Tuesday, September 17, 2019

O Mentiroso de Cuba


Há vários tipos de mentirosos. De todos, destaco dois: o que mente em proveito próprio e o, chamemos-lhe, mentiroso recreativo. Tenho, como muita gente, pouca estima pelo primeiro, sempre atarefado em subir vertiginosamente a escada de um sucesso ilusório e efémero às costas de outros, mas, em relação ao segundo, reservo até alguma admiração. 

Deste tipo de aldabrão, o maior de que ouvi falar foi o Lúcio Alves. A mentira deixava-lhe sempre um sabor mais doce na boca. A verdade saía em sons estranhos articulados com as entranhas e que o deixavam como que vazio e sem jeito. De maneiras que era mais frequente mentir que dizer a verdade. Começou por exagerar a realidade, com grande sucesso. As pessoas no café até se calavam e juntavam-se para o ouvir. Quando se foram apercebendo que nem tudo o que luzia era ouro, começaram a dar o devido desconto, mas continuaram a ouvir com interesse e a pagar-lhe um copo. Com o tempo deixou de lhe bastar. Inventava acontecimentos de raiz. Estórias pouco verosímeis, fantasiosas que chegavam a incluir lobisomens e outros medos, mas também acontecimentos banais inspirados em anedotas que ouvia os homens contar na taberna.

Soubesse ele escrever e Cuba passaria a ser o berço de, não um, mas dois talentos literários. Para além de Fialho de Almeida, seria também célebre Lúcio Alves. Porém, analfabeto como era, aguçou-se nele o talento para a oralidade. Dominava uma plateia com pausas dramáticas, sotaques imitados e defeitos na fala simulados.

Quando o viam chegar, uns reviravam os olhos em busca de paciência para tanta fantasia, outros ficavam ansiosos como os garotos quando, na tourada, soltam o primeiro boi.

Era tolerado por ser aquela espécie de mentiroso que, por muito que compusesse as mais elaboradas aldrabices, nunca resvalava para a difamação, sempre respeitador da honra alheia. Mentiras de alcova, isso nunca! Para esses assuntos, contassem com as alcoviteiras e não tinha interesse algum em ceifar em seara alheia. Havia muito quem se ocupasse com os assuntos do coração ou da carne, os quais até considerava abaixo da sua categoria criativa.

O primeiro de abril era para Lúcio como dia de Natal. Um dia em que tendo carta branca, liberdade total sem que ninguém pudesse guardar rancores por ser enganado, preferia recorrer ao adágio popular "com a verdade me enganas". Optava por, durante 24 horas, não se juntar ao coro de  mentirosos de ocasião na vila. Narrava apenas as mais inverosímeis histórias, absolutamente verdadeiras, que coleccionava durante todo o ano.

Viam-no chegar e notava-se à légua quando tinha alguma para contar. A velocidade a que caminhava, por mais naturalidade que simulasse, dava a entender uma urgência tremenda em chegar perto de quem o escutasse. Começava com uma pergunta para recolher a atenção dos circundantes: "atão vocemessês sabem da última?" Como nunca ninguém pode ter a certeza, por muito que saiba, de dispor da informação mais recente, a resposta "não" dava azo a mais uma estória mirabolante.

Em tempos de fome, as estórias de Lúcio Alves eram um placebo para os cubenses. Não enchiam a barriga, é certo, mas ajudavam a pensar noutra coisa, ainda que momentaneamente. Sabendo disso, e sentindo ele próprio as presas da fome ferrarem-lhe o estômago, depois de uma semana em que apenas açorda condutada com azeitonas lhe tinha passado pelo estreito, criou aquela que seria a sua obra-prima. Estava agachado no bacio quando a ideia lhe surgiu de assalto e não conseguiu conter uma gargalhada. A mãe, mulher séria e pouco dada a risos, ainda perguntou o que era, sem esperar resposta, habituada que estava a desapontar-se com este filho. Levantou-se, limpou-se mal e à pressa e correu porta fora para o Largo do Tribunal. Aí começou a espalhar a sua invenção. Sem conseguir reproduzir a riqueza de detalhes e o colorido da linguagem, este humilde narrador fará aqui um rascunho da paisagem descrita pelo grande mitómano. O comboio das três, entre Alvito e Cuba, tinha colhido um rebanho de borregos, grande número dos quais jazia morto e moribundo junto à linha. Uma grande desgraça, calcula-se, para o pastor que veria subtraído ao seu soldo o preço das cabeças de gado e um contratempo para o proprietário. A estória não teve o sucesso imediato almejado pelo seu autor e sentia que ia esmorecer a qualquer momento. Mas nisto, o Castro chega ao largo e, casualmente, para meter conversa, comenta que o comboio das três chegara com algum atraso. Aí sim! A coincidência fez com que passassem da total descrença para a dúvida, e da dúvida para a certeza, num piscar de olhos. Sem se despedirem conforme mandam as leis da boa educação e movidos pela míngua a que estavam votadas as despensas domésticas, correram todos a buscar uma saca e um bom cutelo para desmanchar carne. Passado menos que um quarto de hora, eram quase três dezenas, junto à linha do comboio, em direcção a Alvito e aos inventados borregos, numa fila ordeira debaixo do sol daquele domingo de Setembro.

Lúcio dir-se-ia extasiado, com um sorriso sardónico, observava. Mas... a eficácia da sua mentira plantou nele também a semente da desconfiança. E se fosse verdade? Não podia ser. Mas e se fosse? Entavam quase trinta homens e mulheres marchando a caminho de Alvito sem que nenhuma prova concreta os movesse? "Se calhar aconteceu mesmo", pensou. Começou então a imaginar. Um ensopado de borrego, batatinhas novas com um pouco de aba, aromatizado com hortelã. Um joelho de borrego assado no forno da padaria, com a carne a descolar-se do osso e a desfazer-se na boca. Sentia-lhe o cheiro e até, quase, o sabor. Por isso, foi. Correu um pouco até alcançar a massa de gente que caminhava ao engano à espera de encontrar os imaginados borregos. 

Foi o seu maior triunfo. Nesse dia, Lúcio enganou tanta gente e de maneira tão eficaz que enganou quem nunca esperara enganar, a si próprio.


Wednesday, August 28, 2019

Jadan

Um ano nestas terras parecia muito mais tempo. Aproveitando os raros momentos de solidão, Jadan aproximou-se da porta, descalço e em silêncio, para assistir à alvorada de mais um dia neste país. O nascer do sol deixava adivinhar o calor abrasador no Alentejo. 

Na sua terra, o distante Bangladesh, aproximava-se a época das monções. O Ganges iria transbordar do leito causando destruição e dando origem a nova vida, tornando as terras mais férteis. Jadan fora ensinado a respeitar e a sentir-se grato por este trabalho da natureza que os punha à prova para, mais tarde, poderem colher os frutos de tão dolorosa sementeira. 
Mas aqui não havia chuva, era outro mundo. As cores eram mais tristes, a água não corria livremente por todo o lado, era bem escassa. As cegonhas eram uma pálida sombra do calau bicórnio e os poderosos tigres não caçavam nestas terras.

Há precisamente um ano, Jadan despedia-se dos pais e dos irmãos. Também nessa ocasião acordou mais cedo que todos para ver uma derradeira vez as margens do Ganges e as ruas adormecidas de Sujanagar.
Numa família de tantas bocas era preciso que todos trabalhassem e, mesmo assim, quase não chegava para comprar arroz que sossegasse os estômagos. A solução era ir para uma terra distante. Portugal seria a sua nova casa por uns anos, se tudo corresse bem. 

Via agora, à medida que a luz do sol que se erguia à esquerda e tornava visíveis os contornos de todas as coisas, um imenso mar de plástico, as estufas onde labutava todo o dia. Em breve, estaria no seu interior. De dentro do contentor que partilhava com mais quatro companheiros, ouvia-se já o som familiar de pessoas a levantar-se. Acabava assim este momento só dele. Sem olhar para dentro da sua improvisada habitação, conseguia adivinhar o que se passava. Despertavam apressadamente para tomar um pequeno almoço de arroz cozido, iam à casa de banho apagar da cara os vestígios da noite. Sempre em silêncio, sem conversas entre eles. Os capatazes juntavam-nos ali, pensando que eram conterrâneos. A verdade é que nem falavam a mesma língua. Indianos, tailandeses, vietnamitas comunicavam precariamente.

