Wednesday, November 13, 2019

Sueca


Os serões de inverno no monte eram mais curtos. Tinha de ser assim. O sol que se punha cedo e o frio a isso obrigavam. No verão, o monte parecia muito diferente. Os homens e mulheres, sentados em cantos opostos, ao relento, conversavam e riam. Contavam anedotas e episódios que, com mais ou menos exagero, se tinham passado com eles que começavam sempre da mesma maneira: “Vou-vos contar uma parte que me aconteceu”. Os garotos corriam por todo o lado, mais ainda se calhava a lua cheia iluminar com o seu clarão o montado, tornando visível a silhueta de todas as coisas. Brincavam às escondidas, à apanhada e a tantas coisas inventadas que nem eles conseguiriam listar.

Quando o sol começava a ficar mais baixo, os dias mirravam e a noite caía ainda os habitantes do monte não tinham largado o trabalho, a rotina mudava. Dentro de cada casa, os chupões tinham sempre lenha a arder e à volta do fogo, as famílias resistiam pouco tempo a acamalharem-se nos colchões listados e recheados a palha. Ainda assim, para manter o hábito e porque de outra distração não dispunham, os quatro homens juntavam-se depois de comerem as sopas. Na maior parte dos dias, falavam pouco. Eram calados por natureza e também pouco havia para partilharem que os outros não soubessem já. O inverno tornava-os taciturnos, cinzentos como os dias frios e húmidos, que tinham que suportar. Trabalhavam juntos, lado a lado na propriedade do senhor coronel. Vidas quase iguais no pouco que conseguiam amealhar no final de uma jornada de trabalho.

Apanhavam agora a azeitona. Sabiam que, em havendo boa colheita e apanhada a azeitona rapidamente, poderiam vir a gozar da generosidade do senhor coronel. O Natal não vinha longe já e qualquer bónus era bem-vindo para ajudar a pôr qualquer coisa no sapatinho, mas mais importante, a pôr qualquer coisa na mesa. Mesmo com os braços doridos de varejar e com o corpo a pedir descanso, faziam a vontade à cabeça que pedia também uma ocupação. Assim, juntavam-se para jogar à sueca. As parcerias estavam já feitas, eram sempre as mesmas para que os perdedores de hoje pudessem ter a desforra no dia seguinte. Um dos mais velhos era parceiro de um dos mais novos para misturar experiência e cautela com atrevimento e arrojo na dose certa para ter sucesso. Como jogavam à sueca, todos esperariam que fossem quatro, afinal são essas as regras do jogo. Mas, já vamos ver que não.

O Olímpio, era o mais velho dos jogadores. Tinha passado já cinquenta invernos no monte, mas parecia mais. Tinha um olho baço que assim estava desde a infância quando uma brincadeira com um pau lhe deixou uma pua de madeira alojada na vista. O bigode também contribuía para um aspeto que metia respeito, para não dizer medo. Era um bigode quase aristocrático e talvez a única coisa de que Olímpio tivesse vaidade. Mas, Olímpio não era o que parecia. Metia, às vezes, medo aos ratinhos que vinham de longe para ajudar nas searas. Tremiam perante a sua presença quando se apresentava como o manageiro para mais tarde descobrirem que tinha um coração mole. Não fugia de discussões e uma vez mesmo houve uma briga que meteu navalhas. Assim que Olímpio viu o adversário estendido com o sangue a jorrar das tripas, pôs-se da cor da cal e teve que sair dali. Diziam depois que dera metade das suas jornas daquele mês à mulher do desgraçado, mesmo tendo sido o outro a puxar primeiro da navalha.

O segundo era o Joaquim Zé. Este não sabia dizer a idade e, sendo dos mais velhos, era dos mais recentes habitantes do monte. Dizia-se que era arraçado de maltês e o tom moreno da pele parecia confirmar essa ideia. De todos, era o que contava mais histórias. Algumas verdadeiras, outras mentiras, certamente, mas todas com o condão de deixar todos a rir e bem-dispostos. Dizia que tinha crescido junto ao mar, no Brejão. E maravilhava todos a falar do oceano, os seus olhos verdes iluminavam-se a descrever aquela vastidão de água que os habitantes do monte nunca tinham visto e nem conseguiam imaginar.  

Havia depois o Vicente, o parceiro do Olímpio. Acabado de regressar ao monte, vindo da tropa, parecia não ter mais nenhum assunto de conversa desde que fora às sortes. Fora um menino e viera um homem para gáudio do pai e desgosto da mãe. A desgraçada via agora o filho emborcar copos de vinho como se fossem água, a beber medronho como os homens e temia que desse em beberrolas. O pai ria-se desses temores maternais e dava palmadas valentes nas costas do moço que se ria também.

