Atraído pelo cheiro da caça, vinha, majestoso, aquele que era, antes da chegada das armas e dos tanques, o verdadeiro rei da savana. Os companheiros de Mateus correram em pânico para o abrigo possível da berliet, abandonando as armas que só os atrapalhavam. Nenhum tinha estado frente a frente com um leão. Nem com o inimigo, que podia estar em toda a parte mas nunca se via, tinham tido um encontro tão próximo. De cima do veículo, chamavam Mateus, mas este não os ouvia. Olhou o animal nos olhos aceitando o seu desafio. Apenas um deles ficaria com a caça e ambos estavam igualmente determinados. Levantou a Mauser e apontou-a ao leão. Sentia a mão tremer e, por momentos, pensou em largar a correr para a berliet. Olhou a avaliar a distância entre ele, o animal e a sua salvação. Percebeu que era tarde de mais. Ou matava, ou morria. Fixou a mira entre os olhos do animal, premiu o gatilho e o tirou ecoou pela noite fora. O leão tombou quase de imediato. Um tiro limpo. Os companheiros, após uma curta e cautelosa espera, correram a felicitá-lo, já Mateus estava debruçado no leão. Um macho de frondosa juba. Lamentando-se de ninguém ter uma máquina fotográfica, incentivavam Mateus a que partissem com os cabritos e javalis e deixassem o leão. Mateus opôs-se: "levo-o concerteza, não o deixo aqui". A voz grave como um trovão, carregada ainda de adrenalina. Os camaradas, sabendo da proibição de matar estes felinos, não tiveram coragem de contrariar alguém que tinha acabado de abater um leão e ajudaram-no no esforço de carregar o corpo do animal.


Quando chegaram ao quartel, a notícia foi crescendo como um burburinho. Já rompia a manhã e todos vinham ver o animal. À porta do refeitório, muitos magalas, de origens humildes e de locais remotos das províncias que nunca tinham visto um leão, acotovelavam-se à sua roda. Davam a Mateus os parabéns, apertavam-lhe a mão e batiam-lhe nas costas. Horas depois, a seguir ao almoço, ouviu-se um comunicado nos altifalantes. "Soldado Indiano, é favor chegar ao gabinete do Comandante." Mateus teve a certeza que o seu momento de glória chegava ao fim. 


A cada passo que dava, o receio da sentença atribuída crescia. Uma repreensão ainda na parada, dentro do edifício pensava que ia ficar sem licenças, enquanto esperava à porta do gabinete antevia uma semana de prisão e, à medida que passava a porta de entrada teve a certeza que iria ser enviado para casa numa dispensa desonrosa. O comandante, mal pareceu ter dado pela sua entrada. De óculos à ponta do nariz, olhava para baixo, lendo algum documento. Mateus pensou ser a sua nota de culpa que teria que assinar. Pousou, finalmente, os papéis e encarou-o. 

- Foi você quem matou o leão? - perguntou.

- Fui, sim senhor, meu comandante. - respondeu Mateus, controlando como podia os nervos.

- Então e não sabe que não se podem matar leões?

- Sei, meu comandante. Mas ele não me deu hipóteses, era ele ou eu, meu comandante. - Tinha ensaiado esta resposta, mas não lhe parecia tão convincente quanto imaginava. Ficou, por isso, surpreendido quando o seu superior lhe perguntou:

- E quanto é que quer pelo leão?

- Não quero nada, meu comandante. - Mateus pressentia uma armadilha. O comandante, matreiro e experiente, poderia estar a tentar verificar se o leão tinha sido morto para ganhar algum dinheiro.

- Mas eu quero comprar-lho. Faça lá um preço, homem.

- Meu comandante, não o quero vender. Se o quiser, é seu, meu comandante.

- De certeza?

- De certeza, meu comandante.

O final da conversa foi melhor do que Mateus poderia ter esperado. Não só escapara a um castigo, como continuaria a ser olhado como o alentejano que matou o leão. Saiu do gabinete do comandante de peito inchado debaixo dos olhares curiosos dos camaradas que continuavam a vir e a querer saber mais sobre a caçada.

Passaram-se semanas, iguais às outras. A tensão das saídas pelo mato em que os olhos se perdiam pelo capim de onde poderia sair uma emboscada a toda a hora, o alívio do regresso ao quartel. A euforia das folgas, as cervejas frescas e a confraternização entre os camaradas. Até que um dia a rotina foi interrompida por um anúncio igual ao que Mateus Indiano tinha escutado quando matara o leão. As mesmas palavras anunciadas pelo altifalante da parada: "Soldado Indiano, ao gabinete do comandante." Desta vez, não foi capaz de prever o que se passaria. Por isso, fez o percurso muito mais depressa. A curiosidade ardia-lhe no peito. A noite em que matou o leão, veio-lhe à memória. Mas agora estava desarmado e sentia que era ele que seria caçado.  Avançou corredor fora e bateu à porta:

-  O meu comandante dá licença?

- Entre. - Assim que entrou, Mateus deu dois passos instintivos em defesa, procurando em vão por alguma arma que lhe pudesse valer num confronto. Aquilo que estava à sua frente, deixava-o sem pinga de sangue. Num esgar feroz, plena de tamanho e força, tinha pela frente a fera que matara, por algum milagre devolvida à vida e apostada em vingar-se. Mas a ausência de movimento fez com que percebesse que o que supusera era apenas metade verdade. O animal estava ali, isso era um facto, mas estava morto, embalsamado. Quanto mais olhava, mais percebia que os olhos que o miravam estavam apagados e não tinham vida, muito menos desejo de vingança. E compreendeu afinal. O comandante chamara-o, simplesmente, para lhe mostrar, com vaidade, o leão, transformado em troféu de caça. Mas a Mateus parecia-lhe que tinha sido chamado para tomar consciência que toda a altivez e ferocidade podia ser eliminada por uma bala certeira. Incluindo a dele próprio.

Monday, April 01, 2019

Edmundo Dantas

Surgia-lhe um calor nas tripas e uma força nos dentes, algum resquício de bestialidade quase desaparecida, que o retesava como à corda de um arco. De fora, raro era o que sentia a brasa da fornalha que lhe consumia o baixo ventre. Deitavam-lhe um olhar paternalista, sorriso de padre de barriga cheia, e viravam costas sem desconfiar da chama que deixavam para trás.

Já em moço, sofrera, pouco pacientemente, as zombarias dos colegas da escola quando, gaguejando, errava a tabuada. Sempre mais nervoso por o poderem tomar por parvo do que pelas repreensões e castigos do professor. Às gargalhadas forçadas respondia com um olhar fixo semicerrado, frio e seco, cara fechada, mas fantasiando torcer-lhes o pescoço. Edmundo Dantas conseguia há anos conter o bicho que dentro dele queria sair recorrendo ao mundo do sonho, no qual se afastava de tudo e todos e vivia como um ermitão depois de apertar o papo a todos quanto faziam pouco dele.

Agora, carteiro da vila, ocupava os dias inteiros na entrega da correspondência e a congeminar elaborados planos de vingança que nunca colocaria em prática contra aquele que não lhe falou quando se cruzaram no mercado ou contra aqueloutra que se furtou a dançar com ele no baile de S. João. Por vezes, semanas após alguma provocação que lhe tinham lançado, lembrava-se de uma resposta perfeita e a sua imaginação reconstituía a cena com um final alternativo. Amaldiçoava-se por não ser dotado para o repentismo. Mas passava o resto do dia a imaginar vividamente a cara do opositor ao ouvir a sua tirada.

O perdão era palavra vã para Edmundo Dantas. Quando lhe saía era involuntariamente se acaso pisava alguém ou quando não percebia o que se lhe dizia. A sua vida, desde a primeira infância e desde que tinha memória, era um catálogo de alvos a abater. Visto de fora, pequenas ofensas, mas para Edmundo ousadas afrontas à usa honra e dignidade. Guardava mesmo rancor à sua própria família. À tia que no Natal o presenteava sempre com um par de meias quando o que queria era um brinquedo. À mãe que uma vez lhe dera um par de nalgadas por causa de uma terrina que o seu irmão partiu. Ao pai que lhe levantou a voz e lhe falou grosso no meio do Largo da Fonte. Até contra Deus, de quem começava a descrer, Edmundo nutria um ódio surdo.

Adormecia bastantes vezes a desfazer este novelo de vinganças e retaliações. Embalava-se no sono com imagens de inimigos quebrados, despojados de bens e dignidade a pedirem aquilo que nunca poderiam esperar vir a obter, o seu perdão. De manhã acordava e tudo se mantinha igual à véspera. A raiva que sentia não se diluía com o tempo, antes se depurava, tornava-se mais intensa e concentrada.

Um dia, apareceu na vila para assumir o cargo de chefe dos correios um senhor Ferreira. Homem austero, de aspeto militar e barba republicana veio tomar posse dos seus novos domínios e apresentar-se aos seus subalternos, grupo em que se contava Edmundo Dantas. A impressão que causava nos demais, certamente estudada, era depois confirmada pela forma como se dirigia a todos os funcionários dos correios. De modos bruscos, voz como um trovão, fez saber de imediato o que exigia de todos e o que não admitia a nenhum. A papada do senhor Geraldo, empregado de balcão, tremia e suava perante aquele sermão. Edmundo ficou satisfeito, lembrava-se ainda do vexame que tinha passado certa vez quando, ao sair dos correios com a mala cheia de correspondência, tropeçou, caiu e espalhou as cartas em seu redor. Testemunhas, apenas ele e o senhor Geraldo. Mas, passadas horas, não se falava de outra coisa na vila que não fosse o tralho do carteiro. Fermentou então em Edmundo a certeza de que o colega teria sido o responsável por espalhar a notícia da sua queda e dava-lhe uma pequena satisfação assistir a qualquer revés que o senhor Geraldo sofresse.

Passados dias, viu chegar, no comboio, a família do senhor Ferreira. Instruído pelo chefe para ir ajudar a família a descarregar os pertences, Edmundo Dantas, tentando cair nas suas boas graças, esperava na estação fumando pacientemente um cigarro. Foi quando, pela primeira vez, os seus olhos avistaram Mercedes. Era a antítese do pai. Edmundo dir-se-ia hipnotizado pelo sorriso da rapariga. Os seus dentes, brancos como pérolas deixavam-no alheio a tudo o resto. A custo, abandonou este estado aparvalhado em que se encontrava e dirigiu-se, nervoso e sem jeito a Mercedes e à mãe, apresentando-se e oferecendo a sua ajuda para levar a bagagem de ambas da estação à nova residência da família. Temia causar má impressão, por isso sentia as mãos como algo estranho, não sabia o que lhes fazer. A sua voz soava-lhe estranha, parecia-lhe mais aguda do que o normal. Os sentidos emaranhavam-se, sinestesias alimentadas pelo perfume da rapariga. Colocou, sonâmbulo, as malas da família no carro dos correios, abriu a porta para que entrassem e acomodou-se ao volante. Respirou fundo enquanto rodava a chave na ignição. Sentiu um formigueiro estranho nos lábios. Sem saber o que era, olhou para o espelho retrovisor e viu nascer a curva de um sorriso.

Nessa noite já não adormeceu a ruminar os planos de vingança costumeiros. Foi com a presença, o perfume e o sorriso de Mercedes que deslizou para a terra dos sonhos. Deixou de ocupar os dias com os estéreis e rebuscados planos de retaliação e deslizou pelos dias na esperança de um vislumbre, ou mais, uma palavra de Mercedes. Principalmente a que mais desejava ouvir: "sim".