No último ano, Jadan, só uma vez por semana, falava a sua língua materna. Ao domingo, só trabalhava de manhã, por isso caminhava cinco quilómetros até à praça da vila onde tinha Internet grátis. Na véspera, carregava o telemóvel para que a bateria lhe não falhasse e ia falar com os pais, ouvir os sons que lhe eram familiares. Tinha também um desejo enorme de falar, de se fazer compreender. Falava do trabalho, da dificuldade em respirar dentro do calor abrasador das estufas, dos pequenos arbustos carregados de azeitonas que cobriam o que restava da planície. De tudo quanto era estranho na terra, dos caracóis que via comerem e das saudades que tinha dos cozinhados da mãe e de brincar com os sobrinhos pequenos. Só não encontrava modo de descrever o que sentia na planície, tão só, num contentor tão cheio. Nada conseguia exprimir este sentimento. 

Houve um dia em que, como se reconhecesse o seu rosto num espelho, ouviu algo que traduzia o que lhe ia na alma. Cantavam, ele não conhecia uma palavra mas o sentimento era, não duvidava, o dele. Na praça da aldeia, homens idosos vestiam trajes iguais. Amparados uns nos outros, soltavam um lamento em forma de canto que o comoveu até às lágrimas. Ali, longe de casa e numa língua estrangeira, homens tão diferentes dele pareciam saber exprimir, com sons, o que Jadan sentia. E sentiu-se grato por isso.

Monday, July 22, 2019

Desgraça


Mexia-se como um animal selvagem. Como um pequeno mamífero carnívoro de espécie indefinida. Furtivo, ágil e encolhido, tudo vasculhava com os olhos, mesmo que a sua caça fosse tabaco ou alguma carteira negligenciada. Os outros fugiam dele e, ao vê-lo, apalpavam os bolsos e as malas para terem a certeza de que traziam tudo com eles. Os seus bens terrenos emagreciam à mesma medida que ele. Os irmãos vieram buscar a mãe a quem prestava atenção apenas no dia em que chegava a sua míngua pensão. Desde esse momento, a casa foi-se esvaziando. Primeiro a televisão porque pouco interesse tinham as notícias e a ficção não era, de longe o seu escape preferido. Depois o fogão, sem uso num canto da cozinha. Quando cortaram a eletricidade por falta de pagamento, arrancou os fios elétricos e vendeu o cobre por uns tostões. O mesmo destino tiveram os caixilhos das janelas e as portas. Colocou um lençol no lugar da porta para ocultar de olhares curiosos a indigência em que morava.

Não ignorava os olhares feitos de iguais doses de repulsa e compaixão. Abraçava a primeira e revoltava-se com a segunda mesmo que fosse por pena que conseguia uma moeda ou um cigarro de algum conhecido. Amigos, nenhum. Perdeu-os como aos dentes que foram caindo por falta de utilidade. Pouco comia. Almoçava uns tempos num lar, irritava-se e era expulso, depois passava para uma associação, armava fita e não voltava, comia no refeitório do Centro de Formação, mas insultava as cozinheiras e deixava de ter que comer. O jantar, dependia do que encontrava no lixo dos supermercados. Até o cabelo se tornava escasso e os olhos iam-se enterrando cada vez mais nas suas fundas covas. As suas feições eram ossos sobre ossos. A roupa tornou-se larga. Lembrava um espantalho que ia perdendo o enchimento de palha. E espantava todos. Alguma companhia era acidental. A pessoa olhava à volta quando ele chegava e lembrava-se de alguma urgência repentina a que tinha de atender para sair apressadamente da sua presença. Por vezes, era necessário pagar “portagem”. Um cigarro ou uma moeda antes da fuga para o mais longe possível dele. As conversas que mantinha comigo ou com qualquer outro, invariavelmente, acabavam num pedido, numa súplica dita num tom, estudadamente ameaçador, no limite mínimo do ultimato.

Via-o muitas vezes na estrada. Eu, de casa para o trabalho ou do trabalho para casa. Ele, numa direção só conhecida por ele próprio. A pé, junto à berma, mas não muito. Se um carro lhe batesse era maior o azar do automobilista que o dele.

O seu temperamento era como o tempo de abril. Ora chuvoso e escuro, ora brilhante e quente. Em dias de trovoada, vinha pelo meio da rua aos gritos, com os dedos do meio de cada mão esticados num cumprimento ao contrário. Em dias de sol, normalmente com dinheiro na carteira e a cabeça onde ele gostava de a ter, fazia planos e promessas que desapareciam com a primeira nuvem.

Ninguém sabia dele muitas vezes dias a fio. Não dávamos por isso imediatamente. Íamo-nos dando conta aos poucos e também não ficávamos muito tempo a pensar nisso. Quando voltava, às vezes visivelmente maltratado, a cara arranhada ou a arrastar uma perna, recomeçava o seu ofício de cravar o próximo onde o tinha deixado.

Nos dias de maior fúria, perorava longamente sobre uma entidade abstrata que nunca, ao certo, concretizava: as doutoras. As doutoras do lar, as doutoras da segurança social, as doutoras do centro de formação e as doutoras da câmara. Eram como santos a quem se apela em momentos de aflição e a quem se castiga, como à imagem de Santo António quando não nos vale. A doutora do lar que lhe tinha dito que lavava a roupa. A da segurança social que lhe garantiu que lhe pagava o arranjo da casa. A doutora do centro de formação que o autorizou a almoçar todos os dias e a tomar banho. A doutora da câmara que dizia que havia um subsídio dio para pagar a água e luz. A partir do momento em que enunciavam uma possibilidade, ele começava a cobrá-la, como uma certeza, com juros elevados. Ele farejava-lhes o medo e insistia sempre mais. Mas havia também aqueles que não o receavam. Os garotos então, eram terríveis. Latagões na força da idade, com o sangue a pulsar, frenético nas veias. Era para eles um ritual de passagem à idade adulta e bruta, dar uma chapada viril no rosto cheio de arestas deste ser.

Tinha muitos nomes. Ao ponto de poucos saberem, ao certo, o nome que a mãe lhe deu. Dirigiam-se-lhe no vocativo “Oh Desgraça!”. Era dos nomes menos antipáticos que usavam. Dizia-se que estava doente, uns falavam, em segredo, em SIDA, outros em tuberculose ou em anacrónica lepra. Aumentou com isso o seu ressentimento em relação ao mundo. Confidenciou-me, como acontecia, às vezes, antes ou depois de cravar um cigarro, que as pessoas o diziam por maldade ou ignorância. De acordo com ele, o hábito de revirar os caixotes do lixo à procura de uma refeição, era uma roleta russa. Tanto podia apanhar alimentos em bom estado ou uma intoxicação alimentar. Dependia da sorte. Outras vezes, a comida que lhe doavam, leite e iogurtes sobretudo, azedava já que a sua casa, do frigorífico, só tinha o espaço onde estava e este jazia, provavelmente, esventrado nalguma lixeira.

Um dia, abandonou em definitivo o casebre na pequena aldeia onde morava e mudou-se de armas e bagagens para a vila. “Armas e bagagens” é uma maneira de dizer. Não trazia nenhum tipo de armamento e muito menos bagagens, apenas um saco de plástico. Sem pouso certo, dormia onde calhava, umas vezes na rua, outras numa casa abandonada e devoluta. Os da aldeia ficaram alegres. Os da vila, nem por isso. Deu-se então um fenómeno curioso. Ele tornou-se omnipresente. Estava, constantemente, em todo o lado. Alguém destruiu uma cabine telefónica em Valdoca. “Foi aquela Desgraça”, proclamavam logo. Riscaram um carro nos Altos. “Quem terá sido?” perguntavam ironicamente, sabedores da resposta. Viravam um contentor do lixo. “Quem é que anda sempre aí rondando como uma ratazana?”. Roubaram a motosserra do Tramalagana, “A esta hora já se está a drogar à conta do dinheiro da venda.”

Calhava, às vezes, ser culpado de duas coisas que aconteciam ao mesmo tempo em sítios opostos da vila. Quando o confrontavam, nada negava. Para quê dar-se a esse trabalho? Só enfurecia ainda mais o acusador. Foi à conta disso que morreu. Digo, que o mataram. De golpe anónimo nas tripas dado sem ninguém esperar, por uma minudência qualquer que, na verdade, já ninguém lembra. Nem eu, que até tenho boa memória e, quando ela me falta, invento.

Sem que pudesse ser culpado de fazer isso a si próprio, a guarda foi obrigada a sair do posto para fazer uma investigação. Uma chatice. Habituados a que as diligências policiais na vila fosse mais do que procurá-lo e dar-lhe uns calduços. Por falta de hábito nestas lides, ou por outra razão qualquer, nunca chegaram a nenhuma conclusão. Podia ter sido qualquer um, mas acabou por não pagar ninguém.

Desde esse dia, sobra sempre mais um cigarro ao final do dia e voltamos a encontrar uma moeda no bolso quando nos despimos para deitarmos a cabeça, sossegada, na almofada.

Wednesday, June 05, 2019

Faenas


Ainda a hora do calor castigava a terra, já iam saindo de casa a caminho do campo da bola. Uns ainda mastigavam o fim dos lanches, vinham de todas as pontas da vila, a pé e de bicicleta. Outros vinham dos montes e lugares da freguesia. Dos oito aos dezoito, davam vida às ruas desertas "fardados" para jogar à bola. Iam-se chamando uns aos outros de maneira que, à medida que se aproximavam do campo da bola, engrossavam o caudal daquele fio de juventude.

As mães, às vezes, quando vinham em grupo chamar algum mais atrasado, sentindo o calor, mentiam e diziam que não estava. Mas passado algum tempo lá aparecia ele de calção, meias até ao joelho e camisola de algum clube comprada no mercado. Enquanto não eram em número suficiente para começar a jogar, ensaiava-se penaltis, meínhos e rodas sem deixar cair a bola. Bola levantada e alguém dizia "a bola não pode cair, é o mundo". Vaias para os que a deixavam cair. E para estes gaiatos, a bola era um mundo. Uns com mais talento para a coisa que outros, mas todos prontos para uma tardada até que escurecesse ao ponto de não se conseguirem ver ou até que as vozes das mães soassem, longínquas, a chamar para jantar.

"A professora odiou-me, o futebol é a minha vida", assegurava um deles, destro, com dois pés esquerdos. O campo era de terra batida, com tabelas. Quando chovia, era perfeito. Arriscavam-se entradas de carrinho, pontapés de bicicleta e outras acrobacias sem medo de esfolar os joelhos ou os cotovelos. Saíam todos enlameados. Se acaso, acabava a partida e havia um com a roupa ainda impecável, tinha que ir ao chão para ficarem todos irmanados, envoltos na mesma lama. No Verão, tornava-se duro como pedra e, pelo menos no princípio, eram mais cuidadosos. Passavam a bola, quando tinham pela frente um daqueles que davam "no osso". Era demasiado arriscado tentar uma revirenga ou uma faena.

Quase sempre eram mais de quinze. Escolhiam-se três capitães que selecionavam a equipa. Os restantes na bancada, à sombra, à espera de serem chamados. Ansiosos por saberem qual era a sua equipa, com medo de serem dos últimos a serem escolhidos. Às vezes, o orgulho inteiro colocado em causa quando ninguém queria um "cepo" no seu grupo. Bota fora a dois golos. Ninguém queria ir à baliza, "vai um golo cada um", era a solução. À vez, ocupavam resignados o posto desejosos de sofrerem um golo.

Um remate desenquadrado, a bola subia, ressaltava na rede e ia por cima do muro para o meio das vacas. Pausa para descanso enquanto o rematador subia o poste ou negociava com outro mais ágil o resgate da bola no meio da manada.

Ao final da tarde, distinguiam-se já a custo os vultos. As pernas cansadas, já sem força arrastavam-se, um ou outro acometido por cãibras, os pés doridos de tanto chutar e correr. Alguém gritava: "quem marcar este, ganha" e iam-se buscar forças onde havia exaustão. De repente, uma final da Liga dos Campeões. Golo e, à vez, glória e desilusão. E voltávamos para casa com a certeza de que se repetiria. Repetiu-se muitas vezes, menos na última que não me lembro. Mas sei que nenhum de nós tinha a consciência de que seria aquela a última vez que fazíamos daquele lugar o nosso santuário, em que comungávamos daquela alegria simples de jogar à bola. A última vez em que alguém gritava "grande faena". 

Acabou, como tudo irremediavelmente acaba, também para o próprio campo da bola. As redes e as paredes foram tiradas, os muros caíram, a bancada já não existe, há um poste de eletricidade no meio do campo. Para quem não conheceu o sítio, não há quem possa suspeitar o que ali se passou. Mas para nós, que o vivemos, nunca será outra coisa que não o nosso campo da bola.

Monday, April 15, 2019

Bacalhau


Sempre um cigarro esquecido ao canto da boca, às vezes apagado há muito. A cinza vai caindo por si própria. Ocupado com a colher e a talocha, constrói. Olha, olhos franzidos por causa do fumo, óculos embaciados, e vê mais que todos os outros. Todos veem o que está construído, ele, qual profeta, vê o futuro. Um artista, ouvi chamar-lhe algumas vezes.

De manhã, levanta-se sempre sem um queixume. O trabalho chama e manda mais que o resto. Rói um pedaço de pão com queijo. Poucas palavras, observa e fuma. Mais raros os sorrisos, quase sempre irónicos. Cético, por natureza. Desconfiado, por experiência, porque há por aí muito “pantomineiro”.

Vejo-o, chegado do trabalho. Na marquise ou no quintal, junto à coelheira, de camisa interior de alças, remexe as mãos enquanto revê os pensamentos, insondável. Um homem seco e de aparência enganadoramente frágil.

À mesa, sempre frugal. A minha avó afadiga-se na cozinha, à roda do fogão, a fazer os seus pratos favoritos. Mas, de um frango de fricassé, ele come apenas a ponta de uma asa, de um carapau de escabeche, pouco mais que a cabeça. A seguir, com o prato quase intocado, sempre pão com queijo, menos vezes fruta.

Dizem muitas vezes que as pessoas não morrem, que continuam vivas em quem as lembra. Treta, lugar comum, banalidade. Sempre pensei isso. Não deixo de o pensar. Por muito que os lembremos, não lhes damos vida. E o ato de rememorar, acaba por se erodir. Vamos perdendo a imagem geral e fica, aqui e ali, um pormenor. A memória é lente que rapidamente se desfoca e perde a nitidez.

Mas, no espelho, às vezes, no meu perfil, reconheço cada vez mais o dele. Acabo uma refeição, como pão com queijo e sinto a sua presença, a sua aprovação. Raros disparos, acidentais. E penso que os lugares comuns, afinal, terão algum vestígio de verdade.

Tuesday, April 09, 2019

Mateus Indiano


Todo ele era ferocidade, mas segurava na Mauser com delicadeza. Os outros camaradas traziam a G3, arma mais temperamental que em rajada, ceifava tudo o que estivesse à frente. Mas para a caça, entendia Mateus Indiano, não era um instrumento justo. 

Enquanto muitos usavam artimanhas e os recursos da família de forma a financiar subornos para evitarem o Ultramar, Mateus fez o inverso.  Tinha nele uma sede de aventura que não conseguia satisfazer nas planícies do Alentejo. Miúdo inquieto, à medida que ia explorando os campos, as ribeiras e os buracos da mina à volta da sua vila, compreendia que o mundo era mais do que conseguia avistar da Senhora do Castelo e mais lhe crescia a vontade de partir. Um irmão tinha já sido chamado para Moçambique e Mateus ficou a invejar-lhe a sorte. De maneiras que, quando foi cumprir o serviço militar, tudo fez para que o enviassem para onde o irmão tinha estado para "ver se o que o meu irmão diz é verdade". Não o assustavam os perigos ocultos do mato, antes o excitavam. Na sua fantasia, África era uma terra fértil naquilo que animava os seus sonhos: aventura, violência e adrenalina. Assim, ainda que pouco adepto da disciplina militar, submeteu-se à recruta e às costumeiras humilhações infligidas pelos oficiais. A faísca que lhe acendia o olhar, evitava qualquer excesso por parte dos oficiais comandantes que percebiam que a fera não estava domesticada, antes voluntariamente adormecida. Percebia-se nele a ausência de escrúpulos caso fosse necessário recorrer à violência. Talvez até uma certa luxúria no que diz respeito a isso. Os responsáveis pela recruta, habituados a avaliar cada um dos homens que a eles chegavam, de forma rápida e inconsciente, o perceberam e mantiveram a distância. 

Enquanto esperava, com a arma na mão o aparecimento de alguma presa, recordava a chegada a Lourenço Marques e o primeiro contacto com a humidade e o calor de África. Viera de avião, ao contrário de muitos milhares que, no barco, foram-se adaptando ao clima. A ele, África atingiu-o em cheio de uma só vez assim que chegou ao aeroporto. Teve até dificuldade em respirar esta atmosfera densa e pegajosa mas também ele acabou por se habituar.

Agora, de noite, apenas os focos da berliet ligados a cortar a escuridão, já conseguia até fumar um cigarro enquanto não aparecia a caça: javalis, impalas, changos, imbalalas, o enorme pala-pala e o ainda maior boi-cavalo. Caça grossa, como não havia no Alentejo. Apreciava o desporto mas também a carne dos animais que serviam para melhorar e diversificar o rancho fornecido pelo exército. 

Ia a noite longa, Mateus e os companheiros tinham abatido dois cabritos e outros tantos javalis e preparavam-se para aceitar o fim da jornada quando ouviram um resmalhar. Atraído pelo cheiro da caça, vinha, majestoso, aquele que era, antes da chegada das armas e dos tanques, o verdadeiro rei da savana. Os companheiros de Mateus correram em pânico para o abrigo possível da berliet, abandonando as armas que só os atrapalhavam. Nenhum tinha estado frente a frente com um leão. Nem com o inimigo, que podia estar em toda a parte mas nunca se via, tinham tido um encontro tão próximo. De cima do veículo, chamavam Mateus, mas este não os ouvia. Olhou o animal nos olhos aceitando o seu desafio. Apenas um deles ficaria com a caça e ambos estavam igualmente determinados. Levantou a Mauser e apontou-a ao leão. Sentia a mão tremer e, por momentos, pensou em largar a correr para a berliet. Olhou a avaliar a distância entre ele, o animal e a sua salvação. Percebeu que era tarde de mais. Ou matava, ou morria. Fixou a mira entre os olhos do animal, premiu o gatilho e o tirou ecoou pela noite fora. O leão tombou quase de imediato. Um tiro limpo. Os companheiros, após uma curta e cautelosa espera, correram a felicitá-lo, já Mateus estava debruçado no leão. Um macho de frondosa juba. Lamentando-se de ninguém ter uma máquina fotográfica, incentivavam Mateus a que partissem com os cabritos e javalis e deixassem o leão. Mateus opôs-se: "levo-o concerteza, não o deixo aqui". A voz grave como um trovão, carregada ainda de adrenalina. Os camaradas, sabendo da proibição de matar estes felinos, não tiveram coragem de contrariar alguém que tinha acabado de abater um leão e ajudaram-no no esforço de carregar o corpo do animal.


Quando chegaram ao quartel, a notícia foi crescendo como um burburinho. Já rompia a manhã e todos vinham ver o animal. À porta do refeitório, muitos magalas, de origens humildes e de locais remotos das províncias que nunca tinham visto um leão, acotovelavam-se à sua roda. Davam a Mateus os parabéns, apertavam-lhe a mão e batiam-lhe nas costas. Horas depois, a seguir ao almoço, ouviu-se um comunicado nos altifalantes. "Soldado Indiano, é favor chegar ao gabinete do Comandante." Mateus teve a certeza que o seu momento de glória chegava ao fim. 


A cada passo que dava, o receio da sentença atribuída crescia. Uma repreensão ainda na parada, dentro do edifício pensava que ia ficar sem licenças, enquanto esperava à porta do gabinete antevia uma semana de prisão e, à medida que passava a porta de entrada teve a certeza que iria ser enviado para casa numa dispensa desonrosa. O comandante, mal pareceu ter dado pela sua entrada. De óculos à ponta do nariz, olhava para baixo, lendo algum documento. Mateus pensou ser a sua nota de culpa que teria que assinar. Pousou, finalmente, os papéis e encarou-o. 

- Foi você quem matou o leão? - perguntou.

- Fui, sim senhor, meu comandante. - respondeu Mateus, controlando como podia os nervos.

- Então e não sabe que não se podem matar leões?

- Sei, meu comandante. Mas ele não me deu hipóteses, era ele ou eu, meu comandante. - Tinha ensaiado esta resposta, mas não lhe parecia tão convincente quanto imaginava. Ficou, por isso, surpreendido quando o seu superior lhe perguntou:

- E quanto é que quer pelo leão?

- Não quero nada, meu comandante. - Mateus pressentia uma armadilha. O comandante, matreiro e experiente, poderia estar a tentar verificar se o leão tinha sido morto para ganhar algum dinheiro.

- Mas eu quero comprar-lho. Faça lá um preço, homem.

- Meu comandante, não o quero vender. Se o quiser, é seu, meu comandante.

- De certeza?

- De certeza, meu comandante.

O final da conversa foi melhor do que Mateus poderia ter esperado. Não só escapara a um castigo, como continuaria a ser olhado como o alentejano que matou o leão. Saiu do gabinete do comandante de peito inchado debaixo dos olhares curiosos dos camaradas que continuavam a vir e a querer saber mais sobre a caçada.

Passaram-se semanas, iguais às outras. A tensão das saídas pelo mato em que os olhos se perdiam pelo capim de onde poderia sair uma emboscada a toda a hora, o alívio do regresso ao quartel. A euforia das folgas, as cervejas frescas e a confraternização entre os camaradas. Até que um dia a rotina foi interrompida por um anúncio igual ao que Mateus Indiano tinha escutado quando matara o leão. As mesmas palavras anunciadas pelo altifalante da parada: "Soldado Indiano, ao gabinete do comandante." Desta vez, não foi capaz de prever o que se passaria. Por isso, fez o percurso muito mais depressa. A curiosidade ardia-lhe no peito. A noite em que matou o leão, veio-lhe à memória. Mas agora estava desarmado e sentia que era ele que seria caçado.  Avançou corredor fora e bateu à porta:

-  O meu comandante dá licença?

- Entre. - Assim que entrou, Mateus deu dois passos instintivos em defesa, procurando em vão por alguma arma que lhe pudesse valer num confronto. Aquilo que estava à sua frente, deixava-o sem pinga de sangue. Num esgar feroz, plena de tamanho e força, tinha pela frente a fera que matara, por algum milagre devolvida à vida e apostada em vingar-se. Mas a ausência de movimento fez com que percebesse que o que supusera era apenas metade verdade. O animal estava ali, isso era um facto, mas estava morto, embalsamado. Quanto mais olhava, mais percebia que os olhos que o miravam estavam apagados e não tinham vida, muito menos desejo de vingança. E compreendeu afinal. O comandante chamara-o, simplesmente, para lhe mostrar, com vaidade, o leão, transformado em troféu de caça. Mas a Mateus parecia-lhe que tinha sido chamado para tomar consciência que toda a altivez e ferocidade podia ser eliminada por uma bala certeira. Incluindo a dele próprio.

Monday, April 01, 2019

Edmundo Dantas

Surgia-lhe um calor nas tripas e uma força nos dentes, algum resquício de bestialidade quase desaparecida, que o retesava como à corda de um arco. De fora, raro era o que sentia a brasa da fornalha que lhe consumia o baixo ventre. Deitavam-lhe um olhar paternalista, sorriso de padre de barriga cheia, e viravam costas sem desconfiar da chama que deixavam para trás.

Já em moço, sofrera, pouco pacientemente, as zombarias dos colegas da escola quando, gaguejando, errava a tabuada. Sempre mais nervoso por o poderem tomar por parvo do que pelas repreensões e castigos do professor. Às gargalhadas forçadas respondia com um olhar fixo semicerrado, frio e seco, cara fechada, mas fantasiando torcer-lhes o pescoço. Edmundo Dantas conseguia há anos conter o bicho que dentro dele queria sair recorrendo ao mundo do sonho, no qual se afastava de tudo e todos e vivia como um ermitão depois de apertar o papo a todos quanto faziam pouco dele.

Agora, carteiro da vila, ocupava os dias inteiros na entrega da correspondência e a congeminar elaborados planos de vingança que nunca colocaria em prática contra aquele que não lhe falou quando se cruzaram no mercado ou contra aqueloutra que se furtou a dançar com ele no baile de S. João. Por vezes, semanas após alguma provocação que lhe tinham lançado, lembrava-se de uma resposta perfeita e a sua imaginação reconstituía a cena com um final alternativo. Amaldiçoava-se por não ser dotado para o repentismo. Mas passava o resto do dia a imaginar vividamente a cara do opositor ao ouvir a sua tirada.

O perdão era palavra vã para Edmundo Dantas. Quando lhe saía era involuntariamente se acaso pisava alguém ou quando não percebia o que se lhe dizia. A sua vida, desde a primeira infância e desde que tinha memória, era um catálogo de alvos a abater. Visto de fora, pequenas ofensas, mas para Edmundo ousadas afrontas à usa honra e dignidade. Guardava mesmo rancor à sua própria família. À tia que no Natal o presenteava sempre com um par de meias quando o que queria era um brinquedo. À mãe que uma vez lhe dera um par de nalgadas por causa de uma terrina que o seu irmão partiu. Ao pai que lhe levantou a voz e lhe falou grosso no meio do Largo da Fonte. Até contra Deus, de quem começava a descrer, Edmundo nutria um ódio surdo.

Adormecia bastantes vezes a desfazer este novelo de vinganças e retaliações. Embalava-se no sono com imagens de inimigos quebrados, despojados de bens e dignidade a pedirem aquilo que nunca poderiam esperar vir a obter, o seu perdão. De manhã acordava e tudo se mantinha igual à véspera. A raiva que sentia não se diluía com o tempo, antes se depurava, tornava-se mais intensa e concentrada.

Um dia, apareceu na vila para assumir o cargo de chefe dos correios um senhor Ferreira. Homem austero, de aspeto militar e barba republicana veio tomar posse dos seus novos domínios e apresentar-se aos seus subalternos, grupo em que se contava Edmundo Dantas. A impressão que causava nos demais, certamente estudada, era depois confirmada pela forma como se dirigia a todos os funcionários dos correios. De modos bruscos, voz como um trovão, fez saber de imediato o que exigia de todos e o que não admitia a nenhum. A papada do senhor Geraldo, empregado de balcão, tremia e suava perante aquele sermão. Edmundo ficou satisfeito, lembrava-se ainda do vexame que tinha passado certa vez quando, ao sair dos correios com a mala cheia de correspondência, tropeçou, caiu e espalhou as cartas em seu redor. Testemunhas, apenas ele e o senhor Geraldo. Mas, passadas horas, não se falava de outra coisa na vila que não fosse o tralho do carteiro. Fermentou então em Edmundo a certeza de que o colega teria sido o responsável por espalhar a notícia da sua queda e dava-lhe uma pequena satisfação assistir a qualquer revés que o senhor Geraldo sofresse.

Passados dias, viu chegar, no comboio, a família do senhor Ferreira. Instruído pelo chefe para ir ajudar a família a descarregar os pertences, Edmundo Dantas, tentando cair nas suas boas graças, esperava na estação fumando pacientemente um cigarro. Foi quando, pela primeira vez, os seus olhos avistaram Mercedes. Era a antítese do pai. Edmundo dir-se-ia hipnotizado pelo sorriso da rapariga. Os seus dentes, brancos como pérolas deixavam-no alheio a tudo o resto. A custo, abandonou este estado aparvalhado em que se encontrava e dirigiu-se, nervoso e sem jeito a Mercedes e à mãe, apresentando-se e oferecendo a sua ajuda para levar a bagagem de ambas da estação à nova residência da família. Temia causar má impressão, por isso sentia as mãos como algo estranho, não sabia o que lhes fazer. A sua voz soava-lhe estranha, parecia-lhe mais aguda do que o normal. Os sentidos emaranhavam-se, sinestesias alimentadas pelo perfume da rapariga. Colocou, sonâmbulo, as malas da família no carro dos correios, abriu a porta para que entrassem e acomodou-se ao volante. Respirou fundo enquanto rodava a chave na ignição. Sentiu um formigueiro estranho nos lábios. Sem saber o que era, olhou para o espelho retrovisor e viu nascer a curva de um sorriso.

Nessa noite já não adormeceu a ruminar os planos de vingança costumeiros. Foi com a presença, o perfume e o sorriso de Mercedes que deslizou para a terra dos sonhos. Deixou de ocupar os dias com os estéreis e rebuscados planos de retaliação e deslizou pelos dias na esperança de um vislumbre, ou mais, uma palavra de Mercedes. Principalmente a que mais desejava ouvir: "sim".

Tuesday, February 12, 2019

Senhor Papagaio


Quando uma ideia original lhe passava pela cabeça, descartava-a de imediato. Para ele as ideias tinham pedigree, linhagem que as certificava. Podiam ter sido até lançadas apocrifamente, desde que depositadas na Internet, esse espaço onde as citações sem contexto se acumulam como pau para toda a obra. Nesse armazém podia entrar a toda a hora e retirava uma frase para qualquer ocasião. Era ele quem tinha a chave.

Das obras dos grandes pensadores e dos consagrados autores conhecia apenas a lombada. Um excerto apelativo e selecionado enquanto estratégia de marketing. Das grandes obras, lera o resumo dos apontamentos Europa América. Não as conhecia senão superficialmente, mas citava-as com familiaridade e dando-se ares de erudição. Mesmo que as citações estivessem erradamente atribuídas a um autor. Mesmo quando eram uma descarada banalidade.

Agarrava-se a uma citação como um náufrago a uma bóia. Conseguia maior efeito ainda, quando essa citação era em inglês. Nessas ocasiões, não as dizia, escrevia-as online. Os fãs reagiam inundando-o de likes. O senhor papagaio, batizei-o assim, era feliz com isso. Identificava sempre a fonte e usava aspas. De Andrade, Eugénio à Bíblia, de Xavier, São Francisco a Zink, Rui. Fazia da citação uma arte.
Quando morreu, fui ao funeral. A primeira originalidade estava guardada quanto à cova. Um buraco com meio metro de profundidade. A terra mal tapava o caixão depois de tudo terminado. Mas a perplexidade foi total quando colocaram a lápide. Nem cruzes, nem anjos, nem santos. É hoje atração turística naquela vila alentejana. Um papagaio em alvenaria que devora vários livros enquanto defeca sobre o túmulo. Mais nada. Não há nomes ou aspas, apenas uma derradeira originalidade, um canto, não de cisne, mas de papagaio.


Tuesday, February 05, 2019

Ágata



Como uma menina de 50 anos. Era assim Ágata, na véspera da “excursão” como teimava chamar à visita de estudo apesar das constantes correções, primeiros dos formadores e depois dos colegas. Quase não dormiu. Andou às voltas na cama de ferro, a sonhar mas acordada com as maravilhas que iria contemplar na excurs… visita de estudo. Mas pensava também, com pesar, que este período estava a chegar ao fim.

A rotina da vida no monte tinha sido interrompida havia poucos anos. Ágata pouco estudara na infância e a adolescência já a encontrara adulta, casada e com filhos. Mesmo assim, considerava, sabia muita coisa. Quando um dia chegou o carteiro com um envelope que dizia “IEFP” no remetente, ela teve muita dificuldade em perceber para que era aquela carta. Colocava a cabeça para trás para aumentar a distância entre o pedaço de papel e os seus olhos ampliados pelos óculos, como se isso o tornasse mais inteligível. Compreendeu três coisas e nada mais: era necessária a sua presença em tal dia e em tal sítio. Por isso foi. Mas não em três palavras.

Qualquer visita à vila era precedida de uma longa e penosa rotina que começava ainda na véspera. Ágata tinha que deixar o almoço para o marido, tinha que se lavar com mais cuidado e tinha que vestir outra coisa que não a bata com que passava a vida costumeira no monte. Depois ainda tinha que se levantar de noite, mesmo quando os dias eram maiores, para dar de comer à criação ou regar a horta pela fresca. Só depois, fazia mais de um quilómetro a pé até à paragem do autocarro que a levaria até à vila.

Quando, finalmente, o dia mencionado na carta chegou, foi com curiosidade e desconfiança que saiu em direção à vila. Não conhecia ninguém no autocarro por isso olhava à sua volta e escutava com interesse as conversas. Havia sobretudo crianças e jovens a caminho da escola e alguns idosos que iam ao Centro de Saúde ou à Segurança Social. Ouvia os garotos e percebia pouco do que diziam, pareciam falar uma língua estrangeira: playstation, facebook, minecraft, fortnite, instagram, lol. Escutava as palavras mas não as percebia, não lhes espremia o sumo.

Apresentou-se na morada indicada à hora certa com uma multidão de caras confusas e expectantes. A Doutora chegou pouco depois num carro com motorista. Fumou, vagarosamente, um cigarro, observada por dezenas de pares de olhos indecisos e avançou lentamente para a sala com um sorriso ensaiado. Ágata olhou em volta e viu, nos seus pares, o mesmo desconforto, homens de chapéu iam descobrindo a cabeça à medida que entravam, mulheres com um luto carregado iam-se sentando nos lugares disponíveis, rapazes mais jovens fixavam a Doutora com um ar de desafio e revolta e outros ainda mais jovens pareciam estar ali deslocados. A Doutora começou a falar. Disse que estavam ali para um curso. Que iam aprender a cozinhar, a pintar ou a tratar de jardins enquanto ficavam com mais escolaridade. Várias mãos se levantaram mas a Doutora cortou-lhes a palavra. “No fim falaremos de questões particulares” e continuou a falar de como era uma boa oportunidade para eles, de como lhes pagavam as deslocações, subsídio de refeição, bolsa de formação e o infantário aos filhos. “E aos netos?”, perguntou um dos anciãos mais irrequietos. “Sim”, respondeu a Doutora, “no caso de os netos estarem a seu cargo”. Ágata via a Doutora a ficar cada vez mais enervada com as interrupções, com os apartes a que era puxada, com os comentários lançados para o ar e com os apelos a que não fossem chamados porque tinham os pais ou sogros em casa doentes e não podiam vir. Reparou que a Doutora sofria mais com os últimos. Ágata não falava, escutava, mas parecia que estava outra vez no autocarro a ouvir os garotos. As palavras passavam-lhe por dentro mas parecia não compreendê-las de novo: “EFA”, “B2”, “B3”, “NS”, “qualificação”, “certificação”…. Por isso, foi perguntar, a medo, porque estava ali. “Vem para um curso de cozinha, começa para a semana.”

Nessa noite não dormiu. Não sabia sequer como contar ao marido que ia começar a ir para a vila todos os dias. Era uma sensação estranha, receio pelo trabalho concentrado que iria ter na lida do monte com a antecipação de sair de uma rotina de anos que lhe parecia grilhetas. Ao almoço, no dia seguinte, Ágata contou-lhe. Foi um contar a modos de pedir autorização. Foi tudo muito bem estudado. Fez o prato preferido do marido, cozinho de chícharos com carne de porco. Comprou uma garrafa de vinho tinto das mais caras da venda. E, ao contrário do que sempre fazia, passou a manhã calada. Começou por perguntar:
– Lembras-te da carta? Pois parecem que querem que eu cá vá para um curso.
– Curso? Que é isso? – teria que explicar com outras palavras. O marido não sabia destas coisas, só dos porcos, das ovelhas e da horta.
– Escola. Querem que eu vá para a escola para estudar para cozinheira. – E atalhou antes que houvesse objeções. – E se eu não for cortam o rendimento. Já viste a falta que fica a fazer esse dinheiro?
A cara do marido congestionou-se um pouco. O bigode oscilava enquanto mastigava, pensativamente. Os olhos fixaram-se num ponto do teto. Parecia pesar a situação até que perguntou:
– É coisa para durar quanto?
– Eu sei cá. – respondeu Ágata. – Ano e meio foi o que disse a doutora.
– Cá nos havemos de desenrascar.
Ágata soube logo que estava autorizada. Não era preciso um “sim” expresso. Mas também sabia que devia evitar exteriorizar o seu regozijo. Pôs um ar contrafeito como se ir para a vila fosse um infortúnio que não se consegue evitar.

Desde o primeiro dia do curso até agora, Ágata tinha vivido os dias de maior felicidade. Enquanto as colegas se queixavam de que o curso era uma prisão, para ela era uma libertação. O cativeiro a que tinha estado votada no monte tinha agora uma ansiada interrupção. Andava cansada, mas não deixava nada por fazer, nem o marido lho permitiria. “Ele, em não bebendo, é bom para mim. Mas não perdoa falhas. Ai, aquela vez que me esqueci de ligar a lâmpada aos pintos para estarem quentes e morreram dois de frio…” Esse episódio, como outros, ficou bem marcado na sua pele durante semanas.

Tinha aprendido e esquecido os nomes das coisas que fazia na cozinha. Ouvira falar francês e inglês e, inclusivamente sabia dizer je m’appelle Ágata e my name is Ágata. Até já percebia algumas das palavras que os garotos diziam no autocarro. Uma colega mostrou-lhe o facebook. Não ficou a perceber muito bem o que era mas já servia para não fazer papel de parva. “Putas e Cabrões! É o que faz o facebook.” Dizia sentenciosamente. Experimentou novas iguarias nas aulas práticas de cozinha. Coisas com nomes finos que, invariavelmente, deixavam a sua língua enrolada como: profitelores, tarte tatin, bechamel. Conheceu as colegas e conversava muito com elas. Às vezes riam-se muito.
A visita de estudo era no último dia do curso. As colegas iam fazer um estágio em restaurantes da zona, aplicar o que tinham aprendido. Ágata não ia. Os formadores disseram que não podia ir porque não tinha aprendido tudo mas ela convenceu-se a si própria que não queria ir. “Trabalhar de graça, sabe-se! De graça nem os cães vão à caça!” Por isso a visita de estudo a Lisboa era, para ela, como aquele prato chinês que o professor de cozinha tinha ensinado “Ai como é que aquilo se chama? Frango agridoce.”

A Doutora também foi na visita de estudo. No final de um dia de absoluto delírio e alegria infinita, Ágata chamou-a à parte e pediu-lhe o contrário do que a Doutora estava habituada a ouvir:
– Sô doutora, pela sua saúde, meta-me outra vez no próximo curso.

Thursday, January 17, 2019

Síntese/Haiku Jiyuritsu

Que as minhas pegadas 
na areia da praia sejam sempre apagadas 
pela pureza obstinada das ondas.

Tuesday, January 15, 2019

Autópsia à alma/Biópsia à alma


Os órfãos de Deus são parricidas.
São pó e cinza, quando o sangue deixa de lhes correr nas veias
E o corpo cinzento desce à fria terra ou entra na fornalha.
Uma sombra que se esfuma e dispersa pela esfera que habitamos.

Os eleitos são imorredouros,
Sentam-se à direita do pai num festim de vinho e mel.
Colhem do sacrifício doces frutos e não sentem frio nem fome.
Uma eterna recompensa, como animais amestrados que deixam de mijar no tapete.

Seja, também eu, pó e nada,
E fique em tudo a remota memória, menos,
Uma impressão do que fui.
Que tenha fim a vergonha, a fraqueza, a queda e o fracasso que Dele herdámos.
Que as minhas pegadas na areia da praia sejam sempre apagadas pela pureza obstinada das ondas.

Monday, January 14, 2019

As Horas


Eram as horas no café que tornavam tudo suportável: as longas horas fora de casa, o levantar cedo, o legítimo mau humor da sua esposa por estar tantas horas fora de casa e, sobretudo, a monotonia de muitas horas para passar e pouco com que as ocupar. Lia o jornal diário, lia o jornal desportivo, com um vagar absoluto. Consultava o correio eletrónico sabendo que nada de novo tinha chegado, fazia pesquisas inúteis na Internet e observava as pessoas que entravam. Começou a conhecer-lhes as rotinas e os horários, os gostos e as manias. Um gostava do café cheio, outro pedia pingado. Uma senhora, com um vago sotaque madeirense, pedia sempre adoçante. Uns vinham sozinhos para fumar um cigarro, outros faziam daquele momento um ritual social.

Lembrava-se a todo o momento de um romance que trouxe da biblioteca mas nunca chegou a terminar: “A Colmeia” de Camilo José Cela. Aqui era ele o voyeur. O narrador impertinente e indiscreto que tudo vê e relata.

Naquele ano, viu-se numa situação nova. Como professor, sabia que cada ano podia trazer um desafio diferente. O ano anterior tinha sido de muito trabalho. Agora, porém, o desafio era contrário. Era manter a sanidade, a cem quilómetros de casa, no meio do tédio.

A princípio ocupou-se a escrever. Tinha dentro dele aquela compulsão que faz com que tenha sempre uma história para fixar em papel, uma memória para cristalizar e preservar ou um pensamento que quisesse desenvolver. Mas esse poço depressa secou e via os ponteiros do relógio arrastarem-se num langor que lhe esticava os nervos.

Nunca gostou muito de conversar. Acha que as pessoas, quando as estamos a conhecer são uma ficção. Quanto mais se querem dar a conhecer mais escondem quem são na realidade. Escondem o que julgam ser defeitos e maquilham as pretensas qualidades. A espontaneidade genuína está em vias de extinção. Para as conhecermos realmente, pensa por vezes, temos que ser uma espécie de David Attenborough, camuflado e a observar à distância. Quando fica a conhecer, ou melhor, a compreender as pessoas, é quando perde todo o vestígio de interesse.

Por isso gostava do café. Era como observar a natureza. Os animais comportam-se de maneira diferente quando não estamos a olhar. O rouxinol canta quando pensa não ter público humano mas foge quando avista alguém. No fundo, não somos assim tão diferentes.

Um dia o café fechou. Prometiam fazer umas pequenas obras de remodelação e abrir em breve com nova gerência. A reabertura tardou, por isso despediu-se, entregou o pré-aviso de trinta dias e preparava-se para nunca mais voltar. No último dia dessa interminável espera, ao sair olhou e viu um letreiro colado à porta do café: "Reabre hoje com nova gerência".

Monday, December 24, 2018

Salão da Memória



Depois de comer cerimoniosamente a torrada e beber o chá de limão, chegou a hora de ir à janela. Os primeiros raios de sol começaram a chegar à varanda e, aos poucos, o movimento começou na rua. A dona da drogaria pendurou as vassouras e os piaçabas, arrastou as pesadas latas de tintas parando para olhar para cima e saudá-la com um "bom dia, madrinha". A vizinhança despertou aos poucos a dirigir-se, como sonâmbulos, à mercearia para comprar pão e conduto. A loja das rações abriu a porta com o dono a cumprimentá-la também. Tudo como nos outros longos dias. Mesmo em Dezembro, os dias são longos. Demasiado longos para as poucas tarefas a fazer. Mesmo que as fizesse devagar, pausada e conscienciosamente. Quando os ponteiros do relógio parecem parar e o tempo entra em suspenso, é quando a madrinha reflete sobre a natureza da vida e do tempo. 

Acha cada vez mais que o tempo é como se feito de um elástico. Olha para trás e sente que alguns momentos foram um instante em que mal teve tempo para olhar para o que lhe acontecia. A infância mais rápida que um batimento do coração. A adolescência num sopro até casar com o seu Ricardo. Os filhos a nascerem e a fazerem-se adultos que lhe traziam os netos. As alegrias efémeras e as tristezas numa rápida eternidade. O tempo dilui tudo como se tivesse acontecido noutra vida. Apenas agora, sozinha, os dias lhe parecem ter as horas  supostas. E acha-as longas mesmo que compartimentadas em pequenas rotinas. Vê o dia como uma cómoda de mil gavetas onde arruma os momentos de forma muito organizada. Todos os dias são as mesmas cómodas, as mesmas gavetas, os mesmos momentos. Por isso a madrinha, farta da repetição, vai abrindo gavetas antigas de mobiliário velho arrumado numa divisão sem outro uso.


Alguns armários, conhece-os de cor. Correspondem a dias alegres ou de dor. Estão em posição de destaque nesse grande salão. Parecem mais gastos que os outros e nunca têm pó pois são revistos todos os dias. Aqui, numa gaveta mais bonita que as outras o nascimento do primeiro filho, um momento dentro de uma caixa, embrulhada carinhosamente em veludo, dentro de uma gaveta, no salão das memórias. Noutro armário, escuro, o primeiro dia da sua viuvez. Não necessariamente o mais difícil, outros a seguir foram mais dolorosos, mas aquele mudou a sua vida daí para a frente. Todos os armários subsequentes têm um estilo mais austero, como o do luto que passou a envergar.


A madrinha chora por vezes a ver estes fragmentos. Não porque as memórias lhe sejam insuportáveis. Acontece é que, cada vez mais, encontra gavetas vazias. Às vezes parecem faltar armários. Ao início justificava essa ausência com o cansaço ou a distração, com o facto de o salão estar mais e mais ocupado num labirinto de armários. Descobriu depois que não é por nada disso. Os anos vão maltratando essas memórias, atacam a mobília do espaço onde revive esses momentos com um mal que as inutiliza e, na rotina em que vive, vai tentando não dar pela sua ausência porque é no passado que, na míngua de futuro, vai buscar alento para a rotina. Por isso, às vezes, chora perante uma gaveta vazia.

Tuesday, December 04, 2018

Máquina Desafinada


Tinha um aspeto estranho à primeira vista. Considero-o agora concedendo que, na altura, pela inocência infantil e pela frequência com que o avistava, não tenha achado fora do normal. O lábio inferior estava em falta dando a sensação de que se recolhia por alguma razão. Vestia quase sempre uma pelica de pele de ovelha preta a que, na aldeia, chamávamos samarra e uma boina. Parecia omnipresente. Era uma figura familiar mas não tinha sítio certo para o encontrarmos. Calhou muitas vezes saltar-nos ao caminho na rua do cemitério quando acompanhávamos o meu avô até à Masmorra para regar a horta mas também junto ao cruzamento da Santa. Outras vezes, estava sentado num dos bancos vermelhos do Largo da Fonte, ao sol.

Recebia-nos sempre com uma festa. Eu e o meu irmão andávamos sempre munidos de um pequeno cantil de plástico a imitar uma cabaça, uma recordação que alguém trouxe de Fátima, um vermelho e outro azul para não nos enganarmos, e era por aí que se metia connosco. Pedia uma gotinha de água do nosso cantil e ria-se muito quando lhe respondíamos que havia muita na fonte.

Não me lembro do nome dele nem de alguma alcunha. Não me lembro se tinha família ou descendência. Lembro-me de poucas coisas dessa altura e, desconfio, muitas são memórias artificiais transplantadas para o meu subconsciente pelas histórias que os meus pais e avós me foram contando quando era mais velho. Muitas vezes, até misturo memórias reais com essas sem me aperceber e até memórias de coisas que aconteceram, não comigo, mas com o meu irmão. Porque a memória é um mecanismo estranho. É máquina que não conhece o dono. Caprichosa, pode, em determinado dia, ser capaz de nos levar aos primórdios da nossa existência para, logo de seguida, nos desiludir e não nos trazer a combinação do cartão de débito. Embaraça-nos quando o professor nos chama ao quadro para ditar a tabuada e depois consegue o milagre estúpido de preservar o número de telefone desusado há décadas da casa dos nossos pais. Escreve na pedra a matrícula de um carro que os nossos pais tinham quando mal sabíamos ler e escrever e falha na simples missão de armazenar o nome de um conhecido.

Reflito sobre isso agora porque, fora o que contei, pouco mais posso lembrar deste homem. Oculta-se-me o local da aldeia onde morava, a sua ocupação, o nome dos filhos e se os tinha, de que conversava com o meu avô. Tudo isso é poeira para mim. Mas lembro algo que fazia sempre parte destes encontros. Uma cantiguinha obscena que, na altura, nos divertia a todos, aos velhos, sabedores e velhacos, pela letra, e aos gaiatos, inocentes, pela melodia alegre. E ia assim a cantiga: “As mulheres têm dois buracos, pum! Os homens só têm um, pum! Eu tapo um, eu tapo um, eu tapo um…”

Monday, December 03, 2018

Feira da Aldeia



Quando as carrinhas da junta começavam a despejar as primeiras iluminações, sabíamos que as férias do verão estavam a meio. A caminho do campo da bola para as últimas futeboladas antes que o ringue de futebol de salão se convertesse por uns tempos em salão de baile ou improvisado recinto de vacadas, víamos o erguer daquelas estruturas que anunciavam o aproximar da “feira da aldeia”.

Já tínhamos todos, independentemente das origens mais abastadas ou humildes, uma muda de roupa para estrear na feira. Era um dos rituais que se cumpria anualmente há talvez muitas gerações. Ir à feira sem estrear roupa era ir envergonhado. Ainda que essa roupa ficasse cheia de pó, os sapatos novos a mudar de cor para um tom mais esbatido sob uma pátina de pó e as costuras das calças de ganga a acumularem a terra que o vento, que invariavelmente se levantava naquelas noites de final de Julho, empurrava. 

Faziam-se mealheiros para gastar nos carrinhos de choque, em bifanas a meio da noite empurradas por garrafas de canada dry, joy de maçã ou laranja ou, mais tarde, quando o buço começava a dar lugar a algo mais definitivo, por imperiais. Os tios e avós eram também chamados a contribuir com uma “notinha” para esse fim. Tinha algo para todos, a feira. As luzes a todos fascinavam, novos e velhos. Quando a noite começava a anunciar-se, depois dos longos dias de verão, a iluminação apontava o caminho para o campo da bola. As famílias chegavam juntas mas depois dividiam-se entre o bar, os carrosséis, a quermesse, as barraca das farturas e do torrão doce, a tenda dos tiros com pressão de ar, o assador de polvo, as vendas de brinquedos, a vacada e o baile.

O cheiro a frango assado (verdadeiros frangos, não os pintos que nos vendem agora) aromatizava a atmosfera debaixo da estufa que era o improvisado abrigo construído por rede e pernadas de eucalipto. Grandes alguidares de plástico continham rodelas de tomate pouco maduro, cebola e pepino à espera de serem pescadas para uma travessa de inox onde eram temperadas para guarnecer a carne juntamente com pacotes de batata frita. Voluntários agitavam-se de um lado para o outro, à volta de descomunais grelhas de carne. Outros lavavam os legumes na torneira instalada ao lado da baliza oeste do Campo de Jogos 25 de Abril. Atrás do balcão vendiam-se senhas que eram depois trocadas por comida e bebida. Em mesas e bancos corridos, que obrigavam a prodígios de contorcionismo e ocupavam todo o espaço, conversava-se, ria-se a bom rir e reencontravam-se as caras ausentes durante o resto do ano. De toda a margem sul, do Pinhal Novo à Baixa da Banheira, chegavam nesta altura os parentes que a vida levou para longe e muitos vinham também da Suíça, França ou Alemanha para rever os seus familiares e a feira da aldeia. Abraços, comoção e até choro, que isto de voltar à terra é uma coisa muito emotiva. Compreendo-o agora.

Os moços corriam o recinto da feira em bandos. Gastos num instante os mealheiros nos carrinhos de choque, vagueavam à procura de pais, avós ou tios que lhes pudessem providenciar mais uma nota de cem escudos. As noites eram mais longas durante a feira, o sono tardava a vir. As birras eram frequentes durante a feira, só não eram provocadas pelo sono mas pelo desejo de uma volta num carrossel, de uma pistola de fulminantes, um saco de soldadinhos verdes de plástico com uma redondela por baixo que os mantinha em pé ou ainda uma rede cheia de berlindes. Um par de palmadas ou, como se diz por lá, “nalgadas” bem assentes costumava ter um de dois efeitos: ou agudizar o tom da birra ou dá-la por terminada.

Era a feira também fértil na existência de outro tipo de fenómenos: as bebedeiras. Havia de todo o género e investi algum tempo na sua tipificação. Havia as habituais, os ébrios que não precisam de nenhum pretexto para beberem demais e para quem a feira era, nesse aspeto, igual a todos os outros fins de semana. Havia ainda as inesperadas. Aquelas pessoas que passavam um ano inteiro sem tocar no álcool ou, quando bebiam, era um copo solitário às refeições ou um digestivo após um almoço particularmente faustoso. As bebedeiras inesperadas eram as mais surpreendentes e nos dias seguintes eram motivo de conversa entre o povo. Havia as choronas, aquelas que terminavam num pranto. Nunca cheguei a saber exatamente por que choravam, se por desgosto se por comoção por se verem rodeados por tão bons amigos. Muito apreciado pelo povo era também a bebedeira bailarina pelo grandioso espetáculo que proporcionava durante o baile com uma dança solitária que terminava numa queda em câmara lenta. A todos os que se viam nestas circunstâncias era lançada a provocação que se dirigia, na aldeia, a quem dava mostras de ter bebido mais que a conta: “Aiê! Vai deitá-la!”.

Quase sempre ficava triste quando acabava a feira. Afinal, só voltaria a assistir a tudo isto daí a mais doze meses. Passava algumas tardes nas semanas seguintes a assistir aos trabalhos de desmontagem da feira deitado por cima do balneário. Os vendedores, no dia seguinte, faziam-se à estrada e partiam para outro lado. A quermesse e a venda de comes e bebes permaneciam mais algum tempo, o suficiente para que a explorássemos e chegássemos a encontrar alguma moeda esquecida. A vida continuava e as férias de verão também continuavam mas sabíamos que já não faltava muito e, acabado o mês de Agosto, estávamos de regresso à escola e à normalidade.

Wednesday, November 07, 2018

Escória

Parece que descansa, como se o esforço de ultrapassar o Monfurado o tivesse levado à exaustão. Parece ter ficado inerte na base mas com os membros ainda semi-estendidos pela serra. Uma mão esquecida no poço da rua, num ângulo que parece desconfortável. Um pé pousado no Lagar, a seguir aos Mouzinhos. Já foi Santiago, agora é só Escoural.
Uma dupla toponímia, ora sagrada, ora profana. A primeira, a sagrada, é atribuída a outro santo, este mais recente que o peregrino: São Nuno de Santa Maria, conhecido na história como Nuno Álvares Pereira e, depois da canonização, como Santo Condestável. De acordo com o que me contaram, terá sido o fundador da vila e o responsável pelo batismo como Santiago, tendo ali vivido numa casa senhorial no Monte do Cavaleiro. Desconheço se haverá aqui rigor ou a tradicional apropriação de uma personalidade icónica que se verifica sempre com os heróis da nossa história, a serem reclamados por cidades, vilas e aldeias de norte a sul.
Desconcertou-me, quando garoto ainda, descobri que Escoural devia o seu nome à escória. Assim mesmo, no fundo, um desperdício. O que resta de um minério depois de retirarmos todo o material de valor. Aquilo que ninguém quer. Os que por cá viveram, há muitos séculos, extraíam do solo da Serra do Monfurado aquilo que de melhor oferecia. O que sobrava era atirado como material inútil encosta abaixo para o sítio onde, mais tarde, nasceria a aldeia. Será, talvez, dessa massa indesejada, desprovida de qualidades, que são feitas as nossas casas. No limite, talvez todos nós sejamos descendentes dessa escória.

Apesar de me confessar leigo em matérias de mineração, a curiosidade tem-me levado a aprender muitas coisas, descobri que apenas chegamos à escória depois de fundir o minério. Quer isto dizer que a escória é um resultado da exposição a temperaturas altíssimas, tão altas que provocam o derretimento de metais. Foi esta descoberta que me levou do desconforto ao orgulho no nome da minha terra. Mesmo que insistam em conotar negativamente a escória, ela já passou por muito e suportou tudo. Foi experimentada pelo rigor do fogo e dele nasceu. Talvez que o metal que se aproveitou em tempos esteja hoje oxidado, esquecido algures ou até totalmente destruído, mas a escória ainda cá está. Em todos nós que descendemos dela. Não sei se nos corre no sangue em quantidades microscópicas, mas quero acreditar que sim. E que para além disso, nos une a todos num laço invisível. Quero acreditar que é o segredo da resiliência dos nossos antepassados. Eram talvez feitos daquela matéria testada pelo fogo e, por isso, resistiram aos séculos, à fome, à peste, à miséria, ao colher da esperança recém-plantada, e aos desafios que se lhes apresentaram. Por isso, para mim, Escoural ressoa-me a duradouro e resistente, como as suas gentes e como a escória.

Monday, October 29, 2018

Dia de Finados

Mãos atrás das costas, inclinado para a frente, calças muito acima da cintura. A cesta da horta em cima da mesa da cozinha cheia de batatas, feijão verde, couves ou cebolas. O  boné usado de forma sóbria, num ângulo perfeito. A voz grave mas fresca como água tirada do poço do monte da Masmorra. A minha atenção, de férias e na minha cozinha, mas como se estivesse na escola. Ouvia falar de História, de reis, do Condestável, da Ínclita Geração, o Príncipe Perfeito, "A Arte de Cavalgar Toda a Sela", D. Sebastião, Sebastião de José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras, mais tarde Marquês de Pombal; Manuel Barbosa du Bocage, uma anedota. De Geografia, as capitais, uma viagem à Argentina, Carlos Gardel. Para Lima, Santiago e La Paz, de seguida, percorrendo os Andes. George Washington e Benjamin Franklin era como se os estudasse na escola, o pára-raios inventado por um dos pais da nação americana. Literatura, de novo Bocage, Elmano Sadino, mas agora mais a sério, Camões e o folclore biográfico. 
Os comboios, a sua vida toda desde que fez o exame da quarta-classe com uma botas emprestadas, as viagens pelo país e por Espanha, a bitola, as linhas ativas e desativadas. As idas com ele a Lisboa, eu meio bilhete e ele sem pagar, comboio, barco, Cais das Colunas, Terreiro do Paço, Rua Augusta, Chiado, uma ginjinha para ele, um capilé para mim que tentava absorver tudo com a mesma avidez com que me refrescava com a bebida. Pescada cozida com batatas e feijão verde ao almoço em Póvoa de Santa Iria. A Expo 98 ainda na incubadora. A viagem de regresso a jogar à sueca com os restantes reformados da CP, rabugentos e intolerantes para com as minhas juvenis renúncias.
O jornal do dia debaixo do braço, já lido e deixado, dobrado, na mesa da cozinha para eu ler. A parte lúdica, o concurso, uma moeda de 100 escudos, às vezes 200, estendida para quem acerte às três perguntas da chamada cultura geral. A sua definição "O que fica depois de se esquecer tudo o que se aprendeu." "Esqueci-me", "Esquece muito a quem não sabe". Eu a ajudar o meu irmão a acertar as perguntas dele, já com 100 escudos no bolso, "Não vale telefones..."
Anos depois, os livros dele. Depois de morto, os sobrinhos a dividirem a biblioteca. Capas bonitas para uns, o resto, os mais gastos, os mais lidos, para mim. Revistas "Vida Mundial", "Vida Soviética", Programas Eleitorais dos partidos para as primeiras eleições livres, "Depoimento" de Marcelo Caetano, livros raros e documentos que a sua inteligência proibiu de irem para o lixo. Tudo isto ficou, e do homem, fora o que escrevi, só sei o nome, Francisco Masmorra.