O quarto era o parceiro do Joaquim Zé, o Benício. Rapaz de poucas palavras. Parecia não dar conta das pessoas quando o chamavam e, se era obrigado a falar, fazia-o sempre tão baixinho que obrigava o interlocutor a aguçar os ouvidos e fazer força para o entender. Desde pequeno que gostava mais da companhia das bestas do que das pessoas e tinha mesmo mostrado dotes para os animais. De maneira que, ficara o arrieiro do senhor coronel. A mãe dele dizia que era um “paz de alma”, quase parvo, não tinha maldade. Mas o Joaquim Zé respondia logo “Então vá lá vê-lo a jogar à carta para ver o manhoso que ele é!”  

Havia ainda um quinto elemento que fazia parte destes serões. Não era um jogador, mas era presença sempre à mesa onde jogavam. O Ti Armando. O Ti Armando era sogro do Joaquim Zé e ia já perto dos oitenta anos. Sem poder já trabalhar, tentava não estorvar durante o dia ocupando-se de uma pequena horta que tinham junto à ribeira. À noite, para distrair e usufruir de companhia, juntava-se à mesa para ver o jogo e ouvir as conversas, se as havia. Por respeito aos seus cabelos brancos, perguntavam por rotina se o Ti Armando queria jogar mesmo sabendo que a resposta era invariavelmente negativa. Bem, então jogavam eles.

Mas se o Ti Armando se recusava a jogar, não se negava nunca a interromper as jogadas para perorar sobre um falhanço de um deles: ou porque não respeitara o sinal a pedir trunfo do colega, ou porque não contara as cartas e insistira numa jogada que deu em corte, ou porque devia ter destrunfado ou por qualquer outro motivo. E repetia sempre no fim: “Já não se joga à Sueca, como antigamente”. O Joaquim Zé, já com menos educação perguntava de novo se o Ti Armando queria jogar, ao que ele nem se incomodava a responder, rindo.

Os únicos momentos de descanso que tinham era quando o Ti Armando, por causa dos muitos anos e pelo adiantado da hora, adormecia com a manta aos joelhos embalado pelo jogo de cartas. Se acordava, voltava de imediato aos seus comentários quanto à falta de talento de Olímpio, Joaquim Zé, Vicente e Benício para a sueca.

Uma noite em que as críticas de Ti Armando estavam particularmente azedas e azedos estavam também os quatro jogadores, deu-se um acontecimento que havia de ser contado pelas tabernas do Alentejo, de Barrancos a Odemira e de Almodôvar a Portel. O Vicente enganou-se a dar as cartas, “passou-as” e, em vez de dar dez cartas a cada um, distribuiu-as mal e um ficou com nove e outro com onze. Aí o Ti Armando, entre cuspo e gargalhadas, disse tudo como os malucos. Chamou “burricalho” ao rapaz, disse que já tinha visto fazer todo o tipo de asneira àquela mesa e que, com tanto jogar, em vez de melhorar parecia que jogavam pior. Foi de tal maneira que ficaram todos com a cara muito encarnada e só não responderam porque não se responde a um ancião. Perguntou só o Joaquim Zé ao sogro, sem descerrar os dentes que a raiva fazia apertar: “Quer jogar?”. Mas o Ti Armando respondeu apenas: “Não jogo com burricalhos”, insultando agora todos.

Quando o Ti Armando adormeceu, como era seu hábito, os parceiros ficaram aliviados e puderam retomar a partida ainda com a humilhação a arder-lhes nas entranhas. Foi aí que o Benício, o “paz de alma” que “não tinha maldade” teve a ideia. Estranharam todos o Benício ter uma ideia e mais estranharam estar na disposição de falar com os três para contá-la. Mal a partilhou, os outros três abraçaram aquilo com os dois braços e puseram o plano em prática. Sem fazer barulho, o Vicente tapou muito bem o postigo com um rodilho para não entrar luz nenhuma, o Olímpio apagou o fogo com um pouco de água e o Joaquim Zé apagou o candeeiro a petróleo. Rapidamente tudo ficou na mais absoluta escuridão. Então, sentados nos seus lugares, começaram a bater com as cartas na mesa, simulando estarem a jogar. Guerreavam uns com os outros e tudo, levantando cada vez mais a voz a ver se conseguiam que o Ti Armando acordasse. Finalmente conseguiram. O Ti Armando acorda com o barulho, abre os olhos e nada vê. Passa a mão pela cara, estica os braços e grita de susto: “Mãezinha, estou ceguinho!”. Todos desataram a rir, fazendo tanto barulho que as mulheres vieram a ver o que se passava, trazendo os candeeiros. Só aí o Ti Armando percebeu o que tinha acontecido. Ficou envergonhado por não ter dado pela marosca que os moços tinham preparado, mas ao mesmo tempo aliviado. Foi remédio santo, a partir dessa noite a sueca, no monte, passou a ser um jogo de mudos.